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Preconceito mata mulheres trans e as deixam sem oportunidades

Na televisão, diariamente – como participante do Big Brother Brasil, da TV Diário –, Lina Pereira dos Santos, a Linn da Quebrada, ganha espaço e abre discussões sobre as oportunidades para transexuais e travestis. Por mais que ela esteja em evidência, essa parcela da população ainda sofre muito preconceito no País. De acordo com a […]

Por O Diário
05/02/2022 08h16, Atualizado há 55 meses

Na televisão, diariamente – como participante do Big Brother Brasil, da TV Diário –, Lina Pereira dos Santos, a Linn da Quebrada, ganha espaço e abre discussões sobre as oportunidades para transexuais e travestis. Por mais que ela esteja em evidência, essa parcela da população ainda sofre muito preconceito no País. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), o Brasil foi o lugar em que mais se matou pessoas trans no mundo, em 2021.

E não é necessário ir longe para encontrar os casos de transfobia. No ano passado, Mogi das Cruzes e o Alto Tietê foram palco de assassinatos de mulheres trans (leia mais nesta reportagem). Além de toda a violência física sofrida por essas pessoas, o preconceito ainda fecha muitas portas. As oportunidades não são poucas: elas, basicamente, não existem.
Quem fala com autoridade sobre o assunto é Neuza Aparecida de Oliveira, coordenadora da Casa Dandara, um acolhimento para mulheres em situação de rua que funciona no Centro de Mogi. Há três anos ela atua com pessoas trans no local e, desde então, nunca conseguiu colocação no mercado de trabalho para alguma dessas mulheres que passaram por lá.

“Com todas as mulheres da Casa, nós fazemos vários trabalhos para tentar recolocá-las na sociedade. Buscamos pela família, oferecemos atendimento psicológico e fazemos oficinas. Para as mulheres trans, essas aulas são ainda mais importantes, para que elas possam ser autônomas e consigam dinheiro sem recorrer à prostituição. Elas costumam ir embora do acolhimento após a reconstrução do vínculo familiar, porque é mais fácil a família deixar de lado o preconceito e aceitar, do que uma vaga de emprego”, afirma Neuza.

Independente de identidade de gênero, a coordenadora ressalta que as oportunidades para as pessoas em situação de rua são muito escassas. Ela cobra políticas públicas e uma determinação para que, pelo menos, 1% das vagas de emprego fossem direcionadas para pessoas que estão tentando sair da situação de rua. 

E mesmo que, futuramente, mais oportunidades comecem a surgir, as mulheres trans ainda terão muitas barreiras a serem superadas. E a maior delas será a violência sofrida por conta de preconceito, que se une ao machismo. Neuza explica que mulheres cis sofrem muita violência e os casos de feminicídio também não são uma raridade. O que difere os casos de transfobia é a violência empregada.
“Não é minha intenção minimizar a dor de nenhuma mulher. Muitas delas sofrem muito, principalmente as mulheres pretas. Mas, quando falamos das mulheres trans, a violência parece ser ainda mais brutal. Quem mora aqui na Casa Dandara pode sair durante o dia e cada vez que uma mulher trans sai, eu fico muito agoniada. Elas correm o risco de apanhar, sem mais nem menos, apenas por estarem nas ruas e não é qualquer agressão. Até com uma picareta já tentaram assassinar uma delas”, lamenta a coordenadora.

De acordo com o relatório da Antra, a cada 10 assassinatos de pessoas trans no mundo, quatro ocorreram no Brasil. O monitoramento é realizado pelo projeto de pesquisa Trans Murder Monitoring (TMM), que monitora, coleta e analisa sistematicamente os relatórios de homicídios de pessoas trans e com diversidade de gênero em todo o mundo.
O levantamento tem 4.042 assassinatos catalogados e deste total, 1.549 aconteceram no Brasil. Isso quer dizer que o País é responsável por 38,2% dos homicídios dessa parcela da população. E esse número pode ser ainda maior, já que é difícil obter os dados em sua totalidade.

A reportagem de O Diário questionou o Serviço Estadual de Informações ao Cidadão (SIC) sobre quantos homicídios de mulheres trans foram registrados em Mogi nos últimos meses, mas o órgão respondeu que os dados não são levantados e registrados a partir desse recorte

Alexandra, exemplo de superação

Vice-presidente do Fórum Mogiano LGBT de Mogi das Cruzes, Alexandra Braga, 44 anos, se tornou uma inspiração para as mulheres trans da cidade. Com graduação em Pedagogia e pós em Psicopedagogia, ela faz com que essa parcela da população acredite na possibilidade de uma vida digna. Mas isso não significa que Alexandra não tenha uma história de muita luta e superação.

Aos 16 anos, ela deu início à transição e passou por dois processos dolorosos: a família, que era simples, não compreendia aquilo e começou com uma exclusão, mesmo que sem expulsá-la de casa. O preconceito ainda fechou outra porta, a da escola, e ela abandonou os estudos. Quando completou a maioridade, já estava nas ruas, como Alexandra, e se prostituindo.

“Eu fazia programas, usava drogas e não tinha nenhuma perspectiva, achava que minha vida terminaria daquele jeito. Mas, com o tempo fui entendendo que a sociedade que me excluía, era quem me procurava para realizar desejos. Eu percebi que o erro não estava em mim e fui me reconstruindo. A partir daí, resolvi que voltaria a estudar”, conta.

Foi aos 25 anos que tudo começou a mudar na vida de Alexandra. Ela conheceu o atual marido, Alex Schiszler das Chagas, e deu início aos estudos no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde se formou no Ensino Médio. Depois entrou na faculdade.

“Hoje, o que mais me importa é garantir o direito das pessoas. Eu defendo vidas e essa construção veio lá de trás, da exclusão e do abandono. Não quero que outras pessoas vivam isso. O meu marido também foi fundamental nesse processo, porque eu nem acreditava no amor e ele foi me mostrando que eu podia sim ser amada”, ressalta.
E o amor na vida dela também ganhou outras proporções. Hoje, Alexandra tem uma ótima relação com a família, que entendeu e respeita a transexualidade. 

As mortes em Mogi e região

Muito mais do que números em estatísticas, as mulheres trans assassinadas são nomes que tiveram sonhos interrompidos e deixaram uma saudade eterna para as famílias. Entre 2020 e 2021, crimes ainda não esclarecidos levaram de forma trágica essas vidas.

No dia 12 de dezembro, Nataly Lily saiu de casa para nunca mais voltar. Em fevereiro de 2021,  o Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) de Mogi chegou a indiciar quatro pessoas – Vanessa Silva Vieira, Danilo Nascimento Batista, Caio Cleiton Rodrigues Silva e Carlos Renato Rodrigues Silva – que teriam assassinado a mulher. Mas eles estão foragidos e Nataly nunca foi encontrada.

No bairro do Jardim Universo, Lola Santos foi encontrada morta dentro de casa, em agosto do ano passado. O caso foi registrado como homicídio, mas o autor do crime ainda não foi identificado. 

Dois meses depois, em outubro de 2021, Gabriella Irente foi encontrada morta na região da Lagoa Azul, em Suzano. Artista, ela era conhecida nos palcos como Hanna e estava gravando um álbum de músicas autorais. O caso ainda não foi esclarecido. 

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