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Alto Tietê guarda marcas do arquiteto Ruy Ohtake

Reconhecido mundialmente pelo seu trabalho, o arquiteto Ruy Ohtake, que faleceu no último sábado, aos 83 anos, vítima de um câncer na medula, teve a seu lado, durante os últimos 40 anos, a arquiteta mogiana Márcia Umeoka, que chegou ao escritório do mestre, em São Paulo, para um estágio de seis meses, após haver se […]

Por O Diário
03/12/2021 14h43, Atualizado há 57 meses

Reconhecido mundialmente pelo seu trabalho, o arquiteto Ruy Ohtake, que faleceu no último sábado, aos 83 anos, vítima de um câncer na medula, teve a seu lado, durante os últimos 40 anos, a arquiteta mogiana Márcia Umeoka, que chegou ao escritório do mestre, em São Paulo, para um estágio de seis meses, após haver se formado na turma de 1980 da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Braz Cubas, e lá permaneceu até os dias atuais.

Aos 62 anos, a Márcia que começou fazendo pequenos levantamentos e desenhos de alguns projetos mais simples, tornou-se atual diretora administrativa do escritório, um dos mais conceituados do País, onde ela vivenciou as mais incríveis experiências no campo da arquitetura, desenvolvidas pelo líder Ruy Ohtake, “um ser brilhante”, que conseguia sempre “extrair o melhor das pessoas”. “Ele conseguia te instigar e desafiar para que você fizesse o melhor”, relembra Márcia, para quem o convívio com o arquiteto significou “um aprendizado diário”.

À medida que o tempo ia passando, a estagiária que passou a fazer parte do time do escritório, também ia recebendo outras atribuições e participando mais ativamente do desenvolvimento de grandes projetos, que tinham a marca da visão vanguardista do arquiteto, responsável por definir os perfis de verdadeiras obras de arte, como os hotéis Renaissance e Unique e o Instituto Tomie Ohtake, localizado no coração de São Paulo, uma homenagem à artista e mãe de Ruy, atualmente presidido pelo outro filho, Ricardo.

Mas o que Márcia definitivamente não esquece é do projeto da Embaixada do Brasil em Tóquio, outra obra com os traços marcantes, elegância e essência características de Ruy Ohtake, que a mogiana, descendente de japoneses, “orgulhosamente” desenhou, como ela faz questão de lembrar, usando ainda o nanquim e papel vegetal. “É um dos orgulhos que tenho”, diz Márcia, que a todo instante ressalta a importância do trabalho e criatividade do mestre. 
Das pranchetas do escritório saíram outros projetos com a marca registrada de Ruy: o Parque Ecológico do Tietê e o conjunto habitacional que ficou conhecido como os “redondinhos” de Heliópolis, na zona sul de São Paulo.

A cada trabalho que participava, Márcia se esforçava cada vez mais. E foi durante o final da grande crise da década de 80, quando a economia começava a dar sinais de reativação, que ela foi escolhida para liderar e administrar uma espécie de cooperativa informal, que reunia perto de 70 profissionais, àquela altura ocupando vários andares do  escritório da Avenida Faria Lima, em São Paulo, onde trabalhavam mais de 100 colaboradores.

A cooperativa, que oficialmente não existia, era uma forma de o escritório driblar a fase mais aguda das dificuldades e retomar o trabalho em grande estilo.

“Cheguei na crise e participei da retomada do escritório”, conta ela, orgulhosa de haver atuado diretamente nos principais projetos de Ruy Ohtake, auxiliando-o naquilo que fosse necessário.

Obras na região

E como era o desenvolvimento de um projeto ao lado de um conceituado arquiteto, como Ohtake? Logo que o escritório era contratado para planejar alguma obra, o mestre sentava-se à mesa junto com Márcia e outros para montar o programa de trabalho. 

Para desenvolver o projeto do zero, programava-se o que o espaço disponível para a obra deveria ter, sempre com Ruy dando as opiniões a serem desenvolvidas. “A gente montava uma estrutura e ia conversando até achar o formato ideal da obra a ser apresentada ao cliente”, conta Márcia, lembrando que, em seguida, a proposta era discutida diretamente com o contratante. O acompanhamento do trabalho a ser feito pela empreiteira contratada dependeria do interesse do cliente, ainda que o projeto tivesse todas as informações técnicas necessárias para se executar a obra. De acordo com a concepção, o escritório fornecia dados em forma de desenho.

Márcia recorda de projetos como o Centro Cultural de Palmital, cidade do interior paulista, e de grandes edifícios comerciais desenvolvidos pela equipe do escritório: “O brilhante era ele, eu só fazia parte da equipe”, diz ela, modesta.

Márcia se lembra também do Parque Ecológico do Tietê, um megaprojeto, concebido em 1974, destinado a preservar toda a várzea do rio Tietê, desde sua nascente, em Salesópolis, no extremo Leste do Alto Tietê, até Santana do Parnaíba, adiante de São Paulo. Uma proposta que contemplava 33 áreas para implantação de parques, dos quais, apenas cinco núcleos foram concluídos, como os de Engenheiro Goulart, Penha, Santana, Vila Jacuí e Jardim Helena.

O projeto que já foi interrompido por inúmeras vezes, está sendo novamente retomado pelo governo estadual. “Mas é algo que custa caro e depende muito de vontade administrativa para ser executado”, afirma Márcia, citando que nele existe ainda o parque previsto para as proximidades da antiga Cosim, no caminho para Braz Cubas, em Mogi das Cruzes.
Foi também o escritório de Ruy Ohtake que elaborou o Plano Diretor de Salesópolis, a quem o arquiteto ofereceu, como doação, o projeto do Museu do Eucalipto, ainda a ser executado naquele município.

Não faz muito tempo, Ohtake foi procurado pelo mega empresário mogiano, Fumio Horii. Disposto a desenvolver um plano urbanístico para a região da várzea do Tietê, numa área adquirida por ele, entre os distritos de Braz Cubas e Jundiapeba. Horii encomendou ao arquiteto o anteprojeto de um grande parque, que estivesse devidamente integrado ao plano de ocupação da área, situada entre a linha férrea da CPTM e o rio Tietê, nas proximidades da avenida das Orquídeas.

“Infelizmente, Horii e Ohtake faleceram antes que o parque fosse implantado”, lamenta Márcia.

Parque da Cidade

Nascida em Mogi das Cruzes, filha de Norma, 93 anos, e Yoshiharu Umeoka, 96 anos, donos da tradicionalíssima Farmácia Umeoka, Márcia foi especialmente designada por Ruy para participar ativamente da elaboração do projeto para o futuro Parque da Cidade, que iria ocupar uma área de 85 mil m², localizada, no espaço do antigo Clube Siderúrgico, na rua Jardelina de Almeida Lopes, no Parque Santana, bairro do Alto do Ipiranga.

 Ela se lembra de como tudo aconteceu, a partir da visita de Ruy Othake ao local:
“Quando ele foi ver a área, vislumbrou um local ideal para desenvolver um belo parque. Gostou do entorno, que lhe possibilitaria criar um espaço utilizando as formas naturais do terreno, onde um movimento de terra anterior, deixou barrancas, que poderiam servir como arquibancadas para um teatro de arena. 

A declividade existente no local também poderia ser aproveitada para abrigar elementos do futuro parque, com plenas condições de melhorar a qualidade de vida da população do entorno e dos usuários em geral”.

Ruy Ohtake logo pensou no teatro de arena para receber espetáculos culturais, no espelho d’água e até num borboletário (até hoje ainda não implantado). Uma pesquisa sobre a cidade mostrou que Mogi é grande produtora de flores e o arquiteto colocou no projeto um mercado de flores e espaço para divulgar o produto, marca registrada mogiana. O campo de futebol lá existente teria de ser melhorado e ele propôs também espaços restritos para churrasqueiras, que seriam locados antecipadamente aos visitantes, uma pista para caminhadas com 1.200 metros, além da recomposição da mata nativa da Mata Atlântica ao redor de toda a área.
“À medida que ele ia vislumbrando, recebia o feed back da administração”, diz Márcia, lembrando ainda que o projeto deveria privilegiar uma área para prática de judô, esportes de mesa e para a prática de música.

“Um espaço totalmente degradado, que seria transformado num parque multiuso, hoje uma bela área de lazer, que valorizou sobremaneira aquela região da cidade”, diz Márcia, sempre destacando a liderança de Ruy no projeto.

O arquiteto Claudio de Faria Rodrigues, da Secretaria Municipal de Planejamento, acompanhou de perto a elaboração do projeto do Parque da Cidade, como relembra para O Diário:

“Desde o início, Ohtake se mostrou muito ligado com as características de Mogi e como poderia contribuir com seus traços na construção de um novo parque para os mogianos. Ao longo de todo processo esteve em Mogi em pelo menos quatro ocasiões e quando as reuniões eram em São Paulo, sempre nos recebia com um imenso sorriso em seu escritório localizado na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Uma pessoa de grande valor e de grande simplicidade. Mas, é importante dizer que todo o carinho, a riqueza de detalhes com os projetos em Mogi, representavam também a gratidão por ter ao seu lado a mogiana Marcia Umeoka que trabalha há muito tempo com ele”, completou Claudio.

Futuro

E qual será o futuro do escritório de Ruy Ohtake, após seu falecimento? Na opinião da diretora administrativa, Márcia Umeoka, tudo vai depender exclusivamente de decisões que deverão ser tomadas pelos integrantes da família do arquiteto. “Ele deixou um legado muito importante. Quando se fala em Ruy Ohtake, logo se lembra do Hotel Renaissance, ou do projeto dos ‘redondinhos’, desenvolvido por ele especialmente para a comunidade de Heliópolis. É um grande legado e eu, particularmente, acho que não dá para parar,” diz Márcia, citando que Ruy deixou um filho, Rodrigo Ohtake, que também é arquiteto, e tem ainda o irmão, Ricardo, que é o atual presidente do Instituto Tomie Ohtake, “um dos polos de cultura mais importantes de São Paulo”.

E Márcia, pensa em voltar para Mogi ou abrir seu próprio escritório?

“Márcia está há 40 anos com Ruy. Vivi e respirei Ruy Ohtake por 40 anos, mas acho que não teria um escritório próprio. Só posso dizer que sou muito grata pela oportunidade e que foi um privilégio poder conviver com uma pessoa tão inteligente e especial. Pensar em qualquer coisa, é muito preliminar ainda. De coração, nunca vou me afastar desse legado que o Ruy Ohtake deixa.”, responde ela.

E, por fim, Márcia define como foi todo esse tempo de convivência com o criativo arquiteto:
“Muito aprendizado, resiliência, ensinamentos, arquitetura, respeito à vida e ao próximo, além das obras maravilhosas que ele deixa”.

 

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