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Após enfrentar a Covid, o pipoqueiro Linguiça morre aos 73 anos em Mogi

Desde o início da pandemia, um dos pipoqueiros mais antigos da cidade, o Linguiça, Benedito Humberto de Paula Oliveira, deixou nas mãos dos filhos que já o ajudavam, o carrinho conhecido por muitos mogianos no Largo do Rosário. Como tratava de uma incontinência urinária e problemas no coração, ele parou de fazer o que desde […]

Por O Diário
10/07/2021 12h04, Atualizado há 59 meses

Desde o início da pandemia, um dos pipoqueiros mais antigos da cidade, o Linguiça, Benedito Humberto de Paula Oliveira, deixou nas mãos dos filhos que já o ajudavam, o carrinho conhecido por muitos mogianos no Largo do Rosário. Como tratava de uma incontinência urinária e problemas no coração, ele parou de fazer o que desde menino garantiu a sobreviência dele e da família: a venda da pipoca e da maçã do amor.

O nome do negócio diz sobre a história de resistência que se desenrola a partir daí: “Mundo Doce do Amor”.

O pipoqueiro e os filhos são conhecidos pelo ponto de venda na região central, mas também pela participação em festas religiosas tipicas nas igrejas distrito de César de Souza, onde a família reside, e de outros santos comemorados em festejos antigos como os de Biritiba Mirim, Lagoa Nova e Guararema.

Linguiça, que se esquecia do verdadeiro nome, Benedito Humberto, faleceu no último dia 7, após dois dias de internação no Hospital das Clinicas Luzia de Pinho Melo.

No dia 20 de junho, ele testou positivo para a Covid-19, e apresentou sintomas leves, como conta uma de suas filhas, Anatália, que também teve a doença, assim como o filho dela, de dois anos (mas com complicações leves). Ela esta prestes a dar à luz, e se mantém em casa por recomendação médica.

Com o passar dos dias, a falta de ar sentida por Linguiça foi melhorando, segundo conta a filha. Porém, no dia 5, ele passou a sentir mal, foi levado pelo resgate do Samu ao hospital, e não resistiu às complicações. Ele já tinha feito cateterismo e no início do ano, uma cirurgia de catarata.

Mesmo com esse quadro, a família estava confiante. Os filhos receberam um emocionante áudio feito por uma dos profissionais do Luzia de Pinho Melo, onde, com a voz frágil, mas embalada pela esperança, ele acreditava que voltaria para casa

Na conversa, ele fala sobre a harmonia com a familia e a mulher, Leonor, a saudade dos netos, e a fé no tratamento: “Se Deus quiser, logo eu volto para a casa”.

Nas redes sociais, a morte do pipoqueiro foi lamentada por clientes que o conheciam. A filha conta que há pessoas que compram a pipoca feita pelos De Paula Oliveira todos dias.

Legado

A história deste mogiano que aos 4 anos perdeu a mãe, Oscarlina Gomes de Oliveira, é de resistência.

Como o pai dele, Antonio de Paula Oliveira, casou-se após ficar viúvo, o então garoto fugiu de casa. E passou a viver pelas ruas de bairros de Mogi. Chegava a dormir, como falava, em ‘buracos abertos” em encostas de César de Souza, segundo  lembra a mulher dele, Leonor Maria da Silveira de Paula Oliveira.

Até que um dia, ele encontrou um parquinho de diversões, onde começou a trabalhar. Inicia, ali, a trajetória do pequeno empreendedor que sempre sobriveu de festas e da venda dos saquinhos de pipoca e outras guloseimas.

Leonor mesmo ele conheceu no parquinho, um equipamento muito comum durante as décadas iniciais do século passado quando as opções de entretenimento eram praticamente apenas as festas religiosas.

Leonor Maria tinha 17 anos, ele, 28, e recém-operado de uma hérnia. “Ele estava mal e me perguntou se eu queria trabalhar no carrinho.Eu aceitei, em três meses ele pediu aos meus irmãos, e mesmo sem saber direito o nome dele, nos casamos”, reconta.

Eram outros tempos. Festas e as andanças com o parquinho de diversões garantiam pouco sustento. “Chegamos a passar fome, a comer restos de feira mas, os filhos foram crescendo, nos ajudando, fomos melhorando a nossa vida”.

Hoje, os cinco filhos – Viviane, Luciano, Lúcio, Anatalia e Cintia – tocam o legado do patriarca, que foi enterrado no Cemitério da Saudade, sem a realização de velório.

O pipoqueiro deixou a mulher, os filhos e os netos Gisele, Giovanna, Kauany, Gabriel, Ghael, Manuel, e Mikhael, o sétimo descendente dele, que está a caminho.

Valores

“Apesar de ter vivido na rua, e de tanta gente ter preconceito com quem vive na rua hoje, o meu pai foi um exemplo: não bebia, não fumaça, sempre trabalhou e não deixava de pagar nenhuma conta”, conta Anatalia, destacando que os valores de honestidade e confiança são as marcas deixadas por ele aos filhos e netos.

Neste sábado (10), após breve período de luto, os filhos reabriram o carrinho, que se adaptou com o passar do tempo. No início, recorda-se Leonor, o marido dispunha apenas ium tamborete e uma pequena mesa, onde colocava um fogareiro fraquinho. 

E, por fim, a história do apelido: quando começou a trabalhar no parque de diversão, o menino magro era o mais alto de todos. Daí, virou Linguiça. Quando as pessoas o chamavam de Benedito, ele nem respondia.

 

 

 

 

 

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