Calor: 7 dúvidas sobre o impacto da alta temperatura na saúde
À medida que as temperaturas sobem, cresce também a preocupação dos brasileiros com os efeitos do calor sobre a saúde. Em 2026, o super El Niño deve contribuir para alterações nos padrões de chuva e para episódios de calor extremo, com previsão de até seis ocorrências no país até o fim do ano, e já impulsiona a […]
09/10/2026 19h02, Atualizado há 1 hora
À medida que as temperaturas sobem, cresce também a preocupação dos brasileiros com os efeitos do calor sobre a saúde. Em 2026, o super El Niño deve contribuir para alterações nos padrões de chuva e para episódios de calor extremo, com previsão de até seis ocorrências no país até o fim do ano, e já impulsiona a busca por informações sobre como as altas temperaturas afetam o organismo.
Levantamento realizado pelo Research & Innovation Center, núcleo de pesquisa da Afya, identificou aumento nas pesquisas online relacionadas a sintomas e problemas que podem estar associados às altas temperaturas. A análise cruzou informações sobre as buscas por temas de saúde com alertas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e dados do Climatempo.
Entre os destaques, o interesse pelo termo “insolação” teve um salto nos últimos dias de setembro, enquanto pesquisas relacionadas a sintomas de desidratação tiveram alta de 120%. Também apareceram entre os temas de maior interesse questões sobre pressão baixa, uso de umidificador, sangramento nasal e problemas de pele relacionados ao calor.
A partir desses dados, a médica Gabriela Gomes, professora da Afya Redenção, explica sete dúvidas que ganharam destaque nas buscas e quais cuidados podem ajudar a proteger a saúde nos dias mais quentes.
1. Como saber se é insolação?
O interesse de busca por “insolação” atingiu o maior salto identificado no levantamento do Research & Innovation Center: cerca de cinco vezes em quatro dias. Entre as principais dúvidas, estão “insolação como tratar”, “sintomas de insolação leve” e “o que é bom para insolação”.
“A insolação, também chamada de golpe de calor, é uma condição grave em que o organismo perde a capacidade de controlar adequadamente a própria temperatura. Pode ocorrer após exposição ao sol, esforço físico ou permanência em ambientes muito quentes”, explica Gabriela Gomes, que acrescenta: “Temperatura corporal muito elevada associada a confusão mental, alteração do comportamento, convulsões ou perda de consciência é um sinal de alerta. A pessoa pode estar suando; a presença de suor não exclui insolação”.
A suspeita de insolação é considerada uma emergência. Por isso, a orientação é acionar o SAMU (192), procurar atendimento médico e iniciar o resfriamento do paciente enquanto se aguarda ajuda, levando a pessoa para um local fresco, retirando roupas desnecessárias e molhando a pele com água fresca. Não se deve oferecer líquidos a quem esteja confuso, sonolento, inconsciente ou com dificuldade para engolir.
Quadros de tontura, fraqueza, náusea e suor intenso podem indicar exaustão pelo calor, que é diferente de insolação. Nessa situação, se a pessoa estiver plenamente consciente e conseguir engolir, pode tomar água em pequenos goles, além de interromper o esforço e resfriar o corpo. Piora, vômitos persistentes ou ausência de melhora em cerca de 30 minutos exigem atendimento; sinais graves exigem ajuda imediata.
“Para a hidratação habitual, a água é a primeira opção. Bebidas com eletrólitos podem ser úteis quando há suor intenso e prolongado, como em exercício ou trabalho físico por várias horas no calor. Elas não são necessárias para todas as pessoas e não substituem atendimento em uma emergência”, esclarece a médica.
2. Como saber se estou desidratado?
As buscas relacionadas a sintomas de desidratação cresceram 120%. “Sintomas” e “soro caseiro” aparecem entre os termos em alta. “Os sintomas mais comuns são sede, boca seca, redução da quantidade de urina, urina mais escura, cansaço e tontura”, explica a médica.
Quando a desidratação é mais intensa, podem ocorrer queda da pressão arterial, aceleração dos batimentos cardíacos, tontura persistente ao se levantar e prostração. Confusão mental ou dificuldade para despertar são sinais de emergência.
“Crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e pacientes que utilizam medicamentos como diuréticos merecem atenção especial. O ideal é beber água regularmente. Quem tem insuficiência cardíaca, doença renal ou restrição de líquidos deve seguir a orientação individual de seu médico, sem aumentar indiscriminadamente a ingestão”.
3. Calor pode baixar a pressão?
“Pressão baixa” apresentou o maior volume de interesse de buscas entre os temas analisados pelo Research & Innovation Center, com pico em 26 de setembro. As dúvidas mais frequentes incluem “o que fazer” e “existe remédio”.
O calor faz os vasos sanguíneos da pele se dilatarem para facilitar a dissipação de calor. Ao mesmo tempo, a transpiração aumenta a perda de água e sais minerais. A combinação de vasodilatação e desidratação pode favorecer a queda da pressão arterial.
“Por isso, em dias muito quentes, algumas pessoas podem apresentar tontura, fraqueza, escurecimento da visão ou desmaio, principalmente ao se levantar rapidamente”, explica Gabriela Gomes, que acrescenta: “Isso merece atenção em idosos, pessoas desidratadas e pacientes que usam anti-hipertensivos ou diuréticos. Diante de tontura, interrompa a atividade e sente-se ou deite-se em um local fresco. Não suspenda nem altere medicamentos por conta própria. Desmaio, sintomas persistentes ou associação com dor no peito ou falta de ar exigem avaliação”.

4. Preciso usar umidificador quando o ar está muito seco?
As buscas por “umidificador” praticamente dobraram. O aparelho, porém, nem sempre é necessário. “Ele pode aliviar desconfortos associados ao ar seco, como ressecamento do nariz e da garganta, mas seu uso deve depender da umidade dentro do ambiente”, explica a médica.
Uma faixa de referência para a umidade relativa em ambientes internos é de 30% a 50%, que pode ser acompanhada com um higrômetro. O tempo de funcionamento depende dessa medição e das condições do local; não há um número fixo de horas adequado para todos. “É importante evitar excesso de umidade, trocar a água diariamente e fazer a limpeza conforme as instruções do fabricante. Um aparelho mal higienizado pode dispersar microrganismos, e ambientes excessivamente úmidos favorecem fungos e ácaros”, orienta Gabriela Gomes.
5. Sangramento no nariz no calor: o que fazer?
O volume geral de buscas por sangramento nasal permaneceu estável, mas a pesquisa específica por “como parar” aumentou 140%.
O ar seco pode ressecar a mucosa nasal e favorecer sangramentos, mas nem todo episódio é causado pelo calor. Quando ocorrer, a orientação é sentar, inclinar a cabeça e o corpo levemente para a frente e apertar a parte mole do nariz, abaixo da região óssea, por 10 a 15 minutos contínuos, sem soltar para conferir. Respire pela boca. “Não jogue a cabeça para trás, porque o sangue pode escorrer para a garganta”, alerta a médica.
Se o sangramento persistir após a compressão, for volumoso ou vier com tontura, fraqueza, dificuldade para respirar ou trauma, procure atendimento. Episódios recorrentes e uso de anticoagulantes também precisam de avaliação. Para prevenir ressecamento, a solução salina nasal pode ajudar. Após o sangramento, evite assoar o nariz e manipular a região.
6. Brotoeja é alergia ao calor?
Buscas por brotoeja e alergia apresentaram leve alta, assim como a expressão “alergia do calor”.
“A brotoeja, ou miliária, não é uma alergia ao calor. Ela ocorre quando os canais que levam o suor até a superfície da pele ficam obstruídos. O suor retido provoca pequenas bolhas ou lesões, que podem coçar ou causar ardor”, explica Gabriela Gomes.
O cuidado principal é reduzir o calor e a transpiração, usar roupas leves e folgadas e manter a pele fresca e seca. “Geralmente, a brotoeja melhora em poucos dias. Se houver pus, dor importante, febre, piora ou ausência de melhora, é necessário procurar avaliação. Nem toda lesão que aparece no calor é brotoeja”, acrescenta a médica.
7. Calor pode afetar o coração?
No recorte das buscas em relação às altas temperaturas, o levantamento do núcleo de pesquisa da Afya identificou aumento repentino de buscas relacionadas ao coração. Em Goiás, por exemplo, “infarto” apresentou aumento de 350% como assunto relacionado ao calor. Na região Norte, o levantamento também observou buscas relacionadas a infarto no Amazonas, além de temas ligados a mal-estar e alergias.
“O calor intenso exige adaptações do sistema cardiovascular. Os vasos da pele se dilatam para dissipar calor, e o coração pode precisar trabalhar mais para manter a circulação”, explica Gabriela Gomes. Temperaturas extremas podem agravar doenças cardiovasculares, especialmente em idosos e pessoas com insuficiência cardíaca ou doença coronariana.
Por Julia Costa e Costa