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Veja como foram os primeiros dias da longa peregrinação do Padre Alessandro Campos

“Não é fácil não, mas vale a pena. É uma caminhada de aprendizado. A cada dia que passa, eu tenho aprendido o que é superação, limites, humildade. Mas o que a gente aprende, na verdade, é que  precisamos de muito pouco para sermos felizes. O ser humano só precisa daquilo que é essencial para viver. […]

Por O Diário
16/10/2021 07h59, Atualizado há 58 meses

“Não é fácil não, mas vale a pena. É uma caminhada de aprendizado. A cada dia que passa, eu tenho aprendido o que é superação, limites, humildade. Mas o que a gente aprende, na verdade, é que  precisamos de muito pouco para sermos felizes. O ser humano só precisa daquilo que é essencial para viver. O restante é supérfluo”. Tais observações do padre Alessandro Campos estão contidas numa mensagem encaminhada por ele aos que acompanham a sua trajetória pelo Caminho de Santiago de Compostela, por este jornal. Foi um momento de reflexão vivido por ele, à margem de uma estrada de terra batida, enquanto descansava, à sombra de uma gradne árvore, após algumas horas de caminhada, na saída de Los Arcos em direção a Logroño, onde ele iria viver um dos momentos de maior emoção dos primeiros dias de sua viagem pelos 869 km do Caminho de Santiago de Compostela, que irão conduzi-lo até o cumprimento da promessa feita no Natal de 2020, pela saúde de sua sobrinha Rebeca, à época com 1 ano de idade, diagnosticada como portadora do Transtorno do Espectro Autista (TEA), algo que acabou não se confirmando em exames posteriores, com especialistas.

Ao ver sua irmã e cunhado desesperados com o resultado da primeira avaliação médica, o padre  pediu a Deus pela garotinha, prometendo a caminhada como sacrifício pela graça que alcançaria. 

E que sacrifício!

Bastaram as primeiras horas de caminhada para o religioso sentir que teria pela frente um desafio nada fácil de ser cumprido. Logo após os primeiros quilômetros vieram os calos e bolhas nos pés e o cansaço físico muito comum para quem sempre viveu uma vida sedentária. 

Ainda sentindo os efeitos da mudança no estilo de vida, padre Alessandro promete ir em frente, até seu destino final, que terá de ser alcançado nos primeiros dias de novembro.

 

Vida de peregrino

Dificuldades dos primeiros dias foram compensadas pelas belezas do caminho 

Nada como conhecer Paris, antes de pegar a estrada rumo à catedral de Santiago de Compostela, que fica na Galícia, região noroeste da Espanha.
Mesmo que por poucas horas, mas o suficiente para que padre Alessandro Campos e seus dois companheiros de viagem – Thiago Gomes e Claudio Silva, o  Zum – pudessem visitar a catedral de Notre Dame e a Torre Eiffel, além de provarem os legítimos e deliciosos croissants em sua terra de origem.

No dia seguinte, logo nas primeiras horas da manhã, o padre já estava em Saint-Jean-Pied-de-Port, nos arredores de Paris, ponto de partida para a grande aventura que exigia chapéu, mochila e o cajado, este último, um adereço quase obrigatório para quem terá de enfrentar subidas e descidas íngremes, em solo acidentado, onde o bastão faz as vezes de uma terceira perna para ajudar no equilíbrio do corpo.

Nas primeiras horas de caminhada, o religioso logo passou a sentir que sua preparação física para aquele desafio precisava ter ido além de longos passeios de bicicleta pela periferia de Mogi das Cruzes.

Além do cansaço físico provocado pelo ritmo extenuante da marcha por estradas de chão batido, logo vieram calos e bolhas nos pés, pouco acostumados a tanto esforço.

Mas todas essas dificuldades eram compensadas pelas belíssimas paisagens ornamentadas por vacas e ovelhas, pontos de vegetação intensa, em meio a caminhos cercados por montanhas. Os caminhantes logo começaram a conviver com outros peregrinos  e deparar com surpresas, como uma casa de pedra, usada para pernoite pelos visitantes.

Ao longo do caminho, sinais feitos com pedras ou improvisados em madeira indicam a direção a seguir ou ainda quantos quilômetros ainda faltam para o destino final. A rota incluiu Roncesvalles Zubiri e Viscanet e a conhecida Pamplona, famosa por suas faculdades, em especial a de Jornalismo.

Após passar por Puente La Reina, a meta era andar mais 10 km até Estella e alcançar, ainda naquela tarde, a cidade de Los Arcos. As fortes dores por todo o corpo e o cansaço falaram mais alto e um camping à beira do caminho foi a solução para todos aqueles problemas. 

O quarto com dois beliches e direito a uma ducha na parte externa custou 50 euros. “Está bom. Só espero que o dinheiro não acabe antes da viagem”, brincou o padre, enquanto se livrava dos sapatos que faziam sangrar seus pés.

A noite revigorou as forças e Los Arcos foi a próxima plarada do religioso que pôde testar sua popularidade  junto a um grupo de visitantes do Sul do Brasil. Após as fotos, cumprimentos e tietagens de praxe, eis que apareceu um violão. E foi assim que o padre pôde mostrar os seus dotes de cantor sertanejo em plena praça central da cidade , cantando músicas de Milionário & Zé Rico, além da inevitável “Saudade de Minha Terra”, entre outras, acompanhadas com muita animações pelos turistas do Sul.
Terminada a cantoria, uma visita à igreja da cidade para orações. Mas foi somente à noite, na hora da missa, foi que padre Alessandro conseguiu apreciar de perto e, com as luzes do tempo acesas, a beleza da igreja de paredes douradas, como tantas daquela região, imagens esculpidas em madeira ou barro.

Após a noite em Los Arcos veio mais um dia de caminhada para se chegar até Logroño, onde padre Alessandro Campos viveu uma das mais emocionantes experiências desta primeira etapa da viagem. Na igreja de Santiago el Rey, ele vestiu uma batina branca,  com detalhes na cor verde, e concelebrou, ao lado do pároco titular do templo, a missa do início da noite, para um público formado plrincipalmente por gente da própria cidade e peregrinos de outras partes do mundo. 

Após a missa, padre Alessandro pôde conhecer uma das mais belas igrejas daquela região, verdadeiro tesouro da arquitetura barroca, com paredes cobertas de dourado, por onde estão espalhadas centenas de imagens e símbolos sacros muito antigos. Tudo com uma beleza de tirar o fôlego e riqueza ímpar. Imagens raras, como são raros os tubos do grande órgão, capaz de inundar toda a igreja, de acústica perfeita, com a música que ajudar a levar as pessoas na expressão maior da religiosidade.

Após a visita, um encontro com o pároco que integrantes da comunidade da igreja de Santiago el Rey  num espaço reservado, nos fundos do templo. Orações e cânticos antecederam a um jantar que os visitantes saborearam sem muitas mesuras, após um dia inteiro de caminhada.  

Após a noite, num albergue municipal, a volta à estrada, numa madrugada de frio e ventos intensos. Burgos, outra cidade famosa, seria a próxima parada.

 

Rota da purificação

No depoimento do padre Alessandro Campos, as lições deixadas pelos primeiros dias da viagem a Compostela

PADRE ALESSANDRO CAMPOS

Nós começamos a nossa viagem em Saint-Jean-de-Pied-Port e seguimos para Roncesvalles, a primeira cidade alcançada por nós. Uma experiência fabulosa, porque foi o início da viagem, os primeiros 27 km. Meu Deus, como foi difícil. Subimos as montanhas dos Pirineus, linda paisagem, muito bonita, porém, muita subida. Subir o Pico do Urubu, em Mogi das Cruzes não é nada perto dos Pirineus, que saem da França e vão até a Espanha.
Foi uma experiência fantástica de muito sofrimento.

A gente se empolga muito quando diz que vai fazer o Caminho de Santiago. É bonito, é místico, mas para quem não conhece, não sabe de nada. Para nós que não falamos a língua e não temos noção do que é essa caminhada, para eu que sou um sedentário, ao contrário dos meus companheiros de viagem, não é nada fácil.

Nós saímos de manhã bem cedo com muito frio. 

O mais curioso nesse primeiro dia foi que não levamos comida. Tomamos um café, pela manhã, e fomos subir a montanha. No meu pensamento, achava que no caminho a gente iria parar, almoçar num restaurante, que iria ter comida. 

Depois de duas horas de caminhada, encontramos a primeira parada, mas não estávamos com fome. Pensei: mais à frente deve ter restaurante…
O que não faltva era água, pois a cada trecho existia uma fonte. Mas faltou comida. Meu Deus, que 27 km que não chegavam. A gente subia, subia, subia… e não chegava. Moral da história: não tínhamos nada para comer, absolutamente nada. 

Caminhamos 12 horas com fome. As últimas três horas eram para descer uma ladeira e nós estávamos no limite. E o “Zum” só falava de picanha, feijãozinho. E eu dizia: “Pelo amor de Deus, pare de falar sobre isso”.
E a gente parava, ficava 10 minutos descansando, jogava a mochila no chão. A gente subia, via uma curva e imaginava uma descida. Era outra subida. 

Vocês não vão acreditar, mas quando não estávamos mais aguentando, depois de 10 horas de caminhada, quase no final da descida, a gente parou e foi revirar as mochilas. Tinha de haver uma bala, um doce, senão a gente não chegaria. Não tínhamos mais força.

E o que aconteceu? Encontramos. O Thiago tinha uma vitamina Cebion, o “Zum” tinha um pacotinho de açúcar que guardou do café da manhã e eu um pacotinho de sal. Foi nosso primeiro alimento depois de dez horas de caminhada para aguentar chegar em Roncesvalles. Pegamos um Cebion, o pouquinho de açúcar e sal, dividimos tudo em três. Foi a melhor comida que eu comi na minha vida…

Agora eu entendo por que quando as pessoas passam fome, comem qualquer coisa.Na hora do aperto, da necessidade, meu amigo… Eu não como cebola, pepino e nem pimentão, mas naquele dia, desejei comer tudo aquilo que não gosto. Meu Deus, que sensação horrível é a gente passar fome!

Mas chegamos a Roncesvalles. Foi minha primeira experiência de ficar em um albergue. Imaginei que iria a um restaurante comer para depois dormir. Não havia nada. Só o mosteiro e o albergue, num vilarejo muito pequeno. 
Fomos para o albergue, onde são todos iguais.Homem, mulher, rico, pobre, negro, branco, uma experiência incrível, mas lá tudo tem horário e nossa hora de comer era 21horas. E ainda eram 19 horas. Aí eu imaginei: “Agora vou morrer!” Mas às 9 da noite jantamos: salada, batata, carne, azeite e pão. Foi o melhor jantar da minha vida!

Depois de Roncesvalles seguimos pelas outras cidades. O caminho mais difícil foi Santo Domingo de La Calzada a Belorado.  E continuamos até onde estamos hoje, em San Juan de Ortega.

Esta é uma experiência espiritual muito interessante, magnífica. A gente aprende o que é resiliência. Eu vou dizer a vocês em poucas palavras o que é o Caminho de Santiago. O Caminho de Santiago é o caminho da vida, da nossa vida, é o caminho da purificação, é o caminho do sofrimento, mas é também o caminho da alegria.

A gente encontra pessoas do mundo inteiro, conversa com todo mundo, ninguém entende coisa nenhuma, mas acaba se entendendo. E quando encontra brasileiro é uma alegria.  Cada um com uma história de vida. Muitos sabiam da nossa viagem pelo Instagram e ficavam contentes em nos ver.

Mas vamos seguindo adiante. Além das dores nas costas, na coluna, pernas todas assadas, bolhas nos pés e dores no joelho. Tem hora que dá vontade de desistir, chamar um táxi e ir embora, mas é gratificante, porque a gente vai aprendendo, no meio do caminho, com as coisas muito simples. 

E o que o Caminho de Santiago me ensinou até agora?  Me ensinou que nós precisamos de muito pouco para sermos felizes. No decorrer do caminho, a mochila vai pesando e você vai tirando as coisas de dentro dela e jogando fora. Você vai aprendendo que há tantos pesos que você carrega na vida e que são desnecessários. Por isso, eu quero tirar esses pesos da mochila da minha vida para ser feliz. E todos devem pensar nisso.  

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