Ex-diretor do Semae, engenheiro Walter Villar morre aos 82 anos
O engenheiro agrimensor Walter Villar, que trabalhou no Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae) durante mais de três décadas, morreu nesta quarta-feira (16), aos 82 anos, vítima de problemas cardíacos. Amigos e familiares prestaram as últimas homenagens no Velório Municipal Cristo Redentor, de onde o corpo foi levado para o sepultamento no Cemitério São […]
16/06/2021 19h37, Atualizado há 62 meses
O engenheiro agrimensor Walter Villar, que trabalhou no Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae) durante mais de três décadas, morreu nesta quarta-feira (16), aos 82 anos, vítima de problemas cardíacos. Amigos e familiares prestaram as últimas homenagens no Velório Municipal Cristo Redentor, de onde o corpo foi levado para o sepultamento no Cemitério São Salvador, também no Parque Monte Líbano.
Ao longo do trabalho na autarquia municipal, Villar acompanhou quatro prefeitos na cidade – Carlos Alberto Lopes, Waldemar Costa Filho (em quatro gestões), Francisco Ribeiro Nogueira e Junji Abe.
Com descendências espanhola, italiana e francesa, o mogiano nasceu no sítio dos pais, o comerciante e operário da antiga Cerâmica Vila Suíssa, Francisco Villar da Paz, e a dona de casa Andrezza Villar Bacaycoa, em César de Souza.
Lá, o caçula dos seis filhos – Primo, hoje já falecido, Mercedes, Leonor, Helena, Elvira e Walter – passou parte da infância, mas como no distrito só havia o curso primário, quando ele tinha 7 anos, a família mudouse para a rua Navajas, na região central da cidade.
Villar estudou no Instituto Dona Placidina e no Ginásio do Estado (hoje Escola Estadual Dr. Washington Luís), onde participou da fanfarra e dos times de vôlei, futebol de salão e de campo que disputavam a Brascol.
Em seguida, formou-se na Escola Paulista de Agrimensura (EPA), na Capital, e em Engenharia de Agrimensura, na cidade de Araraquara. Na adolescência, já ajudava o pai no Bar Odeon, no cinema homônimo.
Depois, passou pelo Banco Bradesco, Elgin Máquinas, Aços Anhanguera, Furnas (Goiânia), Refinaria da Petrobrás (Cubatão), Construtora Rabelo (Bauru) e Suzano Papel e Celulose.
A trajetória no Semae teve início em 1968, como agrimensor, mas foi interrompida após um ano e meio e retomada em 1976, quando Villar já era engenheiro. Após a aposentadoria como diretor técnico, em 1993, ele continuou no cargo por mais um ano. Em 1997, com o retorno de Waldemar Costa Filho à Prefeitura, Villar voltou ao Semae, onde ficou até 2006, já no governo de Junji Abe.
Villar deixa a mulher, Luzia Martins Franco Villar, e os filhos Cristiano, Daniela e Rafael.
Personagem da série Entrevistas de Domingo, de O Diário, Villar contou suas histórias na edição de 4 de dezembro de 2016:
Em qual região da Cidade o senhor nasceu?
Nasci no sítio dos meus pais, que ocupava toda aquela área onde hoje está o Supermercado Shibata, na esquina da Avenida Ricieri José Marcatto e Rua Catarina Carrera Marcatto, em César de Souza. Sou o caçula da família e ali passei parte da infância ao lado dos meus irmãos, o Primo, hoje já falecido, Mercedes, Leonor, Helena e Elvira. Meu pai (Francisco Villar da Paz) era espanhol e veio para o Brasil aos 7 anos, numa longa viagem de navio, com meus avós, que foram trabalhar na plantação de café no interior do Estado de São Paulo. Os pais da minha mãe (Andrezza Villar Bacaycoa) tinham descendência italiana, espanhola e francesa e também se mudaram para cá a fim de trabalhar no campo. Ela nasceu em Barra Bonita e conheceu meu pai quando as famílias já moravam em São Miguel Paulista. Ali eles se casaram e vieram para César, onde ele trabalhava das 18 às 6 horas, queimando tijolos nos fornos da antiga Cerâmica Vila Suíssa, que pertencia ao Ricieri e José Marcatto. Nesta época, minha mãe vendia arroz, feijão e outros produtos em um armazém de uma porta só.
Ficaram mais recordações da infância em César?
Tive uma infância muito boa no sítio e lembro que minha mãe sempre nos trazia em uma charrete para assistir aos filmes no Cine Parque, onde hoje funciona o Supermercado Esperança, na rua Dr. Ricardo Vilela, e deixava o cavalo amarrado numa grade. Tivemos cinco cinemas na Cidade. O Vera Cruz e Parque não sei de quem eram, mas o Odeon e Urupema pertenciam à família Mello Freire e o Avenida era dos Jungers. Quando eu estava com 7 anos, nos mudamos para a região central da Cidade.
Por quê?
Como em César só havia o curso primário, o meu irmão mais velho vinha a pé, junto com o Dr. Nobolo Mori, que morava no Botujuru, para estudar no Ginásio do Estado, no Centro da Cidade. Para que eu e minhas irmãs não tivéssemos que fazer o mesmo, eles decidiram vir para uma casa alugada, na Rua Navajas, 50. Por ali havia a fábrica de tecidos Mogitex, onde minha sogra trabalhou, o campo do Comercial, que vivia lotado nos dias de jogos, a Igreja da Yayá (Sebastiana Mello Freire), de onde tenho uma foto sentado na escada, já em ruínas, ao lado da minha mulher.
Onde o senhor estudou?
Fiz o primário no Instituto Dona Placidina, dirigido pelas freiras, e onde tínhamos que frequentar as missas, as aulas de catecismo e seguir uma disciplina bem rigorosa, sempre com muito respeito. De lá, fiz o curso preparatório para o Exame de Admissão com as professoras Jovita (Franco Arouche) e Romani, na sala de aula que elas mantinham na Rua José Bonifácio, na lateral da Matriz (hoje Catedral de Santana), onde atualmente funciona um estacionamento. Fui aprovado e ingressei no Ginásio do Estado (hoje Escola Estadual Dr. Washington Luís) e tive excelentes professores, como dona Nair, de Português; Rodolpho Mehlmann, de Artes Plásticas; Toninho, de Latim; Melo, de Francês; França, de Inglês; Hugo Ramos, de Educação Física; Jair Batalha, de Geografia; entre outros. Também me recordo dos inspetores Lobão e dona Carmem, que não nos deixavam entrar na escola sem o uniforme, composto por calça e blusão caqui, camisa branca, gravata e sapato preto.
O senhor participou da fanfarra da escola?
Tocava um instrumento chamado marcial e participa dos desfiles da fanfarra na Avenida dos Bancos (Voluntário Fernando Pinheiro Franco), onde todas as famílias da cidade se reuniam para acompanhar as apresentações, principalmente no aniversário da Cidade, em 1º de setembro. O chefe do grupo era o Fernando Tavares, o Fernandão. Eu também fazia parte dos times de vôlei, futebol de salão e de campo que disputavam a Brascol, uma competição esportiva entre os alunos do Washington Luís e do Liceu Braz Cubas, marcada pela mesma rivalidade que havia na fanfarra. O bloco carnavalesco Os Catedráticos também reunia alunos das duas escolas, que saíam pelas ruas da Cidade, principalmente pela Ricardo Vilela, que era o coração da Cidade. Depois do Instituto de Educação, fui estudar na Escola Paulista de Agrimensura (EPA), em São Paulo. Viajava à noite no trem Maria Fumaça até São Paulo e durante o dia ajudava meu cunhado Nelson Franco de Oliveira, que era da Companhia Suzano (Suzano Papel e Celulose) a fazer alguns trabalhos extras. Em seguida, me formei em Engenharia de Agrimensura, na cidade de Araraquara.
Qual foi o primeiro emprego na cidade?
Comecei cedo, ajudando meu pai no Bar Odeon, que ele arrendou eficava ao lado do cinema de mesmo nome, onde nos intervalos dos filmes as pessoas iam comprar balas, salgados, refrigerante, cerveja e o sorvete de massa feita pela minha mãe. Eu era baleiro e saía com o tabuleiro vendendo doces e chocolates. Na sessão de filmes japoneses, conseguia ganhar mais dinheiro porque todos compravam. Em cima funcionava a Rádio Marabá. No ano de 1958, fui servir ao Exército em Caçapava, ficava arranchado lá e só podia vir para Mogi ver a família nas folgas, pegando carona na Via Dutra. Foi neste tempo que tomei gosto pela topografia porque auxiliava um tenente da Engenharia.
Onde mais o senhor trabalhou antes de seguir carreira no Semae?
Depois de ajudar meu pai no Bar Odeon, fui office-boy na agência do Bradesco, que ficava na esquina da rua Princesa Isabel de Bragança e da avenida dos Bancos. De volta do Exército, trabalhei na Elgin do São João, levado pelo Jair, que era técnico do time de futebol de lá e no qual passei a jogar na época em que fomos campeões dos Jogos Operários. Na equipe de vôlei da fábrica, eu jogava com o Dr. Bóris Grinberg e o Miguel Nagib. Na fábrica, eu era auxiliar de escritório e controlava os materiais do almoxarifado. Em 1964, acompanhei a construção da Aços Anhanguera, em Mogi, como topógrafo.
Quando teve início o trabalho no Semae?
Em 1968 entrei no Semae como agrimensor, na gestão do então prefeito Carlos Alberto Lopes, mas fiquei apenas um ano e meio, porque era seletista e quando o Waldemar (Costa Filho) assumiu, mandou um monte de gente embora. Passei então pela Refinaria da Petrobrás, em Cubatão, pela Construtora Rabelo, de Bauru, e pela Cia. Suzano. Em 1976, como já tinha trabalhado com o Roberto (Gomes de Faria, ex-diretor do Semae), na Aços Anhanguera, ele me chamou e voltei ao Semae, já como engenheiro. Lá me aposentei em 1993, mas continuei trabalhando mais um ano, no governo do Chico Nogueira (exprefeito Francisco Ribeiro Nogueira), até que ele morreu e o Padre Melo (Manoel Bezerra de Melo, ex-prefeito) assumiu. Saí novamente e, em 1997, no retorno do Waldemar, eu voltei ao Semae e fiquei até 2006, no governo do Junji Abe. Ao todo, foram 30 anos no Semae.
Como era o relacionamento com o exprefeito Waldemar?
Éramos amigos. Se fizéssemos o trabalho direito, tínhamos tudo com ele. Mas se fizéssemos algo errado, estávamos perdidos. Ele sempre foi muito rigoroso. Uma equipe do Semae ia para a rua fazer conserto e enquanto não terminasse não saía do local. E não tínhamos nem muitos equipamentos e a tecnologia existente hoje. Havia apenas um munk acoplado, um caminhão de carroceria e três caminhonetes. Meu cunhado tinha um bar na Olegário Paiva e eu e o Roberto buscávamos sanduíches de mortadela, pagando do nosso bolso, para levar ao pessoal enquanto trabalhavam nas valetas do Semae, porque nem lanche havia para eles. O serviço era feito artesanalmente, quase que na unha mesmo, sem holofote e apenas com um gerador que não dava conta. O Waldemar cismava e chamava o Roberto, assim como os seus secretários, a qualquer hora do dia ou da noite para vistoriar obras ou acompanhar algum conserto na rede. Se fosse problema na casa de bombas ou se a rede tivesse estourado, o Roberto me acionava. Havia dias em que entrava no serviço às 7 horas e só saía no outro dia pela manhã, após o conserto. Existia apenas a captação ao lado da ETA (Estação de Tratamento de Água) Leste, que contava com quatro motores, depois é que começou a captação da Pedra de Afiar, no Cocuera, onde a rede de 900 milímetros de ferro fundido leva água até a ETA Central. Acompanhei a construção de todos os reservatórios, com exceção do existente na Vila Natal. Quando entrei no Semae havia cerca de 80 a 100 funcionários, emprestados da Prefeitura para abrir valetas e consertar a rede. Quando saí, em 2006, eram 180 e hoje são mais de 300, que contam com o geofone, que identifica os problemas com facilidade.
O senhor também trabalhou com o engenheiro Bento no Semae?
Sim, o engenheiro Antonio Bento de Souza era um gentleman, havia trabalhado na Inglaterra e foi diretor-geral do Semae. Sabia lidar bem com todos. Ele foi um dos idealizadores do Plano Diretor de Mogi, ao lado do engenheiro Renê De Jaegher, que também foi da Aços Anhanguera. O doutor Bento conhecia todos os funcionários e tudo no Semae. Trabalhava muito com gráficos e tinha tudo na palma da mão. Na ETA da Rua Otto Unger, há uma canalização que pega água e filtra para distribuição e lembro que ele tinha tanto zelo que passava a mão no tubo para ver se havia poeira ou estava limpo.
Em quais outras regiões da Cidade o senhor morou?
No sítio, meu pai guardava dinheiro embaixo do colchão, mas quando nos mudamos para cá, ele ficou com medo de deixá-lo em casa e comprou duas casas na rua Tenente Manoel Alves, duas na Flaviano de Melo e uma na Cabo Diogo Oliver. Então, logo saímos da Navajas e fomos para a Manoel Alves. Ele alugou as outras residências e depois do Bar Odeon passou a viver desta renda. Ali brinquei muito na rua, que ainda era de terra, assim como um trecho da Coronel Souza Franco. Na área onde hoje está o Terminal Central, funcionou uma fábrica de coroas de lata para cemitérios, depois a Cerâmica Pavan, do Aroldo Pavan, e a NGK. No rio Negro, que fica ao lado, tomávamos banho e pescávamos mandis, na época em que a água era limpa. Uma vez, saí de casa todo vestido de branco para ir à missa da Catedral e, na volta, cai no rio. Cheguei todo molhado e levei bronca da minha mãe. Na época de enchentes, gostávamos de pegar rãs no Mogilar. Outra distração, já nos tempos de juventude e adulto, era ir aos bailes do Itapeti Clube, que recebia orquestras como Silvio Mazzuca, Biriba Boys, a cantora Wilma Bentivegna, entre outros.
O senhor também jogou futebol em times mogianos
Comecei no infantil e passei pelo juvenil e pelo esporte do União. Joguei ainda no Tietê, Brasil Viscose e encerrei a carreira no Vila Suíssa, mas participava das peladas do Clube Náutico Mogiano aos finais de semana, onde jogavam o Tote (Tirreno Da San Biagio, fundador de O Diário), Tonico e Ery Brasil de Siqueira, entre outros. Também foi no Náutico que aprendi a nadar, no coxo do rio Tietê. Ali, o Tonico costumava nos dar caldos, nos jogando na água e pulando em seguida no rio. Quando tentávamos colocar a cabeça para fora da água, ele a empurrava para baixo e assim aprendíamos a nadar. Um episódio dos tempos de juventude que ficou na memória foi quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo, em 1958, e depois de acompanhar o jogo na antiga rodoviária (praça Firmina Santana), caímos todos na fonte luminosa do largo do Rosário, com roupa e tudo, para comemorar.
Onde o senhor conheceu sua mulher?
Conheci a Luzia quando ela era secretária do doutor Oliveiros, na Griffith, e eu trabalhava na implantação da Aços Anhanguera. Eu a pedi em namoro aos pais dela no dia em que levei um pote de favos de mel que colhi em um dos barracões de madeira da Aços Anhanguera para presentear a mãe dela, Sebastiana Martins Franco, a dona Tianinha. Eles moravam na rua Olegário Paiva, onde funcionava a bicicletaria do meu sogro, Manoel Martins Franco, o Manequinho. Nós nos casamos em 1971, na Igreja do Carmo, e moramos em Goiânia, porque nesta época trabalhava em Furnas e fui para lá. Mas três anos depois, voltamos para Mogi.