“Puxada de tapete” garante voto aberto em eleições da Câmara de Mogi
Quem acompanha as votações de hoje, por meio de placares eletrônicos, que mostram, em tempo real, como se posicionam os políticos, não imagina, nem de longe, o que acontecia no passado, quando voto ainda era secreto. Em Mogi, por exemplo, até o final da década de 1980, a eleição para a Mesa da Câmara era […]
09/07/2023 09h42, Atualizado há 36 meses
Quem acompanha as votações de hoje, por meio de placares eletrônicos, que mostram, em tempo real, como se posicionam os políticos, não imagina, nem de longe, o que acontecia no passado, quando voto ainda era secreto.
Em Mogi, por exemplo, até o final da década de 1980, a eleição para a Mesa da Câmara era uma verdadeira caixinha de surpresas e traições. Como a legislação em vigor determinava o voto secreto na escolha dos dirigentes do Legislativo, acordos firmados e reafirmados eram simplesmente quebrados por negociações feitas no afogadilho do pleito.
E quase sempre os favoritos acabavam vítimas de memoráveis puxadas de tapete, quase sempre orquestradas por vereadores veteranos, com poder de influência entre os companheiros.
Em meados da década de 80, porém, uma jogada de mestre colocou um fim às tramoias de última hora nas escolhas da Mesa.
Em 1985 foi eleita a Assembleia Nacional Constituinte, com a missão de, em três anos, construir a nova Constituição Brasileira. Enquanto os deputados e senadores trabalhavam em Brasília, as assembleias legislativas cuidavam das leis estaduais, ficando para os vereadores as mudanças na Lei Orgânica do Município, assim como no Regimento Interno da Câmara.
José Antonio Cuco Pereira e o médico Carlos Eduardo Amaral Gennari, recém-chegados à Câmara de Mogi, decidiram que era hora de acabar com o voto secreto na escolha da Mesa. A “Constituinte Municipal” ia bem e o calhamaço de papel com novas leis ficava cada dia maior.
No dia da votação, o fim do voto secreto já estava incluído, de última hora, no pacotão. Gennari temia que velhas raposas da política local descobrissem a jogada arquitetada por ele e Cuco, que, ao contrário do amigo, apostava que nenhum vereador iria ler detalhadamente todo aquele pacotaço.
Dito e feito. Todos votaram e a nova legislação foi aprovada. Os autores da mudança nada disseram. Até que com a proximidade das futuras eleições na Câmara, o lance foi descoberto.
A grita foi geral.
A maioria foi para cima de Cuco Pereira acusando-o de “traição” e exigindo mudanças.
Ele retrucou, dizendo que o projeto havia sido distribuído para todos os vereadores, com a devida antecedência para possíveis revisões e que, àquela altura, a mudança seria uma desmoralização perante a Imprensa e a todos da cidade que acompanharam o processo.
Os indignados entenderam o recado e foram se aquietando, até que o assunto acabou esquecido. A mudança permanece até hoje e dificilmente será alterada.
Foi a derradeira puxada de tapete naquele tipo de votação.
Para o bem da transparência, obviamente…
Baixinho, mas perigoso
Firmino José da Costa, figura folclórica, mas querida, da política da região, era prefeito de Suzano quando apareceu no Brasil, pela primeira vez, o mágico David Copperfield, capaz de truques incríveis para fazer desaparecer os mais inusitados objetos. Até elefantes e carros. Firmino viu o show pela televisão e, logo cedo, na Prefeitura, mandou chamar o seu chefe de gabinete:
“Zezito, vê se consegue falar com esse Copperfield e contrata ele para fazer o Pedro Ishida sumir”.
O assessor ficou espantado com aquilo e tentou demover o prefeito daquela ideia:
“Acho que para um serviço como esse, ele vai cobrar muito caro, seu Firmino”.
“Pois se cobrar por tamanho, acho vai sair muito barato, quase de graça”, completou o sorridente prefeito.
Ishida, pouco mais de 1m60, era o vice que conspirava contra Firmino e que acabou por tirá-lo do cargo, tempos depois. Antes mesmo de Copperfield chegar…
“Helicóptero? No meu governo, não!”
E por falar em figuras folclóricas, Newton Cardoso, ex-governador de Minas Gerais, foi imbatível em boas histórias, dentro e fora do cargo.
Os mineiros conhecem muitas delas e costumam dar boas risadas ao contar as trapalhadas de “Newtão”, como o político era conhecido.
Dizem que logo após assumir o cargo, foi viajar no helicóptero da administração estadual.
E ao saber que aquele “trem” tinha o nome de seu adversário político, refugou e deu uma sonora bronca no piloto: “Não entro nisso, tem o nome do Hélio (Hélio Garcia era o governador anterior). Constrangido, o piloto respondeu: “Mas governador, esse helicóptero é do governo do Estado e não do ex-governador”. “Newtão” nem quis saber: “Esse ‘trem’ agora vai se chamar Newtoncóptero. Falei e tá falado!”
“Nem queira enxergar!”
O consultor Gaudêncio Torquato conta que nos tempos dos comícios, quando ainda não havia televisão, em Caruaru (PE), José Fagundes, cego de nascença, louvava seu candidato, João Cleofas, com a força das boas intenções e de alguns trocados.
“Eu queria que Deus me desse a luz dos meus olhos para ver o que o doutor Cleofas já fez por Pernambuco!”
Os correligionários aplaudiram freneticamente, mas do meio do povaréu comprimido diante do palanque, Biu Moscouzinho, crítico feroz do governo, esticou o pescoço, chamando a atenção de todos, e vociferou:
“Queira não, ceguinho! Pois eu tenho dois olhos e até hoje, nunca vi nadinha de nada!”