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Pandemia traz novos desafios às mulheres, que já cumpriam jornadas múltiplas

A pandemia de Covid-19 traz novos desafios à rotina diária das mulheres que já cumpriam múltiplas jornadas. Além de dar conta dos cuidados com a família, dos afazeres domésticos e do trabalho – que agora em muitos casos virou home office -, elas se viram diante da necessidade de se reinventar para ajudar os filhos […]

Por O Diário
06/03/2021 18h17, Atualizado há 65 meses

A pandemia de Covid-19 traz novos desafios à rotina diária das mulheres que já cumpriam múltiplas jornadas. Além de dar conta dos cuidados com a família, dos afazeres domésticos e do trabalho – que agora em muitos casos virou home office -, elas se viram diante da necessidade de se reinventar para ajudar os filhos no acompanhamento das aulas online e tarefas escolares, driblar as dificuldades e conflitos gerados pelo maior tempo de convívio de todos sob o mesmo teto – estudos e atividades profissionais acontecem dentro de casa – e garantir apoio emocional.

Soma-se a isso o fato de as mulheres terem sido as mais atingidas pela crise no mercado, já que a participação delas nas atividades econômicas no ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) caiu para 46,3%. 

Em geral, alerta a socióloga e psicóloga Marina Alvarenga, a mulher já é penalizada, não tem seu trabalho valorizado e o home office agravou a situação. “As suas tarefas cotidianas sempre foram consideradas de menor importância. Os trabalhos com a casa, sua organização, a comida, a administração dos conflitos entre os filhos, o assessoramento às tarefas escolares, trabalhar com o estresse dos filhos, de muita gente no mesmo espaço, sem vida independente, o tempo todo, a colocaram numa roda viva. Não bastasse isso, se o marido está em home office, ele, na maioria das vezes, considera que seu trabalho é mais importante, por isso não deve ser incomodado com ‘coisinhas’ do cotidiano. O impacto se faz sentir no aumento da violência intrafamiliar, haja vista seu aumento contra as mulheres e crianças. Isso o que está registrado, sem mencionar o que está oculto”, explica.

Além isso, a profissional destaca que nem todas podem contar com uma rede familiar a fim de ajudá-las ou pagar alguém para cuidar das crianças enquanto trabalham fora. “Nas classes menos abastadas, a mulher que precisa sair para trabalhar presencialmente, muitas vezes, deixa os filhos menores com os mais velhos, às vezes crianças de 9, 10, 11 anos, ou com adolescentes, imaturos para esse cuidado. É ilegal, mas elas não têm opção, pois a lei não garante o pagamento do aluguel ou o alimento na mesa. As crianças ficam desamparadas e a mulher também”, avalia.

 

Rotina une família, casa e home office

Trabalho home office, assim como o marido há um ano, cuidados com a casa e os três filhos – a caçula nasceu na pandemia -, ajuda nas aulas online e suporte emocional à família. A rotina da jornalista Giovanna Balogh Redondo Padgurschi, 39, anos, casada com o fotógrafo Diego, 42, e mãe de Bento, 10, Vicente, 8, e Teresa, 10 meses, é marcada pelos desafios da pandemia. A começar pela gestação, parto e puerpério sem o acompanhamento de familiares e amigos devido à necessidade de isolamento social imposta pela crise mundial de saúde.

“Foi uma experiência solitária e ainda está sendo, porque a maioria das amigas e dos familiares não me viu grávida e não conhece minha filha. Também não tive chá de bebê, não fiz várias coisas que havia planejado e fiquei isolada. Não vou a restaurantes, shoppings, parques e passeios. Só saio de casa para levá-la a consultas e tomar vacinas”, conta Giovanna.

O segredo para tentar manter o equilíbrio e dar conta de tudo é, segundo ela, “viver um dia de cada vez” e dividir tarefas. “O papel de cuidar da família e da casa é do homem e da mulher, então, precisa haver revezamento, participação e parceria, senão ficamos ainda mais sobrecarregadas. As mulheres sempre foram polvos, mas na pandemia, precisam de braços a mais. Culturalmente, acha-se que temos a obrigação de fazer tudo, porque a sociedade é machista, mas devemos quebrar estes mitos para criar gerações melhores, para que nossos filhos não dependam da mulher para fazer almoço, ir ao mercado, e sim, possam compartilhar os cuidados. Porque atrás de toda heroína há uma mulher exausta”, alerta.

Na pandemia, além de conciliar o home office e os cuidados com os filhos e a casa, a jornalista também administra o tempo, entre uma mamada e outra da bebê de 10 meses, para acompanhar os estudos online de Bento e Vicente. “É necessário ajudar. Em casa, eles têm maior dificuldade de fazer as atividades no computador, é preciso tirar fotos das lições, enviar para os professores pela nuvem da classe, enfim, o trabalho das mães só foi aumentando. Mas o mais difícil foi contar a eles, agora, que as aulas presenciais iriam parar de novo. É muito difícil lidar com esta situação de déjà vu e saber que, agora, estamos pior que em março do ano passado, porque temos mais de 260 mil mortes, falta de vagas nas UTIs e de vacinas”, lembra.

 

Manter equilíbrio emocional é tarefa difícil

Manter o equilíbrio para dar conta desta jornada múltipla e lidar com os impactos emocionais que a pandemia traz à família é tarefa difícil. “Nem com um milagre as mulheres conseguem isso. Além de cuidar da casa, do pet, dos conflitos, de servir ao marido, de cozinhar, ela precisa garantir que o alimento esteja à mesa e que os filhos estejam presentes na escola, ainda que online, quando muitas vezes eles nem estão preparados. Se precisam sair para trabalhar, a coisa piora. Se trabalha home office, precisa ser mágica para dar conta”, analisa a psicóloga Marina Alvarenga.

Desta forma, problemas como ansiedade, depressão e transtorno de pânico, segundo ela, se agravam e a mulher sequer pode pensar em buscar ajuda profissional. “Nesse quadro não dá para buscar equilíbrio. É preciso frisar ainda que, culturalmente, a mulher cuida de todos, incluindo-se os idosos e as pessoas com deficiência, então, estão sempre sobrecarregadas. Cabe a elas, ainda, lidar com o luto, que assolou muitas famílias. Não dá para ter equilíbrio. No máximo podem ser resilientes. E são!”, considera a especialista.

Ainda na avaliação de Marina, as mulheres das classes menos abastadas sempre estiveram presentes no mercado de trabalho, mas, culturalmente, há um marco histórico, da década de 1970 ao século XX, quando elas quiseram ocupar um espaço próprio, e têm conseguido grandes conquistas.

“Mas sempre são menos valorizadas e recebem salários menores. A pandemia fez com que muitas mulheres se reinventassem para trazer a renda para casa, lembrando que muitas são as únicas provedoras do lar”, enfatiza.

 

Crise exige persistência e criatividade em família

A pandemia mudou a vida da família da mogiana Nathália Maria Marcato Grilo, 38 anos. Dona de agência de turismo, ela viu o negócio ficar parado sete meses e, ainda hoje, enfrenta dificuldades, assim como a loja de tintas comandada pelo marido, Mário. A solução foi buscar apoio no porto seguro de todas as horas: a mãe, a corretora de seguros Tânia. 

Com o marido e o filho Vitório, 5 anos, Nathália se mudou para a casa de Tânia, onde também vive a avô, América, 94 anos, e lá se divide entre as tarefas online da agência de turismo, atualmente concentrada na remarcação de viagens, e teve forças para se reinventar e apostar no serviço de delivery de massas, esfirras e molhos. “Meu marido desenvolveu a receita, terceirizamos as massas, mas tudo é feito artesanalmente e por encomenda”, conta Nathália, que também ajuda a mãe nas tarefas da casa, nos cuidados com a avó e acompanha as aulas online do filho.

“Todo mundo foi impactado com a pandemia, que é um teste de sobrevivência emocional, financeira, enfim, uma luta… No entanto, não podemos deixar de trabalhar. Foi preciso encontrar outros meios de sobrevivência, mas tudo na vida vai se ajeitando, com paciência, resiliência e um ajudando o outro”, ensina. 

 

Desigualdade salarial ainda persiste

A história da evolução da mulher no mercado de trabalho é marcada pela desigualdade salarial no comparativo com os rendimentos destinados aos homens, inclusive quando ocupam os mesmos cargos.

Segundo o estudo Estatísticas de Gênero – indicadores sociais de mulheres no Brasil -, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano passado, elas receberam, em média, 77,7% do montante auferido pelos homens. 
A desigualdade chega a proporções ainda maiores em funções e cargos com salários mais altos. Entre diretores e gerentes, por exemplo, elas receberam 61,9% do rendimento dos homens.

O percentual também foi alto no grupo dos profissionais da ciência e intelectuais: 63,6%. 
Além disso, o levantamento revela que 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais integravam a força de trabalho no país em 2019. Entre os homens, esse percentual foi 73,7%.

 

 

 

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