Morre “Seu Tião”, o fundador da Escola de Artes AJPS, de César de Souza
A retidão, o coração aberto, a disposição para uma boa prosa e o incansável e reconhecido trabalho social desenvolvido durante 25 anos à frente da Associação dos Moradores do Jardim Juliana e Vilas Pauliceia e Suíssa, no Distrito de César de Souza, são marcas deixadas pelo mogiano de direito, Sebastião Jorge da Silva, o Seu […]
31/12/2020 14h48, Atualizado há 67 meses
A retidão, o coração aberto, a disposição para uma boa prosa e o incansável e reconhecido trabalho social desenvolvido durante 25 anos à frente da Associação dos Moradores do Jardim Juliana e Vilas Pauliceia e Suíssa, no Distrito de César de Souza, são marcas deixadas pelo mogiano de direito, Sebastião Jorge da Silva, o Seu Tião da AJPS ou Tião Preto, sepultado em uma cerimônia familiar na quarta-feira (30), no Cemitério da Saudade.
Aos 76 anos, Seu Tião foi vencido por complicações nos rins e pulmões, após realizar um sonho: colocar uma prótese no joelho, que o incomodava nos últimos 15 anos. A cirurgia foi realizada no Hospital do Cepaco, em São Paulo, e acarretou complicações tratadas por duas novas internações, em um período complicado pela vigência da pandemia.
A família ainda aguarda dos resultados dos exames, mas há a possibilidade de o líder comunitário ter contraído o coronavírus, segundo uma de suas filhas, a assistente social Angélica Patrícia Aparecida da Silva Castro, de 41 anos.
O velório e o sepultamento seguiram os protocolos para a Covid-19 e os familiares desejam realizar, em um futuro próximo, uma homenagem ao pai de 11 filhos, um deles, adotado, e marido de Maria Leopoldina, a dona Diná, companheira deste mineiro nascido em São Vicente de Minas, mas “cidadão mogiano’, graças ao título recebido em maio de 2012,.
O histórico de vida não lesa a honraria concedida pela Câmara Municipal e ainda muito considerada por quem faz de Mogi das Cruzes a oficina de vida, trabalho e família. Seu Tião assim o fez. Ele começou a trabalhar aos 14 anos, na Padaria Nossa Senhora de Fátima, e depois no Supermercado Pague Menos. Aos 18 anos, serviu o Exército no 2º Batalhão de Engenharia e Combate (BEC) de Pindamonhangaba.
Mais tarde, de volta a Mogi, trabalhou na metalurgia, em empresas como a Huber Warco/Dresser, também de César de Souza, mesmo bairro onde, aposentado, ao lado de um grupo de amigos, participou a fundação da AJPS, uma entidade que atravessou um quatro de século e se reinventou, no meio deste caminho, ao se transformar em uma Escola de Artes.
Quem explica essa trajetória é a jornalista Rita Bonfim, que se aproximou de Seu Tião da maneira que o melhor caracterizava. “Ele sempre estava na AJPS, onde fazia de tudo, da limpeza à alimentação, como as sopas, servidas aos mais carentes. E conversava com quem passasse pela porta da entidade. E, assim, eu, que moro no caminho da entidade, fui atraída para este trabalho ao lado dele, há 23 anos”, lembra-se.
Seu Tião é a alma da AJPS. Se em meados da década de 1990, o principal foco era o atendimento assistencial às muitas famílias carentes do distrito, ainda bem menor do que o atual, com o passar dos anos, e as mudanças impostas por programas sociais dos governos Lula, Luis Inácio da Silva, e Dilma Roussef, que retiraram boa parte das famílias desses bairros da linha da miséria e pobreza, foram assimiladas pelo presidente.
Inclusive, no trato com as novas gerações, que eram o público desse coletivo cultural.
Ainda hoje, a doação de cestas básicas e alimento, o encaminhamento para a retirada de documentos, e outros afazeres que busca assistir o cidadão, é um traço da missão prestada ali, mas as transformações sociais levaram Seu Tião e demais associados a migrarem para a atenção ao jovem e ao adolescente, por meio da arte e da cultura.
A AJPS é um dos polos culturais melhor amadurecido pela passagem do tempo em Mogi das Cruzes. E, isso, não retirou o protagonismo do “sempre presidente” da atuação junto aos mais pobres, como sublinha Rita, hoje na condução da entidade. Seu Tião era o vice.
Na avaliação dela, seguramente, Seu Tião e dona Diná atenderam milhares de famílias ao longo de 25 anos.
É o que também afirma a filha, Angélica. Ela mesmo resultado desse oficio, já optou pela carreira de assistente social, com passagem por endereços como a ONG Recomeçar e atualmente no Centro Dia do Idoso, da Prefeitura de Mogi.
“O assistencialismo dele começa na religião católica. Ele sempre atuou na igreja e olhou pelo outro”, comenta. Sobre o pai, e não o líder comunitário, Angélica partilha dois ensinamentos do homem que prezava valores como dignidade e confiança. “Ele sempre dizia, nunca perdi um documento. Para ele, era importante ter os documentos, a papelada, as contas pagas sempre em dia”.
Na sequência, vinha o respeito ao nome. “Sempre falava, o nome do pobre precisa ser digno, limpo. Sempre repetiu aos filhos, principalmente aos homens, que o nome era a condição de uma boa pessoa”.
Seu Tião faleceu aos 76 anos. Deixa muitos órfãos, como as redes sociais, desde a terça-feira demonstram, além de dona Diná, os filhos Valdelice, Walmir, Waldir, Cristiano, Cláudio, Claudemir, Angélica, Elisangela, Peterson, Kelly e Israel (além de Valdecir, que faleceu aos 6 anos), e 16 netos.
A missa de sétima dia será na Igreja de São Benedito, em César, às 19h30.
Homenagem em vida
Uma canção gravada no CD Charanga, Varal de Canções, é dedicada ao fundador da APJS. A letra é do músico Lucas Espírito Santo, e traduz o sentido de acolhimento que Seu Tião exercia, na porta da entidade de bairro: “Seu Tião acordou a nossa história/Abre a porta pro menino brincar/E há quem diga que não há um porquê se viver”. Confira a música dentro do documentário ‘A Arte Que Transforma’.