Especialistas afirmam que missão da sociedade será manter todos os alunos na escola
Reflexo da pandemia, do manejo de estudantes entre as três opções de ensino e até na tábua de natalidade, os números das redes municipal e estadual assinalam um decréscimo de alunos matriculados na comparação entre 2019 e 2021. Na educação privada, também houve ligeira baixa nos ciclos Fundamental e Médio, mas a redução é mais […]
20/06/2021 15h20, Atualizado há 62 meses
Reflexo da pandemia, do manejo de estudantes entre as três opções de ensino e até na tábua de natalidade, os números das redes municipal e estadual assinalam um decréscimo de alunos matriculados na comparação entre 2019 e 2021. Na educação privada, também houve ligeira baixa nos ciclos Fundamental e Médio, mas a redução é mais equilibrada, inclusive com aumento do contingente que está terminando a educação intermediária com alta de 171 jovens.
A reportagem ouviu dois professores que atuam na educação sobre os desafios lançados pela pandemia. Entre as sugestões apontadas por eles, estão um planto de recuperação contínua e a revisão de metodologias de aprendizagem. Oes especialistas temem o aprofundamento da desigualdade, mas também falam de esperança.
Com doutorado em Ciência Política pela Unicamp, a professora mogiana Thamara Strelec afirma que antigos problemas foram realçados, como a evasão no Ensino Médio que em 2020 atingiu metade dos 20 milhões de estudantes, ou seja, 10 milhões de brasileiros fora da escola, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Para ela, um das maiores missões será impedir o rompimento definitivo entre o estudante e a escola, o que irá agravar a desigualdade social, sobretudo entre os pretos e pardos, populações extremamente vulneráveis no País.
“Com os que saem das escola, nós não conseguiremos romper esse ciclo de pobreza porque esses jovens vão buscar os empregos que não dependem da formação integral. Temos um caminho mais longo pela frente, mas é preciso entender que o lugar do adolescente é na escola para que possamos reverter as desiguais condições de renda, saúde, habitação entre brasileiros”, afirma.
Thamara é diretora excutiva da Tríade Políticas Públicas, empresa de consultoria que atua no apoio a projetos e pesquisas na gestão pública, entre eles, alguns com parcerias técnicas com o Itaú Social.
Ela lembra que esse seria o momento de avançar com a remodelagem do currículo do Ensino Médio, estabelecendo outros métodos de aprendizagem.
“O aluno que sai da escola está em busca de se inserir no mercado de trabalho, e vive em regiões de grandes vulnerabilidades sociais”, diz.
O esforço para manter o aluno na escola, indica a professora, “requer metodologias de aprendizagem mais ativas, incentivando a pesquisa, colocando o aluno como protagonista na solução de problemas de maneira interdisciplinar, não apenas fazendo provas, concluindo tarefas, isso não vale mais para a realidade desse aluno. E isso, inclui, obviamente, na formação do docente, que combine essas questões com a apropriação das tecnologias, que é um grande salto que se obteve a forceps, com a pandemia”.
A defasagem no uso dos equipamentos tecnológicos, plataformas digitais, e na oferta de acesso à banda larga, já eram cobrados. “Para esse momento, a disponibilização do acesso à banda larga é fundamental. Não tem o menor sentido colocar no ombro das famílias, que já perderam empregos e renda, e também familiares, o ônus de arcar com esse custo”.
Favorecer a banda larga, destaca, é um direito para garantir o acesso à educação.
Para Thamara, a escola precisa, especialmente agora, ser um espaço de aprendizagem, de não de avaliação, para “punir o aluno que não aprendeu. Cada aluno é único, ele precisa permanecer na escola para reverter alguma defasagem, não podemos deixar nenhum aluno para trás”.
A métrica é simples: “Se o aluno já não aprendeu, e é avaliado, que razões ele tem para ficar na escola?”
Para atrair os alunos, Thamara propõe que gestores e sociedade (pais, professores, etc.) devem estabelecer como missão trazer o aluno de volta à escola. Para isso, cita programas como o do Unicef, Busca Ativa Escolar, criado para um contexto de crise e emergência.
O diálogo entre sociedade e aluno pode combater a desmotivação com a escola, e a perda de jovens para a violência e drogas.
Na volta à escola, uma observação da educadora: “Essa escola tem de se reinventar, ser um espaço de acolhimento, e não ser como a antiga, que já não era boa”. Outro fator de destaque, acompanhado pela professora, foi a construção de soluções regionalizadas, feitas por consórcios, com ou sem ajuda de entidades e ongs, como o Condemat, no Alto Tietê. “Nós não queremos ilhas de excelência”, reflete. Conta Thamara que o compartilhamento de plataformas regionais, com foco na formação de professores e de currículos, de acordo com as necessidades territoriais, foi realizado com sucesso, e estabeleceu facilidades como o barateamento de custos de ferramentas tecnológicas, por exemplo.
Esperança
A professora Thamara Strelec (foto) afirma que os impactos na educação ainda serão mensurados. Mas, já se fala em questões socioemocionais, impostas pelo distanciamento dos colegas e professores, nas gerações Y e Z, que já tinham conflitos afetivos nas relações sociais. “O receio é que o aluno não encontre sentido na escola, no convívio com alunos e colegas. Porém, há esperança de que essa ausência crie o contrário, um aluno mais dedicado, assim como pais e a comunidade escolar mais envolvidos. Isso é o que eu espero”.
Cursinho Popular
Professor da rede pública e do Cursinho Popular Maio 68, com sede na região central de Mogi, Renan Fernando Castro (foto), exemplifica a condição de desencanto do aluno de maneira prática. A suspensão do Enem e a falta de um diálogo sobre o Exame Nacional do Ensino Médio levaram muitos jovens a desistirem dos lugares disputados em cursinhos populares, que se mantiveram de maneira online.
Neste ano, dos 120 inscritos inicialmente no cursinhotocado por professores voluntários há quatro anos e meio, 60 estão assistindo às aulas.
Esse aluno que busca um reforço das aulas ordinárias do último ano do EM para disputar o vestibular costuma ser um candidato mais esforçado. “Não há uma motivação nem para esse aluno”, resume ele. Os que se mantêm matriculados são resistentes. E, isso, não é nem apenas pela falta de acesso à internet. “A maioria dos alunos da escola pública não tem recursos como computadores em casa. Imagine escrever uma redação no teclado pequeno do telefone, ou assistir a uma aula?”, confronta o educador, reforçando que a pandemia escancarou o desmonte da educação pública.
Outro exemplo dado por Castro é certeiro. Nos primeiros dias de aula, ele costuma perguntar quais serão as carreiras escolhidas pelos alunos. “Fala-se de tudo, médico, jornalista, professor? Licenciatura? Ninguém quer”.
No desprestigio desssa categoria, está o outro revés conhecido. “Os professores mais novos desistem da rede estadual por causa do salário. Uma Prefeitura costuma pagar muito mais do que o Estado. Então, apenas os professores que estão aguardando o final da carreira permanecem, e muitos não tinham intimidade com os recursos tecnológicos”, comentou.
Apesar desse quadro, o professor afirma que a educação terá de se manter focada na organização de um plano de recuperação contínua. Descobrir os conteúdos que foram perdidos e que podem ser recuperados, de maneira compacta, como acontece nos cursinhos. Muitas escolas têm equipes que estão fazendo muito para atender os alunos. “De maneira coletiva, pais, professores e alunos será possível reverter esse estado”, aposta. Algo positivo diz, foi a inclusão de plataformas que os alunos manejam e era um deficit na educação brasileira.
O que diz o estudante:
Aos 20 anos, Mikael Shiguenobu Matsutani não conseguiu se matricular na antiga escola EE Camilo Faustino de Melo e deve buscar o Ensino de Jovens e Adultos. Em 2019, ele foi trabalhar no Japão. Quando voltou, em 2020, e iria se apresentar à escola, o início da pandemia o manteve em outro estado. Agora em Mogi, ele passou a residir com os avós e teme a transmissão do vírus. Por isso, está fora da escola, mas deseja concluir o EM, para chegar à faculdade. “Nesse período, não tive sorte, e fiquei frustrado quando não consegui a matrícula, porque estava com 20 anos”. Em Sabaúna, Natália, filha de Eliana Aparecida Lucas, se adaptou ao ensino remoto. Mas, a mãe vê problemas em opções oferecidas para recuperar esse tempo como o ensino integral. “A escola não tem condições físicas para abrir laboratórios. E a qualidade não vai mudar de uma hora para outra, sabemos disso”.