Padre Alessandro e um desafio difícil de vencer: 100 km em um dia
O frio intenso da madrugada de Logroño, que fazia doer dos fios de cabelo às plantas dos pés, não foi suficiente para tirar o ânimo do padre Alessandro Campos que, escondido sob um gorro de lã vermelho e auxiliado por luvas e uma blusa azul de forro reforçado, demonstrou um otimismo muito acima do normal, […]
15/10/2021 07h20, Atualizado há 58 meses
O frio intenso da madrugada de Logroño, que fazia doer dos fios de cabelo às plantas dos pés, não foi suficiente para tirar o ânimo do padre Alessandro Campos que, escondido sob um gorro de lã vermelho e auxiliado por luvas e uma blusa azul de forro reforçado, demonstrou um otimismo muito acima do normal, ao prometer que ele e seus dois companheiros de viagem caminhariam 100 km para chegarem a Burgos ainda neste quinta-feira (14), antes do cair da noite.
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É claro que foi otimismo exagerado e as últimas fotos enviadas pelo grupo à redação deste jornal mostravam o padre literalmente estatelado sobre o asfalto de um pequenino caminho, aproveitando, talvez, o calor da tarde para descansar da longa jornada concluída até aquele momento. Não deram informação sobre onde se encontravam, mas é certo que podem ter caminhado, no máximo, além da metade do caminho previsto. Ou um pouco mais.
Senão, vejamos: de Logroño até Najera, a cidade mais próxima, são 30 km e outros 22km até Sant Domingo de La Calzada. De lá até Belorado, outros 23 km, e para se chegar até Agés, mais 27 km.
Por fim, de Agés até Burgos, são outros 24 km.
E era perfeitamente compreensível a obstinação de nossos viajantes por chegarem naquele mesmo dia até Burgos, considerada uma espécie de referência para quem realiza o Caminho de Santiago de Compostela a partir da França. Localizada junto à Serra de Atapuerca, Burgos foi a capital do reino unificado de Castilla y León, durante cinco séculos. Quem chega à cidade tem por obrigação visitar uma das muitas obras primas da arquitetura gótica espanhola: a Catedral de Burgos, que guarda verdadeiros tesouros da rica história daquela região da Espanha.
Mas deixemos o futuro para ser desvendado pelos nossos aventureiros, tão logo eles consigam chegar ao destino proposto no final da madrugada.
E voltemos a Logroño para conhecer melhor, por meio de fotos, a Igreja de Santiago el Real, aquela em que padre Alessandro Campos concelebrou uma missa no começo da noite anterior. Trata-se de um tesouro da arquitetura barroca , com paredes cobertas de dourado onde estão espalhadas centenas de imagens e símbolos sacros. Tudo com uma beleza de tirar o fôlego de quem consegue chegar até ao interior do templo encravado entre edificações modernas e ruas estreitas, abertas séculos antes.
Depois de participar da celebração da missa, padre Alessandro Campos voltou à nave central da igreja para apreciar melhor as relíquias expostas diante dele. E o que ele viu, dificilmente conseguirá deixar de contar aos amigos e familiares na volta para casa. São esplendorosas imagens que marcaram a história religiosa da Espanha, pinturas com motivos sacros que cobriam a maior parte do teto. Tudo de uma riqueza ímpar e pouco conhecida, como são raros os tubos do grande órgão capaz de inundar a igreja, de acústica perfeita, com a música que ajuda no contato com o Ser Supremo.
O padre ficou parado por um longo tempo, admirando, aparentemente incrédulo, tudo aquilo que estava diante de seus olhos privilegiados.
Depois da visita à Igreja, um encontro com o pároco e fiéis frequentadores da igreja, num espaço reservado para orações, cânticos e a à sagrada comida. O jantar foi especialmente saboreado pelos visitantes que se despediram em direção a um dos muitos albergues da cidade, onde passariam a noite, para acordarem dispostos no dia seguinte.
“E aí padre, firme?”- provocou um dos acompanhantes, diante do exausto religioso, estirado sobre o pequeno caminho.
“Virgem Maria! Misericórdia” – reclama ele, como se tivesse dificuldade até para responder.
“Quanto ainda falta? “ – indaga.
“Vinte e dois quilômetros”- é a resposta, nem um pouco animadora.
“Força, padre! Já estivemos mais longe… Já estamos no meio do Caminho de Santiago” – exagera o companheiro de viagem, tentando reanimar religioso.
“Vam’bora!”- reage ele, seguindo na direção da mochila para retomar a caminhada.
Burgos os espera.