Casos recentes de violência doméstica são consequências do machismo, ressalta advogada
Esta semana começou reacendendo a discussão sobre a violência doméstica. Dois casos, que poderiam facilmente ser lembranças de ocorrências antigas, dada a repetição de situações deste tipo, ganharam destaque. No cenário nacional, o DJ Ivis foi filmado agredindo a mulher na frente da filha pequena. Já na cidade vizinha de Mogi, Salesópolis, após a namorada […]
13/07/2021 11h51, Atualizado há 61 meses
Esta semana começou reacendendo a discussão sobre a violência doméstica. Dois casos, que poderiam facilmente ser lembranças de ocorrências antigas, dada a repetição de situações deste tipo, ganharam destaque. No cenário nacional, o DJ Ivis foi filmado agredindo a mulher na frente da filha pequena. Já na cidade vizinha de Mogi, Salesópolis, após a namorada dar fim ao relacionamento que considerava abusivo e ir para a delegacia denunciar ter sido ameaçada, o companheiro esfaqueou quatro pessoas da família dela, sendo que uma das vítimas não resistiu aos ferimentos e morreu. O homem foi preso em flagrante. O Diário conversou com a advogada e presidente da ONG Recomeçar, Rosana Pierucetti, sobre a recorrência de casos assim.
A experiência em atender mulheres que passaram por esse tipo de violência faz Rosana perceber que esses casos que resultam em agressões físicas e até morte são a consequência de situações que já apontavam para um desfecho do tipo. São sinais que o agressor vem dando no decorrer do tempo, como o controle excessivo da vida da mulher, que chegam ao ponto de ela ter medo de ir para a casa, adiam a volta depois que saem do trabalho, têm medo de ficar com ele sozinho. Há outros ainda, como o companheiro que não consegue discutir sem perder o controle e parte para a violência psicológica, emocional ou física. É importante que as medidas sejam tomadas nesses primeiros “descontroles”.
“Ele aliena a mulher, tira todo o contato de família, amigos, porque quando ela começa a conversar com outras pessoas, elas dizem que é melhor se afastar dele, então ele já afasta a vítima de opiniões contrárias à dele”, ressalta.
Rosana destaca que esses casos são as consequências graves do machismo. As mais leves começam com achar que a mulher é menos, tem que ganhar menos, que não tem poder de decisão. Quando começam a somar essas “ideias” menores, a consequência se torna mais grave, como achar que ele é dono da vida das mulheres. Durante os atendimentos, a advogada já se deparou com cinco mulheres diferentes que foram agredidas pelo mesmo homem.
“É importante se fazer grupos de homens que estejam interessados em participar dessas reflexões, como em algumas cidades tem o “E Agora José?”, que faz uma reflexão com os agressores. Existindo esse projeto e uma parceria com o Fórum, o juiz pode encaminhar esse agressor para o grupo reflexivo. Não é uma pena, mas sim um tratamento. Os números mostram que mais de 80% dos homens que participam desses grupos não agridem mais mulheres”, pontua.
A presidente da Recomeçar pontua que situações como essa deverão parar de se repetir a longo prazo, à medida que o assunto comece a fazer parte do processo de educação, de quando as escolas tratarem do respeito à mulher, ensinar que as diferenças são apenas biológicas, mas que os direitos são iguais.
“Temos que colocar serviços em que essa mulher possa se sentir acolhida, que tenha profissionais que possam ouvir e orientar essa mulher das consequências de que esses relacionamentos podem acarretar para ela, aos filhos e aos familiares. Quando ela está sofrendo uma ameça, que ela pode ir até a delegacia. Importante que ela já vá orientada, porque muitas vezes ela vai e não fala o que tinha que falar, que faça a representação contra o suspeito. Ela tem o direito de pedir a proteção para ela e dos familiares também. A lei já prevê isso. Se acontecer de ele estar se aproximando, liga para o 190, aciona a PM e avisa que tinha medida protetiva. Enquanto a gente não tem medidas que diminuam logo o machismo, é este o caminho a ser seguido”, ressalta.
A ONG Recomeçar presta orientação e auxílio às mulheres vítimas de violência doméstica durante 24 horas pelo telefone 99948-3695, que também é WhatsApp para conversas com aquelas que não podem ligar.