Therezinha Bós Vidal, que viu César de Souza crescer, morre aos 87 anos
Depois de ver o distrito de César de Souza crescer e se estabelecer, Therezinha Bós Vidal, muito conhecida em Mogi das Cruzes, faleceu neste sábado (16). Aos 87 anos, ela deixa três filhos, muitos netos e muita saudade. O corpo de Therezinha foi velado no Velório Cristo Redentor, e o sepultamento acontece no Cemitério São […]
16/04/2022 16h19, Atualizado há 52 meses
Depois de ver o distrito de César de Souza crescer e se estabelecer, Therezinha Bós Vidal, muito conhecida em Mogi das Cruzes, faleceu neste sábado (16). Aos 87 anos, ela deixa três filhos, muitos netos e muita saudade.
O corpo de Therezinha foi velado no Velório Cristo Redentor, e o sepultamento acontece no Cemitério São Salvador, agora às 16 horas.
No Facebook, um dos netos de Therezinha, Rodrigo Bós Vidal, compartilhou a foto que acompanha esta reportagem. Na legenda, homenageou a avó: “E com essa foto fica minha lembrança da minha avó que hoje nós deixa para encontrar meu avô e deixar o céu mais lindo… descansa em paz vó… sentirei demais sua falta após todos os jogos do nosso Timão me ligando, mandando mensagem para comemorar ou não… esteja com Deus…”.
O avô que ele cita é Antônio Boz Vidal , que em 1969 criou a Empreiteira Antônio Bós Vidal Filho. Quatro anos mais tarde esta empresa passou a se chamar Empreiteira Vidal, hoje comandada pelos filhos do casal: Dante Antônio, José Tadeu e Luiz Fernando.
Em 2018, esta história – e muitas outras – foram compartilhadas com a reportagem de O Diário, quando Therezinha foi personagem da tradicional coluna “Entrevista de Domingo”. Na época, contou à reporter Carla Olivo como foi assistir ao crescimento do distrito de César de Souza, falou sobre o falecimento do marido, ocorrido nove anos antes, e ainda disse que, um dos maiores prazeres da vida era “ter os filhos, noras e netos por perto”, sendo que a cada domingo ia “almoçar na casa de um deles”.
Relembre a seguir, na íntegra, o texto publicado originalmente em 1º de abril de 2018, há 4 anos:
Ela viu César de Souza crescer
CARLA OLIVO
Nascida na Capital, Therezinha Bós Vidal chegou a César de Souza ainda na infância. Quando tinha 7 anos, os pais Dante Jordão Stoppa e Santa Stoppa vieram para Mogi das Cruzes, onde ele trabalhou como gerente da fazenda de corte de lenha e da Cerâmica Rio Acima de propriedade da família Romeiro. Anos depois, o patriarca da família foi vereador por dois mandatos na Câmara Municipal de Mogi das Cruzes – quando o cargo não tinha remuneração – e conseguiu melhorias que contribuíram para o desenvolvimento de César, como instalação de redes de água e esgoto, pavimentação e iluminação elétrica nas ruas. A mais velha dos quatro filhos do casal (Therezinha, Neide, Neusa e Dante Filho), iniciou os estudos em uma escola local e fez o terceiro e quarto anos do primário no Grupo Escolar Coronel Almeida, no Centro, época em que conheceu o marido, Antônio Bós Vidal, então responsável pelo transporte dos alunos. Após cinco anos de namoro, eles se casaram e Therezinha teve oportunidade de continuar acompanhando de perto a expansão do Distrito, já que o marido sempre apostou em seu potencial e, em 1969, criou a Empreiteira Antônio Bós Vidal Filho que, em 1973, passou a se chamar Empreiteira Vidal, hoje comandada pelos filhos Dante Antônio, José Tadeu e Luiz Fernando. O trabalho social que envolve a comunidade, principalmente adolescentes e jovens, em escolinhas de futebol de campo e de salão e vôlei, no ginásio construído pela família e funcionários da empresa, é um dos orgulhos de Therezinha, que ficou viúva há 9 anos. Na entrevista a O Diário, ela compartilha suas histórias com os leitores.
Quando a família da senhora chegou a César de Souza?
Meus pais moravam em São Paulo quando nasci, mas aos 7 anos, fui trazida para Mogi das Cruzes e não saí mais daqui. Ele veio ser gerente da fazenda de corte de lenha do Pedro Romeiro, que foi comprada do Pedro Avignon, e ficava no Rio Acima, bem para lá da Aços Anhanguera (hoje Gerdau). Anos depois, quando foi criada a Cerâmica Rio Acima, ela também foi gerente da fábrica. Nós morávamos em uma casa que ficava onde mais tarde funcionou a empresa Howa e não havia quase nada, além de muito mato.
Em que época César começou a mudar?
As ruas de César eram todas de terra, algumas sem nome, como a própria Ricieri José Marcatto, que depois de um tempo passou a se chamar Dr. Deodato Wertheimer até ser denominada Ricieri. Não havia esgoto encanado, a água precisava ser tirada do poço e também não tinha iluminação nas ruas, apenas nas casas. Meu pai foi vereador por dois mandatos na Câmara Municipal, na época em que este trabalho era voluntário e não recebia remuneração, e conseguiu muitas melhorias para cá, com a ajuda do ex-prefeito Waldemar (Costa Filho).
Como era o relacionamento da família com o ex-prefeito?
Ele frequentava a nossa casa e sempre foi uma pessoa inteligente, mas geniosa e exigente. Gostava de tudo muito certo, então, se encontrava alguém que não seguisse o que ele queria, era briga na certa. Com meu pai nunca entrou em atrito e sempre foi um amigo verdadeiro. Mogi deve muito do que é hoje ao Waldemar, que levou asfalto à maioria dos bairros e fez muitas obras que ajudaram a Cidade a crescer, principalmente as rodovias Mogi-Dutra e MogiBertioga.
Quais foram as famílias pioneiras em César de Souza?
Meus sogros, Maria do Nascimento e Antônio Bós Vidal, foram pioneiros, assim como as famílias Romeiro; Villar; Gerevini; Vaisett; Coccaro, dona da fábrica de fogos de artifício; Marcatto, que também teve cerâmica; Máximo; entre outras. Minha sogra fazia cocada branca, de coco queimado e de fita para vender e assim ajudou meu sogro a criar os três filhos. Ela também levava os doces para Sabaúna e Biritiba Mirim.
Além das cerâmicas, havia outras empresas?
As cerâmicas Rio Acima e Marcatto marcaram época e empregaram muita gente, mas também tivemos a Howa, Rohm, Nachi, Café Solúvel, Griffith, Aços Anhanguera, Huber Warco, Dresser, entre outras, que contribuíram para o crescimento de César.
Onde a senhora estudou?
Naquela época era difícil, as escolas ficavam longe e eram poucas. Iniciei o primário em uma escolinha no final da Avenida João XXIII e fiz o terceiro e quarto anos no Grupo Escolar Coronel Almeida, no Centro da Cidade. Foi nesta época que conheci meu marido, porque ele trabalhava na Cerâmica Rio Acima e transportava tijolos para várias empresas da Região. Então, ele nos levava à escola, ia fazer as entregas e voltava nos buscar na saída.
Foi nesta época que começou o namoro?
Eu estava com 13 anos, começamos a namorar e cinco anos depois, em 1953, nos casamos na Igreja do Carmo, no período de demolição da Igreja Matriz (Catedral de Santana). Continuamos morando na área da Howa, mas em outra casa. Dois anos depois, viemos para a residência onde estou até hoje, na Avenida Ricieri José Marcatto.
Hoje, esta é a principal via de César. Como era esta região no passado?
Muito tranquila. Havia nossa casa, a dos meus sogros, onde meu marido nasceu; a do seu Zeferino, que morava perto da linha do trem; e as residências dos Villar, Gerevini, Marcatto… Pela rua, que ainda era de terra, passavam cavalos e carroças. Quase não tinha carros na época. Hoje, vive congestionada de veículos e é difícil até mesmo para atravessar. Mas também não tínhamos nada por perto, muito diferente de hoje.
Onde a senhora fazia compras?
Para fazer compras, íamos ao Mercado Municipal, onde comprávamos produtos pesados na hora, como arroz, feijão, fubá, farinha e até o óleo era tirado do tonel e vendido em litros. Depois, foram surgindo os mercadinhos de secos e molhados, onde a compra era anotada na caderneta e paga no final do mês. Como havia poucos moradores, todos se conheciam e não havia problema. Com o passar dos anos, chegaram os mercados e hoje, além do Rimar, que foi o mais antigo, temos o Coap, Shibata e Semar.
Era possível imaginar este desenvolvimento que César de Souza vive hoje?
Jamais. Tudo era tão diferente que não podíamos imaginar que hoje César cresceria tanto. Não havia prédio por aqui. Hoje, temos vários na própria área da Howa, onde morei e só tinha mato para todos os lados, e serão construídos mais. Nem pensava que, depois de tantos anos, César estaria assim, como uma minicidade. Aqui tem de tudo por perto, escolas, supermercados, posto de saúde, todos os tipos de comércio… No dia a dia, a gente não percebe, mas se avaliarmos bem, nem tem mais para onde crescer, só mesmo para os lados do Botujuru.
A senhora acompanhou o marido na empreiteira Vidal?
Em 1969, ele criou a empresa que ajudou na construção da Aços Anhanguera, na época em que a área de construção civil era uma novidade e estava crescendo muito. Em seguida, passou a trabalhar com terraplanagem. No início tinha apenas um caminhão, depois comprou outros dois e a empresa foi crescendo. Paralelamente, como sempre gostou de futebol, jogou no União, Tietê, Comercial, São João, XI da Saudade (time criado por Tirreno Da San Biagio, fundador de), e até chegou a treinar no profissional do Corinthians, time que ele torcia, sempre incentivou o esporte, principalmente entre os adolescentes e jovens.
Como tiveram início as escolinhas de práticas esportivas com adolescentes e jovens?
Meu marido foi fundador e presidente do Vila Suíssa e sempre trazia a garotada para praticar atividades esportivas no salão de jogos da nossa casa, com pebolim, sinuca, pinguepongue, entre outros. Então, eu ajudava a preparar lanches para eles e os uniformes dos jogos no campo de terra, onde hoje está o ginásio que ele construiu em 1977 com a ajuda dos funcionários da empresa, eram lavados aqui. Até hoje a ADC (Associação Desportiva Classista) tem escolinhas de vôlei, futebol de salão e de campo para meninos e meninas, mas em contrapartida, exigimos que eles tirem notas boas na escola.
Qual a importância deste trabalho social?
Isso é o que meu marido fez e meus filhos fazem de mais bonito na vida. Sinto muito orgulho porque há várias pessoas que passaram pela escolinha que tem o Foguinho como treinador, e hoje já estão formadas, bem encaminhadas na vida, com família e filhos. O esporte tira as pessoas das ruas e envolve aquelas que estão ociosas em atividades que ajudam não só na saúde, mas também na própria formação do caráter. Meu marido ajudava todo mundo que o procurava, estava sempre pronto para colaborar com tudo e, por isso, tinha muitos amigos. Foi ele quem doou o terreno e ajudou na construção da Igreja São Benedito, que dá de fundos para minha casa, e também doou os vitrais da Igreja do Socorro. Ele era uma pessoa muito querida na Cidade, principalmente por causa desta solidariedade que sempre praticou.
Os filhos dão continuidade a este trabalho hoje?
Sim. Eles continuam com a Vidal e o trabalho social. O Dante é administrador de empresas, o Tadeu formou-se engenheiro civil e o Luiz Fernando é arquiteto. Nós nunca interferimos no que eles deveriam estudar ou não. Escolheram fazer o curso que queriam, mas sempre ajudaram o pai no trabalho.
Ficaram mais lembranças da Mogi das Cruzes de antigamente?
Sinto saudades da tranquilidade que tínhamos para andar na rua a qualquer hora, já que não havia perigo e nem se ouvia falar em violência ou crimes. Por onde passávamos, sempre encontrávamos pessoas conhecidas, mas depois da instalação das universidades (Braz Cubas e de Mogi das Cruzes), a Cidade começou a mudar muito, porque várias pessoas de outras cidades vieram para cá estudar e ficaram morando aqui. Neste período, começavam a namorar, se casavam, iniciavam a carreira profissional e acabaram ficando em Mogi. Costumam dizer que beberam água da biquinha, então não conseguiram mais deixar a Cidade. Além disso, ainda temos mais qualidade de vida aqui do que em outros lugares, então há aqueles que decidiram vir morar em Mogi por causa disso. Então, a população é muito diferente daquela do passado, quando todas as famílias praticamente se conheciam. Quando saio na rua, dificilmente encontro alguém conhecido.
Há outras recordações?
Uma época boa foi a dos passeios no jardim (Praça Oswaldo Cruz), com moças e rapazes andando para lados contrários a fim de se encontrarem no meio do caminho para o flerte. Também me lembro dos cinemas Urupema, Avenida, Odeon e Parque, onde ia com meu marido, que adorava assistir a filmes de banguebangue. Mas ele sempre foi muito caseiro e gostava mais mesmo era de futebol mesmo.
Hoje, o que a senhora faz para se distrair?
Sempre gostei de andar, fazer as compras da casa, mas nos últimos anos estou com um problema na perna que dificulta isso. Continuo lendo jornais e revistas, fazendo tricô e assistindo às novelas, telejornais e aos jogos do Corinthians. Assim como meu marido, que sempre acompanhei no campo, adoro futebol. Outra distração é fazer palavras cruzadas para a mente não parar de funcionar. Também adoro ter os filhos, noras e netos por perto e, a cada domingo, vou almoçar na casa de um deles. Tenho mais uma neta postiça, a Cintia Priscila, filha da minha ajudante, Maria das Neves da Silva, que trabalha comigo em casa há muitos anos