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“Se pudesse, tiraria a minha família daqui”, diz morador de Boiçucanga

O músico Fábio Torres Pereira, de 48 anos, casado com a professora de Educação Física mogiana, Priscila Vaz Torres Pereira, tirou uma folga na noite de sábado (19), porque estava recebendo a cunhada, Denise, e outras duas amigas de Mogi das Cruzes, em Boiçucanga, em São Sebastião, no feriado de Carnaval.  A O Diário, ele […]

Por O Diário
24/02/2023 07h20, Atualizado há 38 meses

O músico Fábio Torres Pereira, de 48 anos, casado com a professora de Educação Física mogiana, Priscila Vaz Torres Pereira, tirou uma folga na noite de sábado (19), porque estava recebendo a cunhada, Denise, e outras duas amigas de Mogi das Cruzes, em Boiçucanga, em São Sebastião, no feriado de Carnaval. 

A O Diário, ele relembrou os momentos de tensão para a retirada de tio-avós idosos, famliares e amigos de um dos terrenos alagados da água. A vida, resumiu, “não deverá ser a mesma nunca mais”.

Com 48 anos, nem ele, nem a mãe dele ou os tios-avós tinham vivido nada semelhante ao que aconteceu na noite de sábado (19) para domingo, quando o volume de chuva chegou a 626 milímetros, em São Sebastião, entrando pelos vãos das portas, janelas e telhados e fazendo vítimas fatais – algumas das quais, gente conhecida da família. 

Em Bertioga, os índices apontaram um recorte nacional, 682 mm de chuva acumulada, segundo o Centro Nacional de Previsão de Monitoramento de Desastres (Cenadem) (veja como ficou a Mogi-Bertioga).

No terreno da casa herdada da matriarca, Laurinda dos Santos, na rua Antonio Ledo dos Santos, duas das seis casas foram abandonadas, após uma encosta cair; lama e água tomaram as demais estruturas. Alimentos foram perdidos, roupas estão com barro, colchões não servem mais, móveis “estufaram” e foram descartados. 

O músico reencaixa detalhes do início da chuva, quando a água começou a encher a rua e ele decidiu estacionar o carro em um trecho mais alto, por volta das 22 horas. A previsão falava em 200 milímetros de chuva. 

No carro, ele colocou bens como os equipamentos de som usados em suas apresentações em restaurantes e hotéis de endereços conhecidos de Juquehy e orla próxima.

Perto de completar 50 anos, o morador garante que nunca houve uma enchente como essa, lembrando que um dos temporais mais dramáticos ocorreu há alguns anos, quando choveu 330 milímetros – na noite do final de semana, o índice foi quase o dobro, e tem sido cravado por meteorologistas como histórico para a região.

Pouco tempo depois de levar o carro dele e de uma das visitantes de Mogi para um local mais seguro, a queda de parte do morro que faz fundo para o terreno de propriedade da família, onde casas de tios e primos, foram construídas, e o rápido aumento da água, fizeram com que as pessoas mais novas retirassem as mais velhas – mais de 30 pessoas, apenas da família Pereira e amigos, foram a pousada de um vizinho, onde ninguém dormiu. Saíram a nado. Fábio afirma que  o resgate foi feito com a água na altura do peito.

“Nós tivemos de tirar nossa família de dentro de casa, nadando, para levá-los para um lugar seguro”, relembra. Havia três idosos com idades entre 80 e 91 anos. Todos passam bem.

Ainda na madrugada, quando retornou para colocar móveis e objetos em cima de mesas, a água seguia na altura de sua cintura dentro de sua residência. 

Numa destas idas e vidas, o celular caiu na enxurrada, mas foi recuperado, após secar dentro de um pote de arroz. A falta de comunicação com o morador elevou a preocupação de conhecidos. A comunicação falha foi uma outra marca destes dias, assim como a inflação rápida de todos os produtos.

Ainda há dezenas de pessoas desaparecidas e o fim do contato com o mundo foi uma caracterísitca desta calamidade pública. Não havia sinal de telefonia, nem internet.

 

Nenhum familiar do músico ficou ferido, mas danos materiais foram grandes. Amigos e conhecidos, no entanto, morreram. Os resquícios da lama dentro das residências é algo menor (embora, afete a vida de todos). 

Desde o final de semana, Fábio acompanha etapas do resgate e da volta à “normalidade” como o restabelecimento parcial da água: “ainda está sem força, então, não dá para limpar o que sobrou, como as panelas, e as roupas seguem molhadas, e terão de ser lavadas”. Tenta ainda, segundo contou, apaziguar os ânimos das pessoas.

Na segunda-feira, ainda era impossível a saída de turistas porque os acessos a Boiçucanga estavam bloqueados. Isso ocorreu na terça-feira. “Era uma fila imensa de pessoas correndo para ir embora”. Parecia, segundo comparou, a uma espécie de guerra, de grande fuga.

As amigas mogianas levaram horas para cumprir o trajeto por caminhos alternativos à Mogi-Bertioga, que segue fechada, e voltaram para a casa.

Amizades

Boiçucanga tem cerca de 10 mil moradores e chega a receber, em feriados como o Carnaval, cerca de 50 mil.

A mulher de Fábio, Priscila, e a filha do casal, assim como outros familiares estão alojados em casas de conhecidos, nas proximidades.  Até quarta-feira, ainda há havia como retornar para casa.

Afortunadamente, os danos, no caso da família Santos e Pereira, foram materiais. Porém, o futuro é uma interrogação. “Algumas pessoas, inclusive familiares, que viviam aqui, não têm condições de reconstruir as casas nos mesmos locais”, conta, destacando uma outra característica dessa tragédia ambiental – a ferida social porque a maioria das pessoas mais afetadas são trabalhadores.

O artista afirma que a maior parte dos vizinhos atingidos com o desmorornamento de construções é formada por moradores que atuam no comércio e rede hoteleira.

“Se eu pudesse, eu tiraria a minha família daqui, mas, isso é impossível agora”. Assim como ele, esse é o drama de quem viu a força da natureza, levando árvores, levantando carros (veja foto).

Fábio acredita que uma saída, para a moradia das pessoas que perderam as casas, seria a construção de casas populares em áreas da união, que existem em terrenos próximos à rodovia Rio-Santos, e distantes de riscos como o de deslizamentos de encostas.

Outra incógnita diz respeito ao futuro do turismo, uma das bases da economia dessa série de praias muito conhecidas e frequentadas, e da mobilidade das pessoas. Será importante a recuperação dos acessos para se alcançar o ritmo do turismo no local.

Ele teme que o desinteresse de empresários “que fazem o PIB ser alto em muitas praias” impacte a vida financeira e social dos demais. “A nossa economia depende dos condomínios de luxo, das mansões de jogadores de futebol, como as que existem em Maresias”, diz, argumentando, que o futuro dos locais mais atingidos dependerá de acomodações como a oferta de mobilidade mais rápida para os frequentadores e de segurança.

Ajuda

Com as casas ainda enlameadas, moradores mais atingidos recebem ajuda de organizações sociais e do estado, que têm doado roupas, produtos de higiene e água, além de refeições. Nesta quarta-feira, ele foi buscar marmitex servidos pelo projeto Buscapé, mantido por chefs de cozinha.

Questionado sobre como será a vida a partir daqui, Fábio responde rápido: “Não sei se volta a ser como já foi um dia”. Até o futuro, acrescenta, ao sinal de chuva, a preocupação chega, e, passados os primeiros dias, as pessoas ainda estão magoadas, sentidas e temorosas com a instabilidade do tempo. 

 

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