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Morre Gustavo Schmidt, o Papai Noel da Associação Comercial de Mogi, vítima da Covid-19

Morreu nesta quinta-feira (16), o professor universitário aposentado e Papai Noel da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC), Gustavo Schmidt, aos 75 anos, vítima da Covid-19.  Schmidt foi internado pela primeira vez com a Covid-19 em 23 de agosto, no Hospital Municipal, em Braz Cubas, onde permaneceu por quatro dias. No entanto, em 29 […]

Por O Diário
17/09/2021 09h08, Atualizado há 59 meses

Morreu nesta quinta-feira (16), o professor universitário aposentado e Papai Noel da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC), Gustavo Schmidt, aos 75 anos, vítima da Covid-19. 

Schmidt foi internado pela primeira vez com a Covid-19 em 23 de agosto, no Hospital Municipal, em Braz Cubas, onde permaneceu por quatro dias. No entanto, em 29 de agosto voltou ao hospital, onde morreu vítima de pneumonia e insuficiência renal, causadas pela Covid-19. 

O corpo será velado das 10h às 16h no Velório Cristo Redentor e sepultado às 16h no cemitério São Salvador. 

Em nota, a  diretoria da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC) lamenta a morte do professor universitário Gustavo Schmitd. 

“O mogiano foi por anos o Papai Noel da ACMC e encantou gerações de mogianos com seu carisma. Nossa solidariedade à família e amigos de Schmitd. Hoje, Mogi perde um grande mogiano”, destacou a nota. 

Em 12 de fevereiro de 2012, Schmidt foi entrevistado de O Diário para a edição de domingo e disse guardar na memória inúmeras histórias vividas na cidade desde a infância, no sítio dos pais, no Caputera, onde ajudava a família na criação de porcos de raça.

Ex-aluno do Grupo Escolar Coronel Almeida, Senai, Liceu Braz Cubas e Liceu Santo Antonio, conseguiu o primeiro emprego, após muita insistência, na fábrica de máquinas de costura Elgin, na Rua São João. De lá, passou por uma serralheria na cidade, pela General Motors de São José dos Campos e, de volta a Mogi, trabalhou na antiga Huber Warco e na Corning (hoje Santa Marina), em Suzano, até ser contratado na Valmet. Já com o curso superior de Matemática e especializações em Psicopedagogia e Probabilidade Estatística, começou a lecionar no Liceu Braz Cubas e, posteriormente, no Instituto de Tecnologia Continental, do qual também foi coordenador.

Em 1977, formou-se em Engenharia Mecânica, foi trabalhar na Engex, em Salvador (Bahia) e, aprovado em concurso, passou a professor universitário do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (hoje Instituto Federal), onde se aposentou após 27 anos. Foi então que realizou o sonho de voltar a morar em Mogi, onde já tinha sido Papai Noel pela Associação Comercial, em 2008. A façanha se repetiu em outros anos. 

Leia a entrevista na íntegra

Sua família é mogiana?

Minha mãe (Dejanira Sant´Anna) se casou em Salvador, onde teve três filhos (Jacob, José Carlos e Delvino – este último já falecido), e veio para São Paulo procurar um irmão. Em um jornal, viu o anúncio de uma família alemã de Mogi que precisava de empregada doméstica. Foi trabalhar na casa de Ana Schmidt, que tinha uma clínica de massagens, na década de 50, na Rua Coronel Souza Franco. Uma de suas clientes era a Madame Horário (Marina Chaves de Oliveira), da Casa Oliveira. Como minha mãe trabalhava na casa desta família alemã, conheceu meu pai, Afonso Schmidt e se casou com ele.

Em qual região da Cidade o senhor nasceu?

Nasci no sítio dos meus pais, no km 1,5 da antiga Estrada da Capela, hoje MogiBertioga, no Caputera. Morávamos na Rua XV de Novembro, hoje Carlos Gomes, onde estão construindo quatro espigões. Foi uma infância difícil, a disciplina era rígida e nossos pais nos controlavam até com o olhar. No Bairro, havia o Bar Chave de Ouro, do Anésio Soares, que era tradicional, além de poucas casas na parte de cima de um campo enorme e cheio de mato e capim barba de bode. Existia um casarão que chamava a atenção, onde duas hélices enormes viravam de acordo com o vento para mover as bombas de sucção da água do poço para os tanques. Lá morava a família do advogado e fotógrafo Dr. Guilherme, pai da Olga Duarte Nóbrega, que divulgou Mogi, por meio da arte, assim como AnaMarb (Ana Maria Barbosa), Nerival Rodrigues, Barros, O Mulato e Wilma Ramos.

O senhor trabalhou com o pai?

Na infância, ajudava meu pai na criação de porcos, já que ele era um dos maiores criadores de suínos de Mogi. Lembro que todo santo dia, faça chuva ou sol, por volta das 15 horas, vínhamos para o Centro buscar restos de alimentos, que eram transformados em lavagem para os animais, em restaurantes como a Cantina Mogiana, na Dr. Deodato (Wertheimer), Casa Manna, na Coronel Souza Franco, Restaurante Oriente, que depois virou Bife Esquisito e na época ficava na José Bonifácio, Restaurante Watanabe, também na mesma rua, além do Bar Novo, de uma doceria no Largo Bom Jesus, da Banda Santa Cecília e de algumas casas de família.

Há mais lembranças da infância?

Lembro que nossos pais nos davam tarefas para fazer no sítio, depois da escola. Não havia creches, então, eles nos davam a educação doméstica. Eu tinha que cortar capim angola, gordura e elefante para os animais comerem, já que tínhamos suínos de raça, vacas e cabras. Já o capim barba de bode era usado para fazer as proteções das porcas criadeiras, quando elas recebiam seus filhotes. Após uma semana, tirávamos este capim para servir de adubo e plantar batata-doce, mandioca, abóbora e cana de açúcar. Também me recordo do campinho onde jogávamos bola e ainda hoje encontro com colegas desta época, como o Osvaldinho, que era goleiro e não sei se profissionalizou como seu tio Julinho. Havia ainda o Eurico, o Zito, conhecido como Zé Ferro, Heleno, Paulinho, Jorge, Zé da Chácara, Oscar, entre outros.

Quais as outras diversões da garotada?

Eram os circos que Mogi recebia nas décadas de 50 e 60, onde fui muitas vezes acompanhado por meus pais, que eram fanáticos por estes espetáculos. Eles geralmente se instalavam em áreas que eram utilizadas como campos de futebol. Até o Mazzaropi (Amácio, humorista) veio para Mogi na época. Depois, os circos foram para a área onde hoje está o Terminal Central, ao lado da antiga fábrica NGK. Lá, dos 8 aos 15 anos, assisti às apresentações, sendo que, em uma delas, na hora de montar as jaulas para o show com os leões e tigres, o cantor Roberto Carlos cantou. Ele chegou de Fusca e ainda não tinha fama. Também na infância, frequentei bastante a casa da minha avó, na Rua Coronel Souza Franco, 783, antes da residência onde morava o Dr. Quita, que era um dos únicos veterinários de Mogi.

O que mais havia na Cidade naquela época?

No final da rua hoje chamada de Pedro Machado, no Mogi Moderno, não havia a ligação com o Jardim Ivete. Essa via era interrompida um pouco depois do Zoológico do despachante Astrogildo. Além disso, no São João, era uma alegria ver a biquinha do Largo da Feira (hoje Praça Francisco Ribeiro Nogueira), com aquelas lavadeiras ganhando seu pão de cada dia. Já no Shangai, ficava a Chácara da Yayá (Sebastiana M e l l o F r e i r e ) , com sua igreja secular. Aquela área deveria ter sido cercada para se manter a fachada da igreja, que fazia parte da história de Mogi. Sabemos que o progresso é necessário, mas não podemos destruir o passado. Ali havia os campos de futebol do Comercial, Mogi e Mogitex, este último formado por funcionários da fábrica de tecidos.

O senhor também jogou futebol lá?

Quando não tínhamos aulas ou após o Senai, íamos para lá jogar bola. O Benedito Pinto, tio do cantor mogiano Ricardo Braga, que imitava o Roberto Carlos, morava naquela região. Quando tínhamos sede, ele ia buscar água e vinha com caldeirão e jarras de água, por isso, o Paulo Soares, um colega nosso, começou a chamá-lo de Dito Caldeirão e o apelido ficou.

Onde o senhor estudou?

Fiz o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida, onde tive professoras como Aparecida Barreto, Therezinha Resende, Etelvina Cáforo, Odete Nunes Fagundes, Dudu e Diva Antunes Limongi, mulher do Dr. José Limongi, que foi vice-prefeito e secretário de Educação de Mogi. Queria fazer o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), mas para isso, precisaria estar em alguma empresa. Então, fui trabalhar na Elgin Máquinas, no São João, onde entrei em 1960, após muita insistência. Durante três meses, ia todos os dias à porta da fábrica, até que consegui ser chamado pelo Dr. Bóris Grinberg, que era o chefe da seção de pessoal. Um dia, um senhor baixinho com sotaque italiano, chamado Sérgio, disse que precisava de um menor para o setor de montagem e lá fui eu.

E o Senai?

Fui selecionado no Senai após um teste escrito que parecia um vestibular. Comecei a estudar lá em fevereiro de 1961, como ajustador, e logo passei a inspetor no Setor de Controle de Qualidade na Elgin, na seção de usinagem de produção. Após formado no Senai, em 1963, queria ser transferido à ferramentaria, mas não me colocaram na bancada e sim no setor de afiação de ferramentas, onde precisava beber leite para se proteger do pó de esmeril. Parecia um castigo.

Depois da Elgin, onde o senhor trabalhou?

Quando saí de lá, em 1965, fui trabalhar numa serralheria, na Praça da Bandeira, do Hayakawa, onde fazia grades, portões e vitrais para várias casas da Cidade. Um ano depois, perdi meu pai e a situação ficou complicada. Vendemos os porcos de raça para açougues da Cidade como o do José Borges, do Targino, Antonio Rissoni e outros do Mercadão. Aluguei o sítio para um chinês plantar cogumelos, mas ele não pagava o aluguel e ainda acabou com tudo por lá, então acabamos vendendo a área. Nesta época, ouvi um anúncio na antiga Rádio Marabá que a General Motors de São José dos Campos estava contratando e fui trabalhar lá como ajustador de ferramenta. Depois vim para a Huber Warco, cujo dono era o engenheiro Reis, que foi chefe do controle de qualidade da Elgin. Dei continuidade aos estudos à noite e, em seguida, passei pela Corning (hoje Santa Marina), em Suzano, e pela Valmet.

Onde mais o senhor estudou?

Após o Senai, fiz o curso preparatório para o Exame de Admissão, na Rua Princesa Isabel de Bragança e comecei no Liceu Braz Cubas, onde participei dos desfiles da fanfarra e, ainda hoje, tenho o blusão do uniforme do Liceu, que é vinho com listras beges, da marca Hering. Uma raridade. Nesta época, a escola funcionava na Rua Francisco Franco, onde depois passou a ser a Faculdade Braz Cubas. Eu ia para lá de bicicleta e a deixava guardada na bicicletaria do Benedito Pinheiro. Em seguida, fiz o colégio no Liceu Santo Antonio, em Suzano, da professora Maria Helena, irmã do Padre Herval Brasil, pároco do Santuário Bom Jesus. Em 1969, passei no vestibular para Direito na Braz Cubas (UBC), mas não estudei porque queria Matemática. Em 1970, fiz vestibular para este curso, na Universidade de Mogi das Cruzes, onde também conclui a especialização em Psicopedagogia. Estudei, ainda, Probabilidade Estatística na UBC. Quando ainda estava na Valmet, comecei a lecionar à noite no Liceu Braz Cubas.

Quais eram os outros professores de lá?

O Liceu tinha professores como o Wilson Gomes, que era diretor da Guarda Mirim, Ciro Barbosa, Ismael Alves dos Santos e seu filho Israel, além dos irmãos Manoel, Ricardo e Moacir Gomes Amorim. Mas apesar de lecionar, continuava trabalhando na Valmet e ainda consegui aulas no Instituto de Tecnologia Continental, nas proximidades da Praça Oswaldo Cruz. O dono e diretor era o professor Ademir Munhoz, que treinava funcionários para a Valmet, Elgin, Caravelas, Vulcan e NGK. Como os alunos gostavam de mim, ele me propôs deixar a Valmet e o Liceu e passar a coordenador da escola, além de professor. Aceitei desde que ele me liberasse para fazer a Faculdade de Engenharia Mecânica. Estudei na UMC e me formei em 1977, quando preparei um aluno, o Airton, para ser meu sucessor na Continental e me mudei para a Bahia.

Por quê?

Primeiramente trabalhei na fábrica Engex e, aprovado no concurso para o Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia, que hoje é Instituto Federal, comecei a carreira como professor universitário. Foram 27 anos lá, até me aposentar. Então, pude realizar meu grande sonho, que era voltar a morar em Mogi, minha terra, onde aliás, já tinha sido Papai Noel pela Associação Comercial (ACMC) em 2008. Quem possibilitou meu retorno foi o amigo Bento de Almeida Mello, dentista aposentado do Exército.

Quando teve início este trabalho como Papai Noel?

Em 2005, fiz um trabalho publicitário para uma universidade. No ano seguinte, participei de um clipe que passava nos shoppings de Salvador e, em 2007, fui Papai Noel nos shoppings Iguatemi, Barra e Liberdade, mas queria fazer o bom velhinho aqui. Em 2008, fui contratado pela Associação Comercial e fiquei no Largo do Rosário. Dois anos depois e em 2011, também tive esta oportunidade.

Ficaram mais saudades da Mogi das Cruzes de antigamente?

Ah, quantas saudades… Lembro da rivalidade entre as fanfarras do Liceu Braz Cubas e do Instituto de Educação Dr. Washington Luís, principalmente nos desfiles de aniversário de Mogi e também nos de 7 de setembro, quando íamos para São Paulo. Faziam parte deste grupo, o Cuco (José Antônio Cuco Pereira, viceprefeito), Taubaté (Benedito Faustino Taubaté Guimarães, ex-vereador), Ernani Padovani, Marcão, Miragaia, entre outros. O Senai funcionava na Senador Dantas, onde depois surgiu a Omec (Organização Mogiana de Educação e Cultura), e minha turma foi a primeira a estrear o prédio da Otto Unger. Tenho recordações também do XI da Saudade, dos jogos do União no campo da Rua Casarejos, onde ganhei um autógrafo do Garrincha (Manuel Francisco dos Santos). Ainda tive oportunidade de jogar ao lado de Teodoro, no Tietê Futebol Clube, que depois ficou famoso no São Paulo. Outras lembranças são da Casa Margenet, onde meu pai comprou minha primeira bola, quando eu tinha 12 anos, da Casa Hélio, de onde veio minha bicicleta como prêmio pela aprovação na seleção do Senai, da Sorveteria Daurinho, do x-salada preparado pelo Jorge na Yuki e depois na Padaria Estrela, e dos passeios no Parque Municipal, Cruz do Século e Serra do Itapeti.

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