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A realidade da adoção: pesquisa inédita revela como idade, cor e porte definem o destino de animais em abrigos no Brasil

O que define a sorte de um cão ou gato à espera de um lar? Para compreender os gargalos e as oportunidades do ecossistema de proteção animal no país, a pesquisa “Panorama da Adoção no Brasil – ONGs”, encomendada por GoldeN e o Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC), e realizada pelo Opinion Box, […]

Por Edicase Conteúdo
30/06/2026 15h01, Atualizado há 2 horas

O que define a sorte de um cão ou gato à espera de um lar? Para compreender os gargalos e as oportunidades do ecossistema de proteção animal no país, a pesquisa “Panorama da Adoção no Brasil – ONGs”, encomendada por GoldeN e o Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC), e realizada pelo Opinion Box, traz dados inéditos sobre a realidade dos abrigos.

O estudo revela que a adoção no Brasil ainda é fortemente guiada por um viés estético e prático, o que condena animais idosos, de pelagem escura e com condições de saúde à “invisibilidade”, além de evidenciar uma crise silenciosa no pós-adoção.

O levantamento mapeou o cenário dominado por abrigos privados/ONGs (46%) e protetores independentes (37%), e descobriu que a maioria opera de forma enxuta — cuidando simultaneamente de até 100 cães e gatos (54%) e doando, em média, até 5 animais por mês (66%).

Dentro dessa realidade já reduzida de chances, a matemática da preferência não fecha: enquanto os animais adotados com maior facilidade são os filhotes (81%) e os cães de pequeno porte (92%), a fila de espera é liderada por animais idosos (59%) e adultos (34%). A idade é, de fato, o principal limitador para a adoção, sendo apontada por 86% das instituições. 

A dificuldade se estende também à cor e à saúde

Animais de pelagem preta/escura enfrentam grandes barreiras para serem escolhidos por uma família (69%), assim como pets com deficiências ou limitações físicas e crônicas (dificuldade relatada por 75% das ONGs). Entre os gatos, o estigma recai fortemente sobre doenças como FIV/FELV (75%).

“O que os dados mostram não é um ato de maldade, mas um comportamento guiado pelo medo do desconhecido e pela procura de um ideal. O adotante busca por um filhote a partir de um filtro estético e projeta nele a ideia de uma ‘tela em branco’, sem traumas e de fácil adaptação, enquanto enxerga no animal idoso, preto ou com alguma condição de saúde um futuro de maior complexidade e custos veterinários”, analisa Lucas Galdioli, vice-presidente do Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC).

Isso prejudica os animais que seguem na espera por um lar. “Esse viés, muitas vezes inconsciente, cria uma invisibilidade que dificulta a adoção justamente dos animais mais vulneráveis. A pesquisa evidencia a necessidade de ampliar ações de educação sobre guarda responsável e de fortalecer o suporte no pós-adoção para promover relações mais sustentáveis e reduzir devoluções”, acrescenta.

Mulher segurando e dando beijo em um cachorro com pelagem branca e dourada
O sucesso da adoção depende do alinhamento de expectativas antes que o animal vá para casa (Imagem: andrii antonenko | Shutterstock)

A ilusão da linha de chegada e a crise dos 3 meses

A pesquisa “Panorama da Adoção no Brasil – ONGs” sugere que a adoção ainda é frequentemente tratada como o fim do processo, quando o principal desafio começa no período de adaptação, com a maior parte das devoluções acontecendo na janela crítica dos primeiros três meses. Segundo o estudo, 71% das ONGs avaliam que os adotantes possuem apenas um “conhecimento básico, com lacunas relevantes” sobre guarda responsável. O tutor subestima, principalmente, a adaptação do animal (73%) e os cuidados veterinários (57%).

Esse cenário evidencia uma necessidade urgente de conscientização prévia: o sucesso da adoção depende do alinhamento de expectativas antes que o animal vá para casa. Mais do que o impulso do momento, é fundamental educar o futuro tutor sobre as reais responsabilidades que o aguardam para evitar as devoluções.

Segundo as ONGs, subsídios para consultas, apoio comportamental e educação prática são essenciais para evitar devoluções. Essa percepção é confirmada pelo estudo “Percepções e Hábitos sobre Adoção” também de GoldeN/Opinion Box, feita com tutores e divulgada em abril, que relata que os maiores desafios após a adoção foram justamente os gastos com saúde (27%) e a adaptação de comportamento do pet (32%).

Para Felipe Mascarenhas, head de marketing de GoldeN, o papel da marca no incentivo à adoção passa, necessariamente, por promover a transparência e a conscientização. “A escolha de um pet não deve ser baseada em um ‘checklist’ de perfeição. Nosso compromisso, ao incentivarmos a adoção, é também desmistificar os medos que deixam tantos animais ‘invisíveis’ nos abrigos. Para combater o ciclo da devolução é preciso informar o futuro tutor sobre a necessidade de paciência na adaptação e sobre a importância do planejamento financeiro. Assim ajudamos as pessoas a tomarem uma decisão muito mais madura e responsável, garantindo que o ‘sim’ para um novo pet seja para a vida toda”, pontua.

Gatos lideram adoções em reflexo à verticalização

Os adotantes estão preferindo os gatos. O levantamento com ONGs revela que os felinos já são os mais adotados (41%) em relação aos cães (32%), um dado que confirma na prática a profunda transformação cultural conhecida como “gatificação”. Dados do relatório anual do MVAbrigos Brasil indicam predominância nas saídas e adoções de gatos em comparação aos cães ao longo dos últimos anos, sugerindo maior fluidez nas adoções felinas. 

Segundo o Instituto Pet Brasil (IPB), a população de gatos nos lares brasileiros já ultrapassa os 30,8 milhões, e seu crescimento foi 96% superior ao de cães entre 2022 e 2023.

Este fenômeno não é um acaso, mas um reflexo direto da busca do brasileiro por um pet que se adapte à vida moderna, marcada por espaços menores e rotinas mais independentes. Fato que se conecta diretamente à busca por cães de pequeno porte. Em ambos os casos, a “praticidade” — seja a independência do gato ou o tamanho do cão — tornou-se um fator decisivo na escolha do novo animal de companhia.

Por Jéssica Santos

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