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Contar até 10 pode evitar casos trágicos no trânsito

Dois casos distintos, mas que tiveram em comum um aspecto: a impulsividade. Em Mogi das Cruzes, no mês de abril, um motorista atirou no outro após uma “fechada” no trânsito. A vítima morreu dias depois. Mais recentemente, no início deste mês, um motociclista bate com a mão em um ônibus e o motorista joga o […]

Por O Diário
31/07/2021 08h08, Atualizado há 61 meses

Dois casos distintos, mas que tiveram em comum um aspecto: a impulsividade. Em Mogi das Cruzes, no mês de abril, um motorista atirou no outro após uma “fechada” no trânsito. A vítima morreu dias depois. Mais recentemente, no início deste mês, um motociclista bate com a mão em um ônibus e o motorista joga o veículo para cima da moto. A vítima precisou ser internada, mas teve alta dias depois, com fraturas no braço e no tornozelo. 

Se esse descontrole no trânsito é uma pauta antiga, ela se torna ainda mais importante em tempos atuais, em meio à pandemia do novo coronavírus. É o que destaca Myrian Ragazzo, que além de psicóloga com pós-graduação em Neuropsicologia, Administração de Recursos Humanos e em Medicina Comportamental, é observadora certificada do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).

“As agressões no trânsito sempre aconteceram, mas estamos em momento muito delicado por conta da pandemia. Antes, quando as pessoas não estavam bem, elas saiam para extravasar, fosse para correr, ir ao bar, encontrar os amigos. Agora, isso está mais privado. Quando estamos no trânsito, não sabemos com quem estamos convivendo, são pessoas com humores diferentes, frustrações e quando essas pessoas se encontram, acaba desencadeando o que vimos nesses dois casos”, considera.

Em 2012, o Ministério Público, por meio do seu Conselho Nacional, lançou a campanha “Conte Até 10. Paz. Essa é a atitude”, que tinha como objetivo estimular a população geral a não agir por impulso. A mensagem principal era a tolerância em situações de conflito, para que a violência – em diferentes casos, como de brigas de trânsito, entre vizinhos e em bares – fosse evitada.

“Quando você respira e conta até 10, neurofisicamente você oxigena uma área do cérebro que precisa desse tempo para assimilar a ação e pensar na consequência. Muitas vezes a pessoa age por impulso e, logo na sequência, já bate o arrependimento. Isso, não tira a culpa, mas mostra que essa percepção vem apenas depois de um tempo. Quando se fala em inteligência emocional, sabemos que o medo também nos faz agir errado, então ter esse tempo para pensar é fundamental”, afirma a psicóloga.

Myrian ressalta ainda uma questão cultural, que é a disputa por espaço que vemos no trânsito. A especialista reforça que é importante que os motoristas se questionem “por que não aceito o erro do outro?”. Uma “fechada”, uma buzina, uma acelerada ou qualquer outra atitude corriqueira pelas ruas não devem ser motivo de desentendimentos. Ela aconselha que os motoristas sigam o caminho, sem maiores problemas. Nesse momento, a psicóloga reforça a necessidade da empatia e da compreensão.

Em relação à legislação de trânsito, a observadora do Observatório Nacional vê um abrandamento das leis. Isso acaba não impedindo que esses comportamentos aconteçam. Mas, além disso, ela acredita que o poder público e a sociedade de uma maneira geral precisam dar maior importância para a saúde mental. É preciso cuidar de questões como ansiedade e estresse e procurar ajuda quando necessário.

“Nós ainda ouvimos falar que psicólogo é coisa para ‘louco’ e isso não é verdade. Nós precisamos nos conhecer, para não chegar a essas situações extremas e, só assim, perceber que estamos com alguma desregulação. Precisamos de discernimento para saber que precisamos de ajuda. O estresse é uma defesa do nosso organismo, que sinaliza quando não estamos bem. É um problema se sentir assim e não fazer nada para melhorar, porque pode resultar em casos como esses”, orienta Myrian.

Motorista de ônibus arrasta moto

As imagens gravadas por uma câmera da Central Integrada de Emergências Públicas (Ciemp) flagraram o momento em que o motorista de ônibus Franco Dibes de Souza Pontes, de 42 anos, atropela o motociclista Ubirajara Marcelino Neto, de 25, na avenida Lourenço de Souza Franco, em Jundiapeba, Mogi das Cruzes. O caso, que aconteceu no dia 2 deste mês, foi registrado como tentativa de homicídio, mas a defesa alega ter sido um acidente.

Neto teve que ficar internado durante cinco dias e teve esmagamento do braço direito, aonde quebrou o cotovelo, e uma torção no tornozelo esquerdo. Já o motorista do ônibus deu entrada no dia 5 de junho no Centro de Detenção Provisória (CDP) da cidade e foi liberado no dia 7, após a obtenção de habeas corpus.

No vídeo, é possível ver o momento em que o motociclista bate com a mão no coletivo. Rapidamente, Franco parece jogar o ônibus para cima da moto. Em entrevista à O Diário, a mãe de Neto, Tatiana Quaiati Marcelino, contou que o filho falou com ela no telefone e gritava “o ônibus passou por cima de mim, eu estou embaixo do ônibus!”.

Hermann Herschander, desembargador que concedeu o habeas corpus ao motorista, afirmou que sua decisão que a gravação traz apenas alguns momentos antes da colisão. Além disso, ressaltou que Franco não tem antecedentes e nem empreendeu fuga do local.

Homem morre após ser baleado

No dia 4 de abril deste ano, Iago Alves de Oliveira, de 29 anos e Ricardo de Oliveira Penha Soares, de 25, se encontraram no trânsito da avenida Frederico Straube, na Vila Oliveira, em Mogi das Cruzes, próximo ao cruzamento com a avenida Francisco Assis Monteiro de Castro. Cada um dirigia seu carro e, após uma “fechada”, Iago atirou em Ricardo, que morreu duas semanas depois.

Imagens registradas por uma câmera de segurança mostram o momento em que Ricardo para o carro e vai, exaltado, até a janela de Iago. Em poucos segundos de discussão, Iago, ainda de dentro do carro, atira contra a vítima, que teve o pescoço atingido. Na gravação, é possível ver também que a esposa de Ricardo vai, com a filha no colo, até o carro de Iago e elas presenciam o homicídio.

Ricardo foi preso em flagrante, mas, no dia 6 de abril, passou pela audiência de custódia e responde em liberdade. Na decisão expedida pelo juiz Gustavo Alexandre da Câmara Leal Bellluzzo, ele alegou que, após o ocorrido, o autor dos disparos “manteve-se calmo e sereno, saindo no veículo e mantendo-se no local e colaborando com as autoridades”. 
A defesa alegou que Ricardo agiu em legítima defesa, já que “efetuou o disparo após ter sido agredido pela vítima, a qual teria tentado retirar sua arma das mãos”.

Maio Amarelo

O Maio Amarelo, criado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), já se consolidou como um movimento importante para a conscientização da população em relação à segurança viária. O objetivo principal é chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo.

Como um desdobramento deste projeto, o Observatório Nacional criou também o Laço Amarelo, para que ações sejam efetuadas durante todo o ano. Em maio de 2021, a Prefeitura de Mogi das Cruzes aderiu ao programa, sendo a primeira do Alto Tietê a fazer parte.

O Laço Amarelo é um programa de responsabilidade social, criado em 2017 para suprir uma lacuna existente junto à iniciativa privada, órgãos públicos e entidades para combater a violência no trânsito. Para isso, disponibiliza mensalmente conteúdos de comunicação para falar sobre a importância de um bom comportamento e seguro no trânsito.

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