Simone Silotti: ação contra o desperdício e pela mesa farta

Simone Silotti.
Simone Silotti.

Com restaurantes fechados e feiras suspensas na cidade e em todo o Estado, produtores rurais ficaram sem ter a quem vender. Diante deste cenário provocado pela pandemia do novo coronavírus, desde o final de março agricultores de Quatinga estão reunidos para evitar o desperdício em suas plantações e ajudar famílias necessitadas. Quem está a frente do movimento é a produtora Simone Silotti, que cultiva alface, agrião, rúcula e coentro hidropônicos. Quando ela iniciou a ação, contava apenas com três parceiros e uma campanha de financiamento coletivo (que ainda está disponível em vakinha.com.br) mas em pouco tempo chamou a atenção da Fundação Banco do Brasil, que doou R$ 1 milhão para a causa. A verba impulsionou os trabalhos, e além de já ter ajudado dezenas de instituições da região, o projeto tem beneficiado também 5 mil famílias mogianas, identificadas pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Nesta entrevista, Simone faz um balanço da iniciativa, que já entregou mais de 100 toneladas de alimentos frescos à comunidade.

Por quê distribuir verduras, frutas e outros alimentos?

Com a determinação do governo do Estado, o fechamento de feiras, restaurantes, e empresas com restaurantes corporativos e refeitórios, e também face a todas as demais dificuldades vivenciadas por todos em função das medidas sanitárias no combate a Covid-19, nós produtores rurais ficamos sem ter para quem vender, justamente no momento que nossos canteiros e estufas estavam lotadas de mercadorias sendo preparadas para a semana da Páscoa. Com isso, nós, produtores, entramos em desespero. Os funcionários ficam esperando a ordem para “derrubar”. Do ponto de vista de empresário, é preciso mandar “derrubar”, destruir, passar o trator e desligar os motores, para tentar economizar de alguma forma. Mas e a coragem para fazer isso?

Foi neste momento então que surgiu a ideia de fazer as doações?

Sim. Fui conversar com meus vizinhos, para saber como eles estavam se virando. Isso foi num sábado, e todos estavam tão desolados e se sentindo tão impotentes quanto eu, sem saber o que fazer. Combinamos de não “derrubarmos” as mercadorias, e no domingo comecei a montar a vaquinha virtual dos Agricultores de Quatinga. Sabíamos que seria necessário seguir com o desperdício zero e fazer a colheita normalmente, pois o projeto demoraria algum tempo para dar retorno.

Qual a importância dessa iniciativa?

O Brasil faz parte do ranking dos 10 países que mais desperdiçam alimentos no mundo. Além de desperdiçar menos, as pessoas precisam também se alimentar melhor, sobretudo neste tempo de Covid-19. E para isso, é importante que façam consumo de cinco porções de frutas, verduras e legumes por dia. Para que isso aconteça, precisamos plantar hoje alimentos que vão ficar prontos daqui a 60 ou 90 dias, a depender da cultura e ténica de plantio. Então a partir das doações, da colaboração das empresas, da Fundação Banco do Brasil, conseguimos manter o planejamento de plantio. A gente continua o tratamento, a produção, o cuidado com as plantas, a fertilização, adubação, irrigação. Os profissionais seguem cuidando daquela mercadoria com carinho e zelo com os quais estão a acostumados. A importância é que conseguimos dar sequência, fazendo a colheita, embalando e entregando nas comunidades e instituições que precisam.

Onde entra o apoio da Fundação Banco do Brasil?

Depois de criada, a vaquinha foi ficando negativa, e a situação só começou a melhorar quando a mídia passou a divulgar o projeto. Em certo momento, depois de algumas reportagens publicadas, a Fundação Banco do Brasil entrou em contato para saber como era desenvolvido o trabalho. Eles abraçaram a ideia e fizeram a doação significativa de R$ 1 milhão para nós de Mogi das Cruzes.

Sobre a vaquinha: consta no site que a meta é R$ 300 mil, dos quais apenas R$ 12 mil foram atingidos até o momento, certo?

Até o momento arrecadamos 12 mil reais por lá, de pessoas físicas. Os interessados podem colaborar a partir de R$ 20 e nossa meta é chegar aos R$ 300 mil, porque entendemos que até agosto/setembro vamos continuar tendo muitas dificuldades aqui no campo. Já as empresas têm feito doações em separado, adquirindo caminhões fechados, com toneladas de alimentos que são disponibilizados pras instituições de sua preferência.

Desde que começou, o projeto ganhou parceiros como os grupos Yara e Paripassu. Qual é a relação com eles?

A Yara, por exemplo, patrocinou por um mês a feira de uma comunidade de quase oito mil famílias, um belíssimo projeto. A Paripassu fez uma doação generosa para comunidade indígena do Jaraguá, que ficou surpreendida e muito feliz em receber saladas, verduras e legumes. Então somos muito gratos a estes e outros grupos que têm sido muito parceiros neste momento tão difícil tanto para o produtor como para as comunidades carentes.

Quantas propriedades rurais fazem parte do projeto hoje?

Nós começamos, na Vaquinha Virtual, com três produtores. Depois aumentamos para cinco, e depois para sete. Agora somos 11 produtores em Quatinga que abraçaram o projeto. Conseguimos incluir também a Cooperativa de Jundiapeba, que tem mais 50 agricultores familiares, e inclusive todo o recurso da Fundação Banco do Brasil foi aportado lá. Também incluímos a Cooperativa de Frutas de Santa isabel, portanto, ao todo pelo projeto da Fundação quase 80 produtores rurais puderam ser beneficiados e receberam alento, carinho, apoio e reforço.

Ao todo, quantas toneladas de alimentos já foram doadas?

Somente no projeto da Fundação do Banco do Brasil foi possível resgatar 100 toneladas de alimentos que não teriam para quem ser vendidos, e todos eles foram escoados para 24 instituições de Mogi das Cruzes, que por sua vez distribuíram para as famílias assistidas. Dessas 100 toneladas, 40 toneladas foram colhidas dos produtores de Quatinga, 40 da Cooperativa de Jundiapeba e 20 dos produtores associados à Cooperativa de Santa Isabel.

A primeira instituição a receber doações foi o Banco de Alimentos da Prefeitura de Santo André, ainda no final de março. Que outras entidades foram atendidas depois?

A primeira foi o Banco de Alimentos da prefeitura de Santo André mesmo, que entrei em contato logo no início, e enviamos uma tonelada de alface, agrião, rúcula, couve, coentro, mostarda e espinafre. Depois fui no banco de alimentos de São Caetano e me indicaram a comunidade Caboré, que estava passando por um momento crítico, e começamos a fazer entregas lá. Também estivemos em instituições em Suzano, Rio Grande da Serra, Penha, Mooca e até mesmo na aldeia indígena de Jaraguá, em São Paulo.

Tem algum local onde a ação ainda não chegou, mas gostaria?

Gostaríamos muito de poder levar caminhões e caminhões de hortaliças e legumes pra Cubatão, Santos e Praia Grande. Sabemos que eles não têm soberania na produção de alimentos frescos e passam momento difícil por conta da Covid-19 e também pela falta de turistas nessa época do ano. Pedimos a colaboração de empresas para que patrocinem um caminhão de alimentos a fim de ajudar estas comunidades carentes.

Considerando que a iniciativa tem ajudado tanto os produtores agrícolas como as famílias mais necessitadas, que balanço pode ser feito sobre ela?

Este trabalho é solidariedade mais do que em dobro. Com o mesmo recurso a gente consegue evitar demissões no campo, ajudar, dar apoio e valorizar o pequeno produtor rural, evitar o crime ambiental que é “derrubar” alimentos e ainda levar insumos de qualidade para quem precisa. É muito mais do que unir duas pontas, produtores e quem precisa de alimentos. É muita generosidade num único projeto.

Que avaliação é possível fazer dos impactos provocados pela pandemia, como o fechamento de feiras e restaurantes, para o setor agrícola?

Essa epidemia nos faz refletir sobre muitos valores. Eu lamento muito que nós todos, que o Brasil e o mundo estejam aprendendo e revendo seus valores a duras penas, e que muitas e muitas vidas serão perdidas para que nasça uma nova consciência. Também lamento que essa epidemia tem deixado muitas pessoas em situações de fragilidade e vulnerabilidade. Vamos continuar plantando, pois dessas terras, dessas mãos que aqui trabalham, vão sair alimentos para alimentar cada vez mais pessoas, levando saúde, generosidade e esperança a cada uma delas.


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