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Arquiteta propõe PPP para preservar a antiga rodoviária de Mogi das Cruzes

Uma pesquisa da mogiana Maria Luiza Barezi para o Trabalho Final de Graduação de Arquitetura, na Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), propõe solução para a preservação de um imóvel particular, mas de interesse público para a cenografia e a história mogiana: o prédio da antiga rodoviária localizada entre as ruas Dr. Deodato […]

Por O Diário
31/12/2021 06h55, Atualizado há 56 meses

Uma pesquisa da mogiana Maria Luiza Barezi para o Trabalho Final de Graduação de Arquitetura, na Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), propõe solução para a preservação de um imóvel particular, mas de interesse público para a cenografia e a história mogiana: o prédio da antiga rodoviária localizada entre as ruas Dr. Deodato Wertheimer e Avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco.

Ali foi construída a primeira rodoviária entre os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, no estilo Art Déco. Costurado por mudanças desde a década de 1950, o local perdeu linhas e características – inicialmente, ele também era um posto de gasolina, mas se mantém como um registro físico único nesse eixo central em transformação. Maria Luiza, de 24 anos, agora já exercendo a profissão, defende a urgência de se concluir o processo de tombamento desse patrimônio municipal, interrompido em 2008 por força de uma ação judicial. A O Diário, ela fala sobre a pesquisa e o bem que Mogi das Cruzes possui para compor seu acervo arquitetônico e histórico. A profissional vê como um norte para se garantir a restauração do prédio uma Parceria Público-Privada (PPP).  Confira:

 

Maria Luiza, como nasceu e o que motivou a pesquisa sobre a antiga rodoviária?

O tema da pesquisa partiu da necessidade de encontrar uma temática para meu Trabalho Final de Graduação em Arquitetura, em 2019. Desde o início, eu sabia que meu objeto seria em Mogi das Cruzes, porque tendo estudado em uma universidade fora (a Faculdade de Arquitetura da Unesp fica em Bauru) por 4 anos, teria um novo olhar sobre a cidade. Eu tinha necessidade de me reconectar a ela. A escolha do edifício especificamente, se deu a partir de pesquisas sobre a formação da cidade. A partir do momento que tive conhecimento do que o edifício representou durante o processo de expansão da cidade entre as décadas 1940 e 1950 vi a oportunidade de exaltar a história que ele representa.

Quais foram as informações mais valiosas encontradas durante a pesquisa?
A partir de pesquisas bibliográficas como os livros de Grinberg, pude traçar uma narrativa com base na relação entre o movimento de pessoas e a cidade de Mogi das Cruzes até a década de 1950. Essa relação foi dividida em três períodos: fundação da cidade e as bandeiras, expansão econômica e a ferrovia e a consolidação da cidade e da rodovia. Tive acesso a informações como a história da fundação, a economia à época, o processo de “urbanização” com a chegada de serviços de esgoto e fornecimento de energia elétrica aos principais edifícios públicos e, por fim, a construção de uma tipologia arquitetônica bastante pioneira para a época, e também sobre a rodoviária, construída em um estilo arquitetônico nomeado de Art Déco, considerado o movimento precursor do Modernismo Brasileiro. 

Quais são os registros que qualificam a antiga rodoviária a ser tombada como um patrimônio histórico?
A antiga rodoviária é um edifício-marco na história da cidade de Mogi das Cruzes, pelo seu pioneirismo com relação ao estilo arquitetônico protomoderno, o Art Déco, e por ser a primeira rodoviária na Estrada Velha Rio-São Paulo. 

Quais são os caminhos, em sua opinião, para se conseguir os recursos para o restauro do prédio?

Antes de se pensar em uma intervenção no edifício, devemos ressaltar que ele está num processo de tombamento municipal desde 2008, interrompido por meio de uma decisão judicial. É de extrema importância que esse processo seja concluído com o edifício tombado, garantindo que a preservação e a restauração seguirão  as recomendações técnicas baseadas nas documentações existentes do prédio. Com relação aos recursos financeiros para que isso possa se concretizar, hoje temos a questão do edifício ser um bem privado, dificultando os investimentos diretos de órgãos públicos. Dessa forma, acredito numa cooperação público-privada por meio da inscrição do edifício em editais de preservação de bens históricos culturais nas instâncias municipal, estadual e federal. 

Que tipo de uso você vislumbra para esse espaço?
Além da pesquisa, no TFG tive oportunidade de desenvolver um projeto para a antiga rodoviária. Nele, discuti a poética do movimento e do repouso, através de uma narrativa na qual o edifício ecoa esse movimento a partir de seu contexto. Para isso, a intervenção partiria do desenho urbano do entorno imediato, no qual busquei um equilíbrio entre o pedestre e o carro, diminuindo a largura da via na Rua Dona Firmina Santana e aumentando as calçadas, criando um espaço compartilhado seguro e convidativo. Partindo da rua, sugeri que se mantivessem os comércios existentes, que configuram um atrativo e de forma a não gerar impacto nas vidas dos ocupantes atuais daquele espaço. No térreo, recriei o saguão central de espera dos tempos em que a rodoviária ainda funcionava no edifício, a partir de uma releitura das formas e materialidades presentes, alocando uma pequena exposição iconográfica em uma das suas paredes. No pavimento superior, desenhei um acesso para uma biblioteca ramal com tema na história da cidade e para uma praça suspensa no terraço existente. Acredito que o uso para o espaço da antiga rodoviária deveria ser pensado em comunicação com todo o contexto que está inserido e que deve respeitar a integridade do edifício, propondo usos que sejam compatíveis com o prédio existente. 

Outras cidades preservaram as antigas rodoviárias?
O tombamento da antiga rodoviária tem importância pelo seu estilo arquitetônico inserido no movimento protomoderno Art Deco e como marco na história da cidade. Pelo país, existem diversas rodoviárias que são tombadas, como a Rodoviária de Jaú, no interior paulista, e a Rodoviária de Londrina, ambas projetos modernistas do arquiteto Vilanova Artigas. 

Qual seria a importância de se preservar esse prédio, que escapa do perfil dos casarões e igrejas centenárias?
A dificuldade de preservação do patrimônio histórico não é exclusividade da nossa cidade. Com muita frequência, vemos notícias de bens históricos em ruínas por todo o Brasil. Recentemente, a Cinemateca Brasileira, responsável pela preservação da produção audiovisual do país e dona do maior acervo da América do Sul, passou pelo seu segundo incêndio nos últimos anos, um em 2016 e o mais recente em julho deste ano, tendo parte do seu acervo consumido pelo fogo. Além da Cinemateca, podemos citar os incêndios do Museu Nacional no Rio de Janeiro e o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo com exemplos do descaso com a história e com a cultura no período em que vivemos. A importância de uma conservação correta dos bens materiais históricos está atrelada a preservação da nossa memória e cultura.

 

Saiba mais

É possível pesquisar e conhecer o Trabalho Final de Graduação de Arquitetura, feito pela mogiana Maria Luiza Barezi.

Além da história desse prédio histórico, com detalhes sobre a decisão do prefeito Renato Granadeiro Guimarães, que desapropriou o terreno onde ela foi construída, seguindo o projeto feito pelo arquiteto Shiro Jiro Mukai, que venceu uma licitação pública, e foi encomendado por José Mário Calandra, pai de Maria Aparecida Calandra, que está escrevendo um livro sobre a história da família e desse prédio.

Para conferir a pesquisa e as sugestões de Maria Luiza para o projeto, acesse: https://issuu.com/marialuizabarezi/docs/trabalho_final_de_gradua_o_-_unesp_bauru_-_maria_

 

 

 

 

 

Sonho Italiano 

Maria Aparecida de Mello Calandra

Simples é perguntar sobre a Rodoviária de Mogi das Cruzes, que teve a construção iniciada em 1939, pela Família Calandra, com a ajuda do casal Ernesto Calandra e Philomena Pellegrino Calandra, seus filhos, noras e genros.

Inaugurada antes de meu nascimento, em 31 de maio de 1941, pelo representante da Presidência da República, Dr Adhemar de Barros, durante a Segunda Grande Guerra Mundial.

Mas, ninguém pode imaginar, na nevoa do tempo, o quanto lutaram, a saga dessa família, que veio da Itália, Roma e Nápoles.

Como poderei esquecer dos olhos negros, cintilando ao me verem, de vovó Philomena, que saira de Nápoles e que eu chamava de vovó da Malinha. Sempre esperando-me, com ansiedade e tendo nas mãos uma maçã vermelhinha, importada, comprada, com carinho para me presentear como símbolo de saúde.

Jamais deixarei de sentir o pulsar do coração de vovô Ernesto Calandra, sempre muito bem arrumado, com colete e terno alinhado, que aninhava-me em seu colo.

Ao fundo, no salão elegante da casa, localizada na Rua Cardeal Arcoverde, um espelho em cristal Bisotê e todo entalhado na madeira coberta pelo brilho do ouro, que reluzia, iluminando o ambiente.
Corações de famílias Italianas que por um amor rejeitado, pela diferença social, aqui aportaram no Brasil, em Minas Gerais, depois em São Paulo e posteriormente, na cidade de Mogy das Cruzes, como era chamada.
No fundo, uma música italiana que plangia, as lágrimas que bailavam no coração de vovó e a sobriedade inabalável de vovô Ernesto.

Seus corações ficaram na Itália e os sonhos vieram realizar no Brasil.
Sob tal emoção, ouvindo “El Mundo”, começarei a descrever, em capítulos, a saga de minha família italiana que se mesclou com os brasileiros.
Vovô Ernesto Calandra, olhos azuis acinzentados, perfil de Lorde, vovó pequenina, estilo mignon, como o meu, cabelos longos sempre presos e negros. A esses pioneiros dedicarei os próximos capítulos da Família Calandra.

Assim como não deixarei jamais de esquecer meus tios avós italianos, primos e primas, que deixaram suas raízes na luta contra as guerras, como embaixadores e o amor pela terra nas Quintas e preciosas parreiras e vinhedos, na Itália, onde vivem e os quais já conheci e não quero morrer sem deles me despedir.

Meu coração pulsa… Compassadamente, crivado pela saudade dos que lá ficaram… Que partiram para o Brasil, para plantarem suas sementes.
Sementes que rompem em hastes fortes, raízes profundas, tronco e galhos exuberantes, que desabrocharam em flores e frutos.

Vejo-me como fruto dessa árvore genealógica, que repousa no escrínio de corações Italianos.

A Estação Rodoviária de Mogi das Cruzes, simboliza a luta, disciplina, fé, temperança, coragem, sabedoria, luta pela Justiça, com muito trabalho, fazendo dessa Estação local de lágrimas nas partidas e chegadas por décadas, em Mogi das Cruzes.

Na Estação Rodoviária de Mogi das Cruzes, pulsam corações e enquanto houver um Calandra, ela existirá, para mostrar, o quanto amamos nosso Brasil.

Crônica encaminhada a O Diário por Maria Aparecida de Mello Calandra em agosto de 2021

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