Pedágio sobe o custo de vida de Mogi e pode afetar o poder de competitividade
A nova fonte de arrecadação para o Estado de São Paulo impõe perdas financeiras a Mogi das Cruzes com o aumento do custo de vida mogiano e regional, da indústria, do comércio e da prestação de serviços. Mesmo com a redução do valor do pedágio planejado anteriormente em cerca de R$ 11 ou R$ 12 […]
12/08/2023 08h30, Atualizado há 35 meses
A nova fonte de arrecadação para o Estado de São Paulo impõe perdas financeiras a Mogi das Cruzes com o aumento do custo de vida mogiano e regional, da indústria, do comércio e da prestação de serviços. Mesmo com a redução do valor do pedágio planejado anteriormente em cerca de R$ 11 ou R$ 12 para algo na casa dos R$ 3,80 (ida e volta) no caso do ponto de cobrança, no quilômetro 44 da rodovia Mogi-Dutra, o impacto financeiro nas operações da rede de negócios, fornecimento e recebimento de produtos, e no valor final de produtos é temido e rejeitado por lideranças da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC) e a regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp).
Renato Rissoni, conselheiro do Ciesp Alto Tietê, afirma que os mogianos vão pagar um pedágio a mais e, alguns, pagarão pedágio para andar dentro da própria cidade, caso o projeto da concessão do Lote Litoral seja aprovado.
“Um pedágio é para todos. Nós todos, moradores, estudantes, trabalhadores, comerciantes, empresários, vamos pagar duplamente porque já há um pedágio na rodovia Ayrton Senna”, avisa, lembrando que a concessão por meio de uma PPP (parceria público-pivada) da estrada construída com recurso municipal, e duplicada, com investimento do Governo do Estado, terá um peso na decisão de investimentos de empresas que atuam ou que venham a se fixar no município.
Ele cita que há empresas que transitam pelo acesso centenas de vezes por semana e esse valor será agregado ao “custo-Mogi”. “Tudo ficará mais caro por ser em Mogi e o poder de competição com outras cidades também será influenciado pela cobrança a mais que a passagem pela cidade significará para o escoamento de mercadorias e serviços”.
Rissoni lamenta a decisão do Governo do Estado de, novamente, penalizar Mogi das Cruzes e cita um descontentamento antigo: há mais de 15 anos a cidade luta por melhorias no distrito industiral do Taboão, que foi criado, no passado, com a destinação para a indústria e negócios justamente pela imposição restritiva de atividades empresariais gerada pela instalação de barragens no território mogiano. Ao garantir água para São Paulo, o uso do território da cidade foi limitado.
“O Taboão foi dedicado à atividade produtiva porque a cidade já havia sido afetada pela expansão das barragens”, relata, cobrando que, apesar de todos os pedidos da cidade e de representantes da indústria, o distrito industrial sofre com a falta de infraestrutura e de acesso ao corredor Ayrton Senna.
Os apelos da cidade, resume Renato Rissoni, foram ignorados, exatamente como ocorreu agora, com a retomada do projeto do pedágio que foi cancelado por interesse político na campanha eleitoral passada.
No médio e longo prazos, caso a ameaça se concretize, o interlocutor do Ciesp prevê um recuo no interesse pela instalação em Mogi das Cruzes – algo já notado, aliás, no próprio Taboão, que perdeu diversas e excepcionais oportunidades de investimentos recentes pela falta de acesso rodoviário e o acanhamento da infraestrutura em mobilidade e comunicação.
O retrocesso será sentido em outros setores dependentes de viagens diárias para o escoamento de produtos, como a agricultura.
Rissoni acredita que uma parte do escoamento poderá até se valer de alternativas, como os caminhos não tarifados, como a SP-66. Porém, empresas de grande porte, como as de papel higiênico e fraldas, por conta de suas estratégias de distribuição, não seguirão essa opção. O pior – o desinteresse pela cidade, que perdeu investimentos potentes – virá aos poucos, e no planejamento futuro dos empreendedores.
Presidente da ACMC, Fádua Sleiman, estima que o custo para determinados setores do comércio, poderá ser elevado em até 15% – sendo que certos preços ao consumidor poderão ter um impacto entre 5% e 7% no custo final. A entidade centenária se posiciona contra o pedágio e teme a desvalorização do setor por causa da cobrança extra. “Falamos do comércio, mas todos os segmentos, a prestação de serviços, as universidades, a agricultura, terão um custo a mais mensal não justificado porque a estrada já está duplicada e vamos pagar para circular na região”.
Repúdio do comércio
Uma faixa, um ato de instalação e a recomendação do engajamento de comerciantes à luta contra o pedágio são estratégias anunciadas pela presidente da Associação Comercial de Mogi das Cruzes, a ACMC, contra o pedágio na Mogi-Dutra.
Fádua Sleiman, que preside a entidade, afirma que o custo dos produtos e serviços será elevado na cidade, o que impacta na geração de emprego e renda, e na competitividade com outras cidades e regiões.
Ela prevê um recuo na contratação de pessoas que residam em outras cidades, com a regionalização do mercado de trabalho. “Isso é desinteressante porque há talentos que são de outras cidades e deixarãode ser contratados, porque o custo deles será maior”.
A entidade adverte para a penalização do consumidor ao fornecedor.
“A alface que sai de Mogi vai ficar mais cara para ir para o Ceasa, assim como os produtos de outras regiões que aqui são vendidos, custarão mais. Será mais caro entrar e sair de Mogi”, pondera.
A comerciante, que deverá participar da consulta pública sobre o projeto, diz acreditar que lideranças, como o deputado federal Marco Bertaiolli (PSD), vão intermediar o assunto junto ao governo do Estado.
Ela lamentou o descumprimento da promessa de campanha feita pelo governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos. “Nós fomos vítimas de blefe porque a promessa era se manter a decisão do ex-governador (Rodrigo Garcia) que cancelou o pedágio”, disse.
Outro receio das lideranças é que o valor do sistema free flow, que começa em R$ 1,90, possa ser alterado logo depois da aprovação do projeto. (E.J.)