Paciente acusa médico de racismo em UPA de Mogi: ‘Tira o pretinho. Macaco’
Um enfermeiro e um casal acusam um médico de racismo e agressões, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Oropó, em Mogi das Cruzes. O caso aconteceu durante a madrugada deste sábado (8) e foi registrado pela Polícia Militar como injúria. Ninguém foi preso. A Prefeitura de Mogi disse que apura as circunstâncias junto à […]
08/05/2021 12h02, Atualizado há 63 meses
Um enfermeiro e um casal acusam um médico de racismo e agressões, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Oropó, em Mogi das Cruzes. O caso aconteceu durante a madrugada deste sábado (8) e foi registrado pela Polícia Militar como injúria. Ninguém foi preso.
A Prefeitura de Mogi disse que apura as circunstâncias junto à UPA do Oropó.
O Instituto Nacional de Amparo à Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Gestão Pública (INTS), que administra a UPA, informou que abriu apuração interna sobre o caso e disse que o médico plantonista foi afastado. (Confira a integra das notas abaixo).
A reportagem de O Diário tentou contato com o médico Ruben Julio Ribera Leigue, envolvido no caso, mas não conseguiu.
O relato de Levy, que pediu para não ter o nome completo divulgado, é de que ele levou a esposa em busca de atendimento na UPA do Oropó, por volta das 3h50 deste sábado. Por conta da Covid-19, apenas ela pode entrar e ele ficou esperando do lado de fora. Passado algum tempo, a mulher saiu relatando que o médico não iria atendê-la.
“Quando eu entrei, o médico já estava discutindo com o enfermeiro. Eu perguntei por que ele não queria atender ela, e ele disse que não tinha falado isso e começou a gritar. Eu Falei que ia ficar lá esperando ele atender, porque ele era pago para isso” relata Levy.
Em seguida, segundo Levy, o médico começou a chamar os seguranças e disse que “era pra tirar o pretinho daqui, o macaco. Tira o pretinho”.
“Ele jogou o computador, pegou uma cadeira pra jogar em cima de mim. Tirou o cinto da calça, ficou praticamente de cueca na frente da minha esposa. Eu estou até com hematoma, porque a fivela do cinto ia bater no rosto da minha mulher e eu entrei na frente. Aí comecei a agredir ele também”, relata.
Após serem separados, Levy conta que acionou a Polícia Militar, mas que o caso só foi registrado pelos policiais depois de muita insistência dele e do enfermeiro.
“Ali aconteceu um flagrante de racismo, mas a polícia colocou só injúria e foi embora. O médico foi embora sem problema nenhum. EU estou fazendo isso para que não aconteça com outras pessoas”, relatou.
O casal ia na tarde deste sábado ao 2º DP de Mogi registrar a ocorrência na Polícia Civil.
Sonho atrapalhado
O enfermeiro e diretor do Sindicato Estadual dos Enfemeiros do Estado de São Paulo, Rodrigo Romão, estava de plantão na unidade. Ele gravou um vídeo relatando o que aconteceu (assista acima).
Na versão dele, o médico havia ido descansar – procedimento que acontece quando não há pacientes a serem atendidos – e ele foi chamar o médico porque a esposa de Levy havia chegado.
“Ele ficou bravo dizendo que eu o acordei para atender uma paciente com dor de dente. Pediu pra eu imprimir a ficha dela, mas eu disse que aqui é tudo no sistema, que já estava no computador dele. Aí ele disse que então não ia atender e começou a xingar”, diz.
Segundo Romão, foi a primeira vez que o médico deu plantão na UPA. “É uma postura que não se espera de um médico. Eu fui um dos fundadores da Unegro em Mogi e o que aconteceu no plantão foi racismo, mas a polícia não fez nada. O médico saiu e foi embora, abandonou o plantão”, disse.
O Instituto
Em nota, o INTS informou que a UPA Oropó afirma ter aberto apuração interna para verificar a ocorrência.
Ressalta que o médico não faz parte do corpo clínico fixo, e estava escalado para um plantão de cobertura emergencial. Contudo, já foi afastado, para a devida apuração.
“Ademais, Informamos que a paciente recebeu atendimento médico na data e a equipe da ouvidoria interna fará contato com a paciente para o devido acolhimento”, trouxe a nota.
A Prefeitura
Em nota, a Secretaria de Saúde de Mogi informou que está apurando junto a UPA Oropó, atualmente gerênciada pela organização social INTS, a ocorrência nesta madrugada envolvendo um paciente e um médico.
“A questão está sendo analisada pela secretaria para que possam apurar e tomar as medidas cabíveis”, destaca o texto.
Questionada pela reportagem de O Diário sobre a conduta dos policiais, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) enviou a seguinte nota:
“A SSP, assim como as Polícias Civis e Militar, repudia todo ato de racismo e injúria racial, previstos na lei 7.716/89 e no artigo 140 do Código Penal, respectivamente. A pasta tem intensificado ações e iniciativas dentro das duas instituições para combater esses crimes. Sobre o caso citado, uma equipe da PM atendeu a ocorrência. Quando os agentes chegaram ao local, o agressor já havia deixado seu plantão. Um pintor, de 22 anos, contou aos policiais que o médico recusou a atender sua esposa com dor de dente e passou a agredir e ofendê-lo. Foi registrado um B.O.PM, com a natureza injúria, e uma notificação de ocorrência, entregue para a vítima apresentar na delegacia, quando for registrar os fatos, para que sejam investigados. Vítimas de racismo ou injúria racial podem registrar o crime em qualquer distrito policial no Estado de São Paulo, inclusive na Delegacia Eletrônica (www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br), mesmo se o ato for cometido por meio eletrônico”, trouxe a nota.
A Secretaria também acrescentou que a Polícia Civil está à disposição para recepcionar as vítimas de racismo ou injúria racional e investigar as denúncias. “São Paulo tem uma unidade especializada, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), que atua na investigação de crimes relacionados à religião, raça, cor, etnia, procedência nacional, identidade de gênero, orientação sexual, dentre outros. A Decradi mantém cadastro fotográfico de integrantes de grupos que pregam a intolerância. Em 2020, foram registrados somente pela especializada 68 boletins de ocorrência e instaurados 106 inquéritos policiais referentes a crimes relacionados a raça, cor, etnia e procedência nacional. Em 2019, foram 87 e 100 respectivamente”, finalizou a nota.