Denúncias sobre cartaz de Mogi foram feitas por mães e avós de crianças autistas
Ofendida e indignada. Foi assim que Ingrid Dias Penachio se sentiu quando viu, há mais de um mês, colado na parede de uma escola municipal em Mogi das Cruzes, um cartaz que listava “16 características do autismo”. Mãe e avó de crianças autistas, foi ela quem iniciou uma série de denúncias ao material de divulgação, […]
07/07/2022 19h14, Atualizado há 49 meses
Ofendida e indignada. Foi assim que Ingrid Dias Penachio se sentiu quando viu, há mais de um mês, colado na parede de uma escola municipal em Mogi das Cruzes, um cartaz que listava “16 características do autismo”. Mãe e avó de crianças autistas, foi ela quem iniciou uma série de denúncias ao material de divulgação, que estampava conteúdo preconceituoso, como a afirmação de que os portadores do espectro são “agressivos e destrutivos”. Os cartazes já foram removidos, e o prefeito de Mogi, Caio Cunha (PODE), pediu desculpas pelo ocorrido.
“Eu vi esse cartaz na escola do meu filho. Ele está fazendo 4 anos hoje. Está lá há algum tempo, e toda vez que eu via, ficava incomodada com aquilo. Na quarta-feira (6) resolvi tirar uma foto e coloquei no grupo de mães de autistas para ver se elas tinham a mesma visão que eu, porque fiquei muito indignada. E fiz essa denúncia”, conta Ingrid.
De acordo com ela, outras unidades de ensino apresentavam as mesmas mensagens, e isso fez com que outras pessoas denunciassem também. “Achei muito horrível. Fiz um vídeo sobre a conotação que coloca o autista como agressivo e deu repercussão”.
Funcionária pública da área da Educação e formada em História, Ingrid trabalha em ambiente escolar. Por isso, a ofensa não veio somente enquanto mãe. “Como educadora me senti muito ofendida com essa situação. Um cartaz a que não é educativo, que só denigre a imagem de uma criança autista, de uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”.
A mogiana finaliza dizendo que tanto o neto quanto o filho, Noah Joaquin Dias Oliveira, o neto são “crianças lindas e amorosas”, que “têm sim certas dificuldades na aprendizagem, na fala e no desenvolvimento, mas em nenhum momento são como o cartaz diz, agressivas”.
Momentos de crise, pontua, existem, mas não simbolizam violência e sim um meio de comunicação. “Por exemplo, meu filho não fala, e o meio de se comunicar é empurrando às vezes, porque quer mostrar que está desconfortável”.
A literatura comprova que ela está certa. No livro “Autismo: Práticas e Intervenções”, organizado por Luciana Garcia de Lima, a fonoaudióloga, mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e especialista em Audiologia, Maria Silva Wuo de Oliveira Lopes fala justamente sobre a comunicação.
“O autismo apresenta etiologias múltiplas, e é caracterizado por déficit na interação social e inabilidade em relacionar-se com o outro, quase sempre combinados com déficits de linguagem e de alterações de comportamento; pode afetar os indivíduos em vários graus em uma escala de leve a severo. Os sintomas e a gravidade podem variar com o passar do tempo”.
Em uma das frases do polêmico cartaz produzido pela prefeitura de Mogi – sobre o qual o prefeito já se desculpou, dizendo que “alguém da Secretaria de Educação” copiou um conteúdo de um informativo de 2019 – consta que as crianças autistas “giram objetos de maneira bizarra e peculiar”. Impressionada com o termo, Ingrid disse ter procurado a médica de Noah, que teria esclarecido que, embora seja uma palavra ssociada a características pejorativas, “bizarro” de fato aparece na literatura médica.
Mas há outras maneiras de descrever as ações, como Maria Silva Wuo faz, para explicar movimentos relacionados a interação. “Gestos com a finalidade comunicativa raramente são utilizados por crianças com autismo. Muitas vezes, a criança conduz o interlocutor pela mão ou usa a mão do outro para alcançar o que deseja em vez de apontar para o objeto desejado”.
Há outras informações nas 159 páginas deste livro, que está disponível para compra na internet, e também no “Protocolo de Diagnóstico Tratamento e Encaminhamento de Pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, do Governo do Estado de São Paulo, que é gratuito.