Falar sobre “colas” escolares em comício não dá certo
José Carlos Pinhal, irmão do professor e arquiteto Paulo Pinhal, integrava os quadros da oposição na cidade e, como tal, foi escolhido para ser o candidato a vice do então prefeiturável e médico Aristides Cunha Filho. O “Doutor Aristides”, como ficou conhecido, não era o que se poderia chamar de oposicionista juramentado, pois quase sempre […]
30/07/2021 15h51, Atualizado há 61 meses
José Carlos Pinhal, irmão do professor e arquiteto Paulo Pinhal, integrava os quadros da oposição na cidade e, como tal, foi escolhido para ser o candidato a vice do então prefeiturável e médico Aristides Cunha Filho.
O “Doutor Aristides”, como ficou conhecido, não era o que se poderia chamar de oposicionista juramentado, pois quase sempre esteve ao lado do principal representante governista da cidade, Waldemar Costa Filho. Mas por contingências da falta de legenda para se candidatar a prefeito de Mogi, sua grande aspiração na política, acabou se bandeando para os lados da oposição ao grupo que dominava a cidade à época.
Eram tempos em que as campanhas eram feitas à base de comícios em pontos estratégicos da cidade, ou junto a residências de cabos eleitorais mais populares, capazes de arregimentar público para ouvir os candidatos.
Naquela noite, o comício da dupla Dr. Aristides e Zé Carlos Pinhal seria junto a uma casa no bairro Mogi Moderno.
Tudo caminhava para ser uma reunião proveitosa, até que o candidato a vereador e jornalista Geraldo Rodrigues, o “Geraldinho”, como era conhecido entre os companheiros de partido, decidiu fazer um discurso abordando questões educacionais e, lá pelas tantas, entrou na questão das “colas” usadas pelos alunos, passando a defendê-las sob alegação de que enquanto faziam as “colas” em papéis dobrados, para serem consultados, às escondidas, durante as provas, os alunos estavam, na verdade, estudando. Uma tese não contestada, mas observada atentamente por uma espectadora do evento.
Mal “Geraldinho” acabou de falar, um cabo eleitoral lembrou que naquela casa havia morado uma senhorinha querida, já falecida, e para fazer média com os donos, familiares dela, puxou logo um Pai Nosso.
Todos rezaram, contritos, mas com a expectativa voltada para os discursos do candidato a prefeito e de seu vice.
Ambos não se excederam. Falaram de planos, prometeram realizações, criticaram a situação e, por fim, pediram o apoio de todos para que pudessem fazer de Mogi “uma grande cidade”, etc e etc.
Após os aplausos e os inevitáveis cafezinhos de campanha, aquela espectadora, já idosa, que prestara muito atenção em tudo o que havia sido dito naquela noite, foi procurar Pinhal para dizer que gostara muito do que ele havia falado, mas que não podia concordar com o que dissera “aquele barbudinho”, ou seja, Geraldo Rodrigues.
Assumindo ares professorais, a senhorinha disse que não poderia concordar com o que o “barbudinho” estava dizendo: que os alunos tinham que cheirar cola para fazer provas, e isso ela não podia admitir.
Zé Carlos teve de gastar muita saliva para explicar a ela que não era bem aquilo que o candidato havia dito. E só depois de muita explicação, a eleitora entendeu e concordou.
Dr. Aristides e Zé Carlos Pinhal já faleceram. Geraldo Rodrigues continua por aí falando muito de política, assim como Paulo Pinhal, que lembrou a história para esta coluna.