Cirilo morre aos 78 e leva consigo muitas histórias do jornal O Diário
Foi sepultado neste domingo (3), às 10 horas, no Cemitério da Saudade, em Braz Cubas, o corpo de Benedito Cirilo Leite, 78 anos, que morreu vítima da Covid-19. Por conta disso, não houve velório para o gráfico que participou da história recente da imprensa em Mogi das Cruzes e Suzano. Cirilo, como era conhecido, foi […]
03/01/2021 18h17, Atualizado há 67 meses
Foi sepultado neste domingo (3), às 10 horas, no Cemitério da Saudade, em Braz Cubas, o corpo de Benedito Cirilo Leite, 78 anos, que morreu vítima da Covid-19. Por conta disso, não houve velório para o gráfico que participou da história recente da imprensa em Mogi das Cruzes e Suzano.
Cirilo, como era conhecido, foi impressor e trabalhou durante muito tempo, no jornal Diário de Mogi, a partir do início dos anos 70, quando a publicação deixou sua antiga sede, na rua Barão de Jaceguai, transferindo-se para a rua Ricardo Vilela, onde inaugurou um moderno sistema de impressão para a época: uma máquina rotoplana.
Depois de décadas de serviços prestados ao jornal, ele se transferiu para o Diário de Suzano, onde permaneceu, durante algum tempo, cuidando do sistema de impressão por rotativa, adotado pelo jornal à época, até se aposentar.
Cirilo trabalhava inicialmente em um jornal de Aparecida, no Vale do Paraíba, onde foi descoberto pelo jornalista Tirreno Da San Biagio, fundador do jornal Diário de Mogi, que o convidou para se transferir para Mogi e cuidar da impressão do jornal, em uma de suas fases mais ousadas.
Cirilo topou e se instalou na cidade com a família, a quem sempre dedicou especial atenção. O impressor montou uma equipe eficiente para um tempo em que o jornal era produzido em linotipos, que transformavam em linhas de chumbo, os textos feitos pelos repórteres e editores na redação da rua Ricardo Vilela.
Depois de passar pelas mãos do paginador João do Prado, responsável pela transformação dos textos em chumbo, criados pelos linotipistas, em cada uma das páginas da publicação, o jornal era levado para a impressora, onde Cirilo se encarregava de passar para o papel tudo aquilo que havia sido colhido nos dias anteriores, na cidade ou região. Eram as notícias espelhadas nas páginas do jornal Diário, algo esperado em todas as manhãs, por toda a cidade.
Samba e notícias
Cirilo ainda teve oportunidade de viver um pouco da era romântica do jornalismo, numa época em que as oficinas do jornal O Diário, eram frequentadas por Gunai e outros boêmios da época.
Violonista dos bons, ele dividia sua atenção entre o que era produzido pela rotoplana e os acordes do violão ritmados pelo pandeiro de Gunai, e os bons sambas e canções de um passado não muito distante.
Profissional ao extremo, o impressor jamais permitiu que alguma música, por mais bela que fosse, interferisse na produção do jornal, prioridade máxima dele e da equipe formada por Moacir, Ditinho, “Lilica” e tantos outros que dividiam o amplo espaço das oficinas do jornal com jovens repórteres que costumavam ficar por ali, madrugada adentro, na expectativa de ver a matéria feita no dia anterior impressa na edição do dia seguinte. Bons tempos aqueles do jornalismo ainda não industrializado, onde o relógio torna a todos escravos do tempo.
Depois de Mogi, Cirilo atuou em Suzano, antes de se aposentar.
Morador da Vila da Prata, ele passava boa parte do tempo em casa, com seu violão, embalando as canções que suas filhas cantavam, com voz de causar inveja a quem ouvia e orgulho ao pai que as acompanhava.
Isso acontecia principalmente quando velhos amigos o visitavam, aos domingos pela manhã, quando eram brindados por uma cerveja estupidamente gelada ou uma caipirinha feita na hora; mas, principalmente, por grandes sambas de Noel Rosa, Ataulfo Alves, João Nogueira e outros bambas.
Cirilo era assim: pessoa simples, bom músico e profissional de virtudes incomensuráveis. Deixa quatro filhos (Benedito Cirilo Leite Neto, Ana Cirilo Leite Corredera, Rita De Cássia Cirilo e Luiz Leite) e também netos. Mais um que a Covid -19 levou, para a tristeza de todos que o conheceram e que com ele conviveram, num tempo que só deixou muitas saudades.