Super El Niño: drenagem, contenção e combate a ocupações ainda são desafios para se enfrentar fenômeno climático
Professor de Engenharia da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) alerta que cidades devem se tornar mais preparadas para resistirem a secas severas, crise hídrica e enchentes
06/07/2026 17h47, Atualizado há 1 hora
Super El Niño deve causar mudanças no clima entre julho e setembro deste ano | Divulgação
Um recente boletim do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) revelou que, entre julho e setembro de 2026, estão previstas chuvas acima da média na região Sul do país e abaixo do esperado para a média histórica do trimestre no Centro-Norte. São efeitos do super El Niño, com um cenário climático que traz um grande desafio para as cidades e deve ser enfrentado com a importante contribuição da engenharia, capaz de torná-las mais preparadas e resilientes para o que está por vir. O alerta é de Joni Matos Incheglu, professor do curso de Engenharia Civil da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).
“A mesma cidade que sofre com enchentes repentinas, meses depois, vive crise hídrica, o que demanda projetá-las para enfrentar os dois extremos ao mesmo tempo, com respostas bem estruturadas da engenharia. A drenagem sustentável, a recuperação da permeabilidade do solo urbano e reservatórios com uso duplo caminham nessa direção”, destaca Incheglu, que também é coordenador dos Comitês de Reurb (Regularização Fundiária Urbana), de Carregadores Veiculares e de Engenharia Condominial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) e Conselheiro Titular do Crea-SP no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo.
Para superar bem o período, Incheglu destaca três importantes frentes da engenharia que precisam estar no radar das cidades.
“Na geotecnia, é essencial termos contenções bem dimensionadas, drenagem profunda e estabilização de encostas, apoiadas em investigação de subsolo adequada. Na drenagem urbana, a chamada infraestrutura verde-azul, com pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes e reservatórios de amortecimento; em vez de expulsar a água o mais rápido possível, retê-la e infiltrá-la. A terceira frente é a do monitoramento e da informação, com sensores e instrumentação de encostas e estruturas, gêmeos digitais e o uso de BIM no planejamento, que permitem antecipar problemas em vez de remediá-los”.

Reavaliação de limites
A reavaliação de limites das construções é outro ponto de cuidado. Muitas normas técnicas que dão base à segurança foram calibradas a partir de séries históricas de clima: “Contudo, eventos que tratávamos como excepcionais passam a ocorrer com mais frequência e magnitude, o que demanda reavaliar os limites e revisitar as premissas de projeto, como os tempos de retorno adotados para chuvas de dimensionamento da drenagem, as velocidades de vento, a estabilidade de encostas e taludes e o comportamento das fundações em solos saturados”, acrescenta.
Outro desafio é cuidar do edificado existente, de acordo com o professor da UMC: “A inspeção predial periódica e programas de manutenção e reforço estrutural são fundamentais, identificando a fragilidade antes que o evento extremo a transforme em acidente. A isso, soma-se a execução de projetos de drenagem à altura do novo padrão de chuvas e, talvez, o mais importante: não adianta construir mais forte no lugar errado, sem planejamento territorial. Muitas tragédias são de localização, não de estrutura. Reavaliar critérios é reavaliar também onde se pode e onde não se pode ocupar”.
Na opinião de Incheglu, ciência, tecnologia e engenharia são capazes de reduzir drasticamente os danos de um El Niño intenso: “Colocar esse aparato no centro do planejamento das cidades, e não apenas na resposta ao desastre, é a decisão mais importante que podemos tomar diante do que vem pela frente”, conclui.
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