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Valente, Kachel estava na disputa por um lugar no Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê

Participante das principais discussões e campanhas regionais sobre a preservação do meio ambiente e, sobretudo, dos recursos hídricos irrigados pelo rio Tietê e o complexo de barragens nascido a partir dele, o professor José Roberto Kachel dos Santos (1952-2021) não interrompeu a rotina de acompanhar, munido sempre de cálculos e planilhas oficiais, o que estava […]

Por O Diário
14/02/2021 10h27, Atualizado há 65 meses

Participante das principais discussões e campanhas regionais sobre a preservação do meio ambiente e, sobretudo, dos recursos hídricos irrigados pelo rio Tietê e o complexo de barragens nascido a partir dele, o professor José Roberto Kachel dos Santos (1952-2021) não interrompeu a rotina de acompanhar, munido sempre de cálculos e planilhas oficiais, o que estava acontecendo nesta área durante os últimos oito anos, enquanto tratava um câncer na cabeça. 

LEIA MAIS https://www.odiariodemogi.net.br/noticias/mogi-perde-o-engenheiro-jos%C3%A9-roberto-kachel-o-guardi%C3%A3o-do-rio-tiet%C3%AA-1.9683  

Nas últimas semanas, ele se inscreveu como um dos concorrentes à eleição que acontecerá no próximo dia 5, para a composição do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, composta por 34 municípios, e responsável pela aprovação das políticas de proteção dos recursos hídricos da Região Metropolitana de São Paulo. Kachel iria disputa uma das vagas, representando a Universidade de Mogi das Cruzes UMC). Essa disposição ajuda a compor a biografia de quem era crítico ferrenho e estudioso sobre a poluição do Rio Tietê e defensor aguerrido dos recursos hídricos gerados pelo Sistema Produtor do Alto Tietê.

Criticava sempre, por exemplo, a inércia do Governo do Estado em impedir a ocupação das margens do Tietê e das barragens, e a lentidão do projeto de despoluição do rio que foi escolhido, no passado, para ser o “esgotão” de São Paulo.

Outro mogiano nesta mesma disputa, por uma cadeira no Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tietê, é José Arraes, que almeja uma das vagas destinadas à sociedade civil organizada, por meio do Instituto Cultural do Alto Tietê (Icat).

Os dois defendiam a presença de uma forte representação regional neste órgão como um meio para interferir e orientar as políticas públicas que afetam diretamente a fauna e flora do Rio Tietê, o produtor da água que abastece milhares de famílias da região e de parte de São Paulo, Capital.

Kachel, que trabalhou durante três décadas na Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), participou da construção do sistema de barragens e se via em um papel muito peculiar – o de técnico responsável, em um primeiro momento pela criação deste sistema, e posteriormente, o de espectador das operações para o manejo da produção, distribuição e abastecimento de água.

Foi um leitor e assinante de O Diário, com credencial de fonte e até consultor que participou, nos últimos anos de grandes embates contra o poder público como voz de ponderação e articulador, por meio de denúncias ao Ministério Público, do que se fez em nome do meio ambiente nas últimas décadas.

Conhecedor da legislação ambiental, ele foi autoridade e especialista ouvido em situações, projetos e problemas ligados à construção, manutenção e armazenamento de água nas barragens, e que tinham, como ônus, a redução da vazão do pobre e sujo rio Tietê, a partir de Biritiba Mirim e Mogi das Cruzes.

José Arraes lembrou neste domingo (14) que poucos lutam contra as degradações, e “não ter mais o Kachel, nosso principal apoio e orientador, parece, o fim desta luta dolorosa e insana. Eu tenho e guardo, como amigo e parceiro dele desde as enchentes do Mogilar, e sempre recebi ainda em rascunhos, todos os trabalhos dele sobre o rio Tietê e seus afluentes. Éramos parceiros no Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, assinamos muitas interpelações ao Ministério Público sobre a Estação de Captação e Recalque de Água no Tietê, sobre a ocupação e preservação dos mananciais, sobre as barragens, sobre a ETA do Semae, sobre a ETA de Taiaçupeba, Serra do Itapeti e outras demandas. Tínhamos projeto para fazermos apresentações destes temas em escolas, empresas, associações e sindicatos”.

 

A grande luta

 

Outro traço desse combatente foi a valentia com que enfrentou o câncer, que o retirava do campo durante semanas, por causa dos efeitos colaterais das várias rodadas de quimioterapia. “A doença nunca impediu a sua sagacidade, mas tirou a sua mobilidade”. O corpo não ajudava, mas a cabeça, a mente, não parava.

Por isso, desde o ano passado, quando começou a pandemia, ele participou, como entrevistado de várias reportagens sobre temas como os índices pluviométricos, que reduziram fortemente, o volume de três das cinco barragens do Sistema Produtor Alto Tietê em parte do ano passado, e de outras matérias nacionais em jornais e redes de televisão, como o rompimento da barragem de Jati, em agosto do ano passado.

Arraes conta que irá guardar, além das saudades, os “documentos históricos” e os planos para interceder pela cidade porque “Mogi das Cruzes não será nunca uma cidade dignamente habitável se não preservar a sua natureza florida, serra, matas e principalmente os seus recursos hídricos”.

Como sinaliza o líder comunitário do bairro do Mogilar, “muitos utópicos vendedores de ilusões” daqui, estão “órfãos” com a morte de Kachel.

Ele faleceu neste sábado (13) e deverá ser enterrado hoje (14), no Cemitério Parque das Oliveiras. O corpo é velado no Velório Municipal Cristo Redentor até as 14 horas. Kachel deixou a mulher Ozanira, três filhos e três netos.

 

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