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Morre Ruy Ohtake, 83, o arquiteto que projetou o Parque da Cidade, em Mogi

Morreu na manhã deste sábado (27), aos 83 anos, o arquiteto Ruy Ohtake, em seu apartamento em São Paulo. Filho mais velho da artista plástica japonesa Tomie Ohtake, ele tinha um câncer na medula. Segundo a assessoria de imprensa, Ruy será cremado ainda neste sábado, às 17 horas, no Horto da Paz, também na Capital […]

Por O Diário
27/11/2021 16h31, Atualizado há 55 meses

Morreu na manhã deste sábado (27), aos 83 anos, o arquiteto Ruy Ohtake, em seu apartamento em São Paulo. Filho mais velho da artista plástica japonesa Tomie Ohtake, ele tinha um câncer na medula. Segundo a assessoria de imprensa, Ruy será cremado ainda neste sábado, às 17 horas, no Horto da Paz, também na Capital paulista. O velório será realizado para a família e amigos próximos.

É de autoria de Ohtake o projeto do Parque da Cidade, em Mogi das Cruzes, além de outras obras na cidade e região do Alto Tietê.

Segundo o arquiteto Selmo Roberto Santos, ele é o autor do projeto do Parque da Várzea do Tietê, que vai de São Paulo até Salesópolis, ainda em fase de implantação. Ele também projetou o Museu do Eucalipto, em Salesópolis.  Ainda conforme Selmo, o famoso arquiteto tem outra ligação com Mogi das Cruzes, já que a mogiana Márcia Umeoka trabalha com ele há cerca de 40 anos.

Respeitado pelo seu trabalho, o arquiteto esteve em Mogi na noite de 28 de agosto de 2007, para a abertura da 18ª edição da Semana do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UMC, quando falou por mais de uma hora com uma plateia que lotou os 380 lugares do Teatro Manoel Bezerra de Melo. Ele falou da importância de se conceber um projeto com visão futurista e sem desrespeitar o passado histórico da cidade onde a obra será instalada. Formado pela Universidade de São Paulo (USP) na década de 60, Ohtake lembrou que a sua trajetória profissional foi determinada pelo efervescente ambiente daquela década, marcada pela chegada dos militares ao poder e a inauguração de Brasília. “Graças à tendência de expressão forte desta época, pude desenvolver meu trabalho. Hoje defendo um pluralismo e a utilização de formas sempre pensando no futuro, 30, 40 anos à frente”, frisou o arquiteto logo na abertura da palestra, acompanhado atentamente pelos alunos de Arquitetura e Urbanismo da UMC.

Na oportunidade, Ohtake contou que já havia visitado Mogi em outra oportunidade, quando conheceu as características da cidade, com suas ruas centrais apertadas e o Casarão do Chá, marco da imigração japonesa “Gosto da mistura das linhas japonesa e colonial que o Casarão tem. É um estilo muito interessante.”

Na sequência, falou da responsabilidade que o profissional deve ter na preservação do patrimônio histórico do município onde atua. “Jamais podemos esquecer o passado. Mogi tem o privilégio de registrar este contraste entre o histórico e o novo e isso é muito importante para a formação de novos arquitetos.”

A principal tendência da arquitetura moderna, segundo o palestrante contou ao informativo  da UMC, é a liberdade com que o profissional tem para desenvolver os seus projetos. De sua prancheta, saíram, por exemplo, os projetos do premiado Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, do Paulistão, novo sistema de transporte urbano paulistano, e da sede social e cultural do São Paulo Futebol Clube. No exterior, sua marca está na Embaixada Brasileira, em Tóquio, no Club de Las Americas, em Santo Domingo, e nos jardins e museu aberto da Organização dos Estados Americanos (OEA), nos Estados Unidos.

“Ohtake é um gênio! Nasceu em meio de artista, onde viveu sua mãe Tomie Ohtake e teve apoio parar se expandir na arquitetura. Tem obras no mundo todo! Merece todo nosso  respeito!”, afirmou o presidente do Comphap, Selmo Roberto, lembrando que ele já foi até mesmo designer de louças, como cubas, bacias e etc.

“Foi um grande arquiteto que rompeu com várias barreiras da forma na arquitetura brasileira, talvez pela influência da mãe Tomie Ohtake, que foi uma grande artista.Foi um profissional que soube refletir a profissão do arquiteto como algo a mais do que atender às necessidades do cliente”, afirmou o arquiteto Paulo Pinhal.

“Ele sempre se manteve atualizado e seguindo as formas orgânicas que acabaram sendo sua marca.Vai fazer falta”, completou Pinhal, fundador e diretor do Colégio de Arquitetos de Mogi.

“Sem dúvida o Ruy Ohtake é um dos grandes mestres da arquitetura brasileira. Contribuiu muito com a arquitetura contemporânea e inspirou todos com edifícios cheios de cores e curvas. Tinha um traço inconfundível. Desde o projeto do Parque Ecológico do Tietê, a edifícios de alto padrão como o hotel Unique e as habitações de interesse social, em Heliópolis”, disse o secretário municipal de Planejamento de Mogi, Claudio de Faria Rodrigues.

Claudio contou como foram as tratativas para que o escritório de Ohtake produzisse o projeto do Parque da Cidade, em Mogi:

“Desde o início se mostrou muito ligado com as características de Mogi e como poderia contribuir com seus traços na construção de um novo parque para os mogianos. Ao longo de todo processo esteve em Mogi em pelo menos quatro ocasiões e quando as reuniões eram em SP, sempre nos recebia com um imenso sorriso em seu escritório l0calizado na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Uma pessoa de grande valor e de grande simplicidade. Mas, é importante dizer que todo o carinho, a riqueza de detalhes com os projetos em Mogi, representavam também a gratidão por ter ao seu lado a mogiana Marcia Umeoka que trabalha há muitos anos com ele”, completou Claudio.

Perfil

Com um trabalho marcado por curvas e cores, é de Ruy os projetos dos hotéis Renaissance e Unique e do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e da Embaixada do Brasil em Tóquio. Os parques ecológicos do Tietê e de Indaiatuba também são de autoria de Ruy, assim como o conjunto habitacional que ficou conhecido como os “redondinhos” de Heliópolis, na zona sul de São Paulo.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1960, abriu no ano seguinte um escritório com seu nome, capitaneando projetos de edifícios residenciais, comerciais e públicos.

Estagiário de Oscar Niemeyer (ele, inclusive, ia toda semana de São Paulo ao Rio para frequentar o escritório do arquiteto), ele fazia questão de dizer que foi com um dos pais de Brasília que aprendeu tudo.

— Ruy era modernista também, não negava a influência do Oscar. E tinha uma visão empresarial muito interessante — diz o arquiteto Paulo Niemeyer, que lista o hotel Unique como uma das grandes obras-primas de Ruy pela “monumentalidade na simplicidade”. — Ele influenciou uma geração misturando a arquitetura moderna carioca com a paulista.

Em 1997, o próprio Oscar falou ao Globo sobre o discípulo:

— A criatividade e a competência de Ohtake fazem dele um dos mais legítimos representantes da moderna arquitetura brasileira.  Ele aprendeu bem a lição de que o uso do concreto sugere uma arquitetura mais leve e mais solta.

Paulo Niemeyer, que é neto de Oscar, ressaltou a amizade dos dois:

— Meu avô brincava: “Todo o aniversário Ruy está aqui. Esse é amigo mesmo”. Porque o Ruy sempre pegava um avião e vinha para o Rio no aniversário e ele ficava esperando.

Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, lamentou a morte de Ruy e destacou a contribuição dos Ohtake:

“Ruy é de uma família que sempre transbordou arte e que permanece de forma definitiva entre nós”, diz Saron, em comunicado. “Assim é com o legado que sua mãe, Tomie, nos deixou, com muitas de suas obras que podem ser vistas a céu aberto, ao lado da militância cultural de Ricardo (irmão de Ruy, arquiteto e presidente do Instituto Tomie Ohtake). Assim é com os traços marcantes da arquitetura deixada agora por Ruy cuja elegância e essência os torna únicos e indissolúveis desta maravilhosa família que se mescla com a cultura brasileira”.

Além das curvas e do concreto nos prédios (cujos projetos usavam elementos do terreno, como pedras e árvores), paulistano também dedicava-se ao mobiliário e ao design.

— Sempre desenhei móveis em meus projetos arquitetônicos, era como se eu estivesse vestindo os ambientes — disse ele, ao Globo, em 1997. — Com os móveis, procuro fazer o mesmo que na arquitetura, desafiar a gravidade.

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