CULTURA

Teatro regional se mantém ativo na internet

Como fosse uma despedida, ou melhor, um “até logo”, a 10ª Mostra de Teatro Tablado de Mogi das Cruzes seguiu em plena atividade até o 15 de março, poucos dias antes do decreto oficial de quarentena em todo o Estado. Hoje, quase um mês depois, e com a renovação do confinamento social, as companhias teatrais da região precisam se reinventar para continuar funcionando e “manter viva a chama do fazer artístico”.

A frase é de Daniele Santana, uma das atrizes e gestoras do grupo Contadores de Mentira. Ela relata que a quarentena veio num momento complicado para a trupe, que está em vias de finalizar a segunda etapa de uma importante obra: a construção de uma nova sede, no Parque Maria Helena, bairro da vizinha Suzano.

O mês de abril seria marcado pela inauguração do endereço, o que teve de ser adiado por tempo indeterminado. Ao ver a programação ruir, o grupo não desfaleceu. Pelo contrário, organizou-se em reuniões online que culminaram em atitudes que têm feito a diferença no ambiente online.

A coordenação e os atores do Contadores de Mentira criaram um plano com pelo menos três etapas para ações em redes sociais. Por enquanto está ativa a primeira fase, que consiste em humanizar uma das mais complicadas e severas crises sanitárias que o mundo já viu.

A humanização vem de maneira simples: fotos dos próprios atores segurando mensagens de conscientização e apoio, como “Lave bem as mãos e com frequência” e “Aproveite o tempo com quem está a seu lado”. As imagens são acompanhadas de informações sobre prevenção.

Num primeiro olhar, a iniciativa parece nada interessante artisticamente, mas não é bem assim. A última frase publicada pela companhia, “Você não está sozinh@”, veio com uma poesia de brinde. “Colocamos um poema justamente para que o público se volte para o lugar da poesia e não foque no aspecto do medo da doença”, explica Daniele.

Segundo ela, a ideia “surgiu da compreensão da responsabilidade social, de compartilhar informação”, já que a classe artística possui visibilidade e confiança para com a audiência. Aliás, esta confiança será utlizada também nas próximas etapas do plano deles, quando serão divulgadas possíveis ações de espaços culturais para minimizar os danos econômicos.

E há ainda uma terceira fase, que finalmente proporciona algum contato artístico, ainda que seja digital. “É uma proposta de intervenção, de produção de material. Temos começado a editar vídeos gravados em nossos ensaios e viagens, de lugares em que nos apresentamos e outras coisas. Disponibilizaremos esse material para manter ativa a chama da criação”, promete Daniele.

A dificuldade de encenar em palcos virtuais

Para a atriz Daniele Santana, da companhia Contadores de Mentira, fazer teatro online é algo bem complexo. Diferente da música, que “acaba sendo mais de vazão, podendo ser gravada com o celular” e mesmo assim culminando num produto “sensível” e “tocante”, uma cena, explica ela, é complicada não só porque mesmo em monólogos o teatro envolve toda uma equipe, mas também pelo próprio espaço, limitado para muitos atores, como os que vivem em apartamentos.

Mas e as obras já encenadas e registradas em vídeo? Não seriam elas a opção ideal? “Não no nosso caso, que temos obras filmadas, mas como encenamos de maneira circular ou em formato de corredor, perde-se muito ao gravar”.

É por isso que, na visão dela, a melhor opção é mostrar algo novo ao público, principalmente o que não se costuma ver, como os “momentos de criação”. “Vamos apostar em segredos que não são de bastidores, mas coisas que a plateia realmente não imagina”, diz ela, que ainda acredita em debates e discussões, como uma que sua trupe prepara, com depoimentos de artistas do Alto Tietê, de outros cantos do Brasil e também do exterior.

Aprendizado e produções continuam

Não somente o Contadores de Mentira tem inovado durante o isolamento social. O Teatro da Neura, também de Suzano, criou uma espécie de rifa online para arrecadar verba, e também tem promovido lives sobre temas pertinentes, como “o mundo que nos espera depois desse sufoco”.

Em Mogi, vários dos grupos estão menos ativos nas redes sociais, como a Clara Trupi de Ovos y Assovios, responsável pelo último festival teatral da cidade, a Tearts Produções Artísticas e o TEM (Teatro Experimental Mogiano). Mas isso não quer dizer que estes coletivos estão parados. Um exemplo é o Núcleo de Cultura Ousadia, que tem sede recém-inaugurada no centro da cidade.

A sede, aliás, funciona como uma escola de artes, e boa parte da renda do grupo vem dos cursos e aulas de teatro e circo. Para não ficarem completamente paralisados, decidiram continuar com parte do aprendizado de maneira online, inclusive com a produção de uma nova peça.

“Na medida do possível estamos continuando o curso de teatro pelas redes sociais, mantendo as aulas e o processo de produção, com discussões por áudio, por exemplo”, explica a gestora do espaço, Erika Capella.

Uma das apostas do Ousadia para 2020 é ‘A Serpente’, montagem que segue sendo interpretada e discutida de maneira virtual. “Estamos na parte de entender o texto e os personagens, assim como o figurino e outros detalhes, então falar sobre isso é uma forma de não ficarmos parados”.

Como muitos dos integrantes são adolescentes, Erika diz que há grande preocupação para que a desmotivação não cresça entre eles. Por isso, ela conta que lhes passou várias tarefas, principalmente pesquisa e análise de filmes, já que a primeira montagem experimental do curso será ‘Hamlet’, complexa tragédia de Shakespeare, que exige entender a “questão psicológica das personagens”.


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