Corpo de Milton Feliciano, do TEM, será sepultado nesta sexta
O presidente do Teatro Experimental Mogiano (TEM), Milton Feliciano de Oliveira, será sepultado às 16h30 desta sexta-feira (15), no Cemitério Parque das Oliveiras, em Mogi das Cruzes. Ele morreu na quinta-feira (14), após sofrer parada cardíaca decorrente de complicações causadas pela Covid-19. O ator e diretor teatral estava intubado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) […]
15/10/2021 09h50, Atualizado há 58 meses
O presidente do Teatro Experimental Mogiano (TEM), Milton Feliciano de Oliveira, será sepultado às 16h30 desta sexta-feira (15), no Cemitério Parque das Oliveiras, em Mogi das Cruzes. Ele morreu na quinta-feira (14), após sofrer parada cardíaca decorrente de complicações causadas pela Covid-19. O ator e diretor teatral estava intubado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal, em Braz Cubas, desde o dia 30 de outubro, quando completou 78 anos.
Milton foi personagem da série “Entrevista de Domingo”, de O Diário, em 28 de dezembro de 2014. Confira a íntegra da conversa:
Um homem à frente do seu tempo. Assim é Milton Feliciano de Oliveira, que nasceu em Taubaté, onde passou a infância, e mudou-se para Mogi das Cruzes aos 11 anos, com os pais, Luiz Feliciano de Oliveira, conhecido como Seu Zico, e Elizaura Chiaradia de Oliveira, a Dona Didi, e irmãos – Celso, Diogenes, Carmem e Almir. Aqui concluiu o primário no Instituto Dona Placidina, iniciou o ginásio no Liceu Braz Cubas, sendo transferido para o Ginásio do Estado (hoje Escola Estadual Dr. Washington Luís), onde também fez o curso Clássico. Em seguida, formou-se em Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Na sala de aula, ainda nos tempos de ginásio, descobriu a vocação para as artes cênicas, imitando locutores de cinema na leitura de textos de História. Foi diretor artístico do Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira e, anos depois, um dos fundadores do Teatro Experimental Mogiano (TEM), onde atuou, dirigiu e escreveu vários espetáculos, alguns censurados durante a Ditadura Militar. Também teve forte envolvimento nos movimentos estudantis da época. Na entrevista a O Diário, ele compartilha suas histórias com os leitores:
Como foi sua infância?
Foi tranquila. Jogávamos futebol na rua e fazíamos guerra de mamona. À noite, os pais punham cadeiras na calçada e, enquanto corríamos, eles colocavam as conversas em dia. Meu pai foi militar e fez carreira começando como soldado. Como nunca desistiu de crescer na vida, incentivado por minha mãe, fez cursos para subir de posto. Chegou a instrutor de Educação Física e esgrima. Em 1954, foi promovido, por concurso, a subtenente e transferido para Mogi. Já tínhamos vindo para cá anos visitar uma tia dele, que morava na então Rua São José dos Campos, hoje Olegário Paiva.
Em quais regiões a família morou?
Primeiramente, moramos na Rua Major Pinheiro Franco, 298. Uma rua pacífica e calma onde podíamos sair tranquilos. À noite, a vizinhança se reunia na calçada e brincávamos até o chamado para o banho e cama, como em Taubaté. Quando passo por lá, me recordo das brincadeiras barra manteiga, mãe da rua, garrafão, cantigas de roda e passa anel. Minha mãe cantava bem e o Sr. Silvio Figueira também. Às vezes, ela começava a cantar no quintal e do outro lado do muro, o Seu Silvio soltava o vozeirão e o dueto ia longe. Na casa dele fomos televizinhos, para assistir ao “O Sítio do Pica Pau Amarelo”. Também foram nossos vizinhos, Silvanda, Mariodila, Silvio Alerico, Toninho (Minhoca), filho do Seu Eleutério, Antonio Carlos Lopes, que morava ao lado dos Barreiros, Celso Antonio, Paulinho e Nicéia (hoje Abbondanza). Quase à frente de casa ficavam os Pieruccetti. Morávamos de aluguel e, quando o dono pediu a casa, meu pai comprou a de nº 811 da Olegário Paiva, onde moramos até 1967.
Como era Mogi na época?
Era uma cidade pequena, mas amigável. Nossa adaptação foi instantânea graças à vizinhança. Já passado algum tempo, apesar de Mogi ser considerada violenta por ser ‘fim de subúrbio’ e virar notícia constante no jornal Última Hora, para nós era pacífica, andávamos por todos os lugares sem constrangimento ou atropelo. Como diversão, tínhamos os cinemas Parque, Odeon, Urupema, Avenida e Vera Cruz. Nos fins de semana, havia o footing na Praça Oswaldo Cruz com direito a cineminha por conta do senhor José Maria Rodrigues, que fazia projeção na rua. Ficávamos na praça assistindo até que se encerrava a sessão e a gente se dispersava. Uns voltavam para casa, outros iam aos bares. As matinês do Cine Parque eram programas obrigatórios, como tinha sido a sessão de desenhos do Odeon. Aos sábados, íamos ao Urupema e aos domingos ao Avenida. Quem não ia assistir aos filmes ficava na frente dos cinemas vendo o desfile das famílias que se vestiam elegantemente. Lembro do Parque Infantil Monteiro Lobato, onde tínhamos atividades de aprendizado e sociabilidade. Nas festas de fim de ano, me escondia para não ter que subir ao palco. Quando o Parque foi desativado, o local chegou a sediar o Tiro de Guerra e hoje é o Largo Bom Jesus. Na juventude, não tínhamos muita variedade. Havia os clubes de futebol União, Vila Santista, Comercial e São João. No Carnaval, saíam os blocos Ki-Frio e Ki-Ka-Lôr. Tínhamos o bilhar Glória e um centro de discussão, que era o Bar Palhaço Lanches, onde falávamos sobre tudo até altas horas da madrugada, abusando da paciência do Seu Paulo Passos. Também andávamos à noite pela Cidade, conversando como filósofos peripatéticos, sempre salvando a humanidade. Ou fazendo filmes com uma câmera imaginária, na Praça Oswaldo Cruz.
Onde o senhor estudou?
Em Taubaté, no Grupo Escolar Dom Pereira de Barros, fiz desde o jardim de infância ao 3º ano. Em Mogi, completei o primário no Instituto Dona Placidina, enquanto fazia o curso de Admissão com a Dona Quininha Ruiz. Não passei no Exame de Admissão ao Ginásio do Estado e me matriculei no Liceu Braz Cubas, onde fiz a primeira série ginasial transferindo-me, em seguida, para o Ginásio Estadual, depois Instituto de Educação Dr. Washington Luís, onde estudei até o final do Clássico, em 1964. Em seguida, me formei em Direito, na PUC. Do primário, poucas lembranças ficaram. Já no Liceu, tínhamos os professores Ary Silva (História), Dudu (Desenho), Jurandir de Oliveira (Geografia) e Roberto (Trabalhos Manuais). No Instituto, foram muitos os que nos marcaram: Hugo Ramos e Lourdes Romeiro (Educação Física e fanfarra), Mehlmann (Trabalhos Manuais e Religião), Mello (Francês), França (Inglês), Lígia (Desenho), Maria Aparecida, Maria Nair e Eneida (Português), Jair Rocha Batalha (Geografia), Flavio (Latim), José Paiva (Desenho), Carlos e Nely Polimeno, Maria Pia, Elza Urbano, Niquinho e Horácio da Silveira, além do diretor Mauricio Chermann.
Como foram os tempos no Instituto?
Foram maravilhosos, tudo o que um adolescente precisava para se desenvolver intelectual e socialmente. Gozávamos de liberdade e camaradagem com os professores e a direção da escola. Chegamos ao ponto de ter a chave do portão da escola e ali passávamos as férias, jogando bola e fazendo o que nos desse na telha. Construímos a quadra de esportes, com o Sr. Antonio Guimarães, o Lobão ou Lobo Mau, e ajudamos a assentar as cadeiras do auditório. A participação na fanfarra ia além dos desfiles. Ajudávamos na confecção dos uniformes e ornamentação dos instrumentos e carros alegóricos. De que forma o senhor descobriu a vocação para as artes cênicas? Na sala de aula, quando imitava locutores de cinema na leitura de textos de História. Depois, me descobri um bom imitador e, como não era atleta e nem galã, comecei a fazer, com meu amigo Marcio Romeiro, nas arquibancadas junto à quadra de esportes, pequenas performances nos intervalos dos jogos que promovíamos. Fazíamos um certo sucesso e o presidente do Geup (Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira), Paulo Silas Gonçalvez, me convidou para participar do Programa Estudantil que o grêmio promovia no auditório. Me saí bem e fui convidado para ser diretor artístico do Geup. Passei a fazer também um show mensal em que criava e ensaiava as esquetes com os colegas e juntava música com todos os que tinham o que apresentar. Participavam os professores Niquinho, tocando piano, e José Veiga, no violão. Apresentávamos, na segunda parte, uma peça satírica, como “Romeu e Julieta”, “Otelo” e um faroeste como “Kid Carne Não Tem Nada”. Mais tarde, já nas instalações atuais do Instituto, criei com outros três amigos, o grupo Os Segréis, que apresentava poemas próprios e de autores nacionais.
Como nasceu o TEM?
O TEM nasceu da necessidade que tínhamos de dizer alguma coisa naquele momento em que as portas se fechavam. Já não tínhamos mais a escola como ponto de convergência, mas continuávamos juntos. Fomos a São Paulo assistir à “Arena Conta Zumbi”, do Teatro de Arena, e este espetáculo nos marcou profundamente. Além de que, o sistema do Arena (coringa), nos abria boas perspectivas, pois não exigia grandes cenários e elenco. Além disso, o tema da liberdade nos atraía desde sempre. Voltamos para Mogi com o desejo de fazer teatro mais aflorado e numa conversa, na pizzaria Maracanã, decidimos criar o grupo. As atividades no Geup refletiam além dos muros do colégio, mexendo com a Cidade, e partíamos para uma atividade sem respaldo da escola, mas com nossos nomes estabelecidos na mente dos mogianos. Testamos e acertamos, fomos recebidos pela população desde o primeiro show, no Instituto Dona Placidina, em 15 de novembro de 1965.
Quais as principais peças das quais o senhor participou e/ou escreveu?
Minha participação no TEM se deu como autor, ator e diretor. Como autor, participei da criação dos shows “TEM Poesia e Bossa”, “TEM Noite Feliz”, TEM Bossa na Praia” e “TEM Berimbau de Ouro” (este com o compositor e cantor Fernando Lona) e, em 1990, do Show “TEM o Reencontro”. Minha primeira peça, escrita em 1965, foi “Tiradentes em Tempo de Inconfidência”. Depois escrevi “O Drama de Canudos”, “E sua Família Permanece Unida?”, “Amor (te) Natal” e “Bandeirinha ou Boné Cavalheiro?”. Como ator, participei de todos os shows e das peças “Tiradentes em Tempo de Inconfidência”, “A Exceção e a Regra”, “O Drama de Canudos” e “Bandeirinha ou Boné Cavalheiro”. Como diretor, montei “E sua Família Permanece Unida?”, “Aquele que Diz Sim, Aquele que Diz Não?”, de Bertolt Brechet, “Bandeirinha ou Boné Cavalheiro?”, “Leonce e Lena”, de Georg Buchner, e “Amor (te) Natal”. Como letrista, fiz as letras para as músicas de “A Exceção e a Regra”, “Drama de Canudos”, “Amor (te) Natal”, “Aquele que Diz Sim…”, “Leonce e Lena”, “Bandeirinha…” e para a peça “O Cavaleiro Andante”, montada pelo grupo Volante, sob a direção de Gerson de Barros, autor das músicas da peça com José Luiz. Com Lauro Juk, fiz a adaptação de “As Sabichonas”, de Moliére, sob a direção de Orivaldo Sebastião Lopes, autor de músicas de “Amor (te) Natal” e de “Leonce e Lena”. Com música de Miguel Colella Neto, ganhamos o Festival de Música da Amba (Associação Mogiana de Belas Artes), com “Amar (te)”, e com Toninho Ferreira, o Festival de Música de Mogi, com a música “Objeto”, ambas com letras minhas. Houve peças censuradas… Nossa primeira peça “Tiradentes em Tempo de Inconfidência”, depois de muitos e exaustivos ensaios, foi proibida, em 1966, pelo Dops. Tinha ideia de apresentá-la sem submeter à censura, mas a responsabilidade do grupo era maior que a minha e enviamos o texto. Após a proibição, conversamos com a dona Solange, na Polícia Federal. Depois de uma espera interminável, fomos atendidos, mas tivemos que nos conformar com a proibição. Mais tarde, o Dr. Antonio Fernando de Souza, quando presidente do TEM, tentou liberar a peça, mas cortaram tanto o texto que a montagem ficou inviabilizada. Em 1968, minha peça “Amor (te) Natal” também foi proibida e a bela montagem feita pelo TEM não pode ser vista aquele ano. Houve a apresentação de uma montagem clandestina feita por um grupo mogiano, dirigido pelo Marcos Afonso e o Gerson de Barros. Em 1980, quando conseguimos a liberação da peça e a apresentamos no Teatro Vasques, uma senhora, na saída, comentou: “Devia ficar proibida para sempre.”
Como será a festa dos 50 anos do TEM?
Pretendemos realizar, se tivermos apoio, uma grande programação, sob o lema “2015 – Mogi TEM Arte”, envolvendo artistas mogianos de todos os setores. Haverá várias apresentações de nossas peças, com a participação de grupos teatrais da Cidade, concurso de contos, poesias e crônicas, sarau, sessão de gala em homenagem ao Dia Nacional do Choro, evento com artistas plásticos em praça pública, coralistas cantando as músicas do TEM e encenação de espetáculos do nosso repertório no Festival de Teatro. Teremos envolvimento com a Subseção da OAB de Mogi e estudantes de Direito, sessão solene na Câmara, baile comemorativo, homenagem à Amba, lançamento de livros na Flisi (Feira Flisi (Feira Literária da Serra do Itapeti), concurso , concurso sobre a criação de um Centro Cultural Mogiano, entre outros.
Qual seu envolvimento com o Geup?
Comecei no Geup como diretor artístico, depois fui segundo secretário e, em 1963, presidente. Em princípio, o grêmio era uma entidade recreativa dos estudantes, desenvolvia atividades sociais, como bailes, shows, jogos de salão, campeonatos internos, e tinha como atividade anual a participação na Brascol, que envolvia o Liceu e Colégio Estadual. Uma rivalidade que resultava em brigas. Após 1960, começamos a ter uma atividade mais politizada. Sob a presidência de Fernando Guedes, em 1961, fizemos greve em defesa da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Em 1962, sob a presidência de Célio José de Almeida Pinto, tendo como secretário Antonio Benetazzo, realizávamos debates sobre política nacional e lançamos um candidato a vereador, fazendo comícios. Em 1963, sob minha presidência, tivemos concursos de poesia e contos, festival de cinema e apresentações dos Segréis, além dos comícios contra a carestia. Aprovamos, na Câmara, a doação de um terreno, em comodato por 30 anos, para a sede do Geup, sonho que foi enterrado com o Golpe de 64. Além disso, realizamos passeata em protesto pelo abandono da reivindicação da criação de uma extensão da USP em Mogi, para privilegiar a criação da Faculdade da Omec.
E sua participação na Aumc?
Na Aumc, tive participação como parceiro, quando presidente do Geup, e mais no âmbito político, como a passeata e apresentações das peças do Teatro Oficina “Os Pequenos Burgueses” e “Os Inimigos”, de Máximo Gorki. Da Umes, não cheguei a participar. Ainda na Cidade, criei em 1965 a Semana Mello Freire de Cultura, com os colegas do Instituto e intelectuais mogianos. Daí surgiu o Centro Mello Freire de Cultura, que em 2015 fará 50 anos, e cuja memória estamos resgatando com a professora Vera Lucia Meira Magalhães, filha da última presidente, dona Nyssia Freitas. Como foram os tempos de Ditadura? Não conseguia emprego em Mogi, sendo recusado sem motivo. Quando percebemos, estávamos sendo investigados. Ficamos sabendo que nossa prisão era eminente e, uma noite, antes de entrar para a aula eu e o Kunio Suzuki conversamos nas escadarias de entrada do Instituto sobre ficar aguardando a Polícia ou fugir, e resolvemos ficar. Naquela noite, a Polícia foi à nossa sala e prendeu o Kunio. Ao visitá-lo, meu irmão Diogenes ouviu do escrivão: ‘Olha aqui seu Milton, se o senhor vier de novo, não sai’. Dias depois, soube que os textos da minha coluna “Estórias que eu Conto”, no Diário de Mogi, tinham sido recolhidos pela Polícia e deixei de escrever, pois meu pai foi avisado que eu seria preso e me fez sair de Mogi, indo para São Paulo me esconder na casa de meus tios. Depois, na Capital, já no tempo da Faculdade, a coisa se tornou perigosa e fugir da Polícia era uma constante. Participava do Centro Acadêmico 22 de agosto da PUC, como diretor cultural, e em Mogi, do Último Congresso da UNE. Depois da queda do congresso de Ibiúna, vimos os caminhos fechados e nos levando à luta armada ou à uma atividade de resistência cultural, caminho escolhido por nós. Desta época, fica a revolta pela morte dos amigos Sérgio Roberto Correa, o Serginho, e Antonio Benetazzo, e de tantos outros.
Hoje, quais são suas distrações?
Cinema de vez em quando, teatro e muita leitura. Há a família, os encontros em volta de uma boa mesa e ver o neto crescendo com saúde. Me divirto quando estou em Mogi e, com os velhos amigos, posso rir, falar bobagem e movimentar um pouco o lado cultural. Hoje, estou aposentado e cuidando de uns poucos processos nas justiças estadual e federal.