Prefeitura de Mogi não divulga número de vacinas encaminhadas às unidades de saúde da cidade
Quantas doses de vacina foram encaminhadas até agora cada um dos hospitais e instituições da cidade? Parece uma pergunta simples feita por O Diário à Secretaria Municipal de Saúde para poder divulgar, com transparência, o processo de distribuição dos imunizantes na cidade. Mas, apesar de insistir nesses questionamentos desde a semana passada, a pasta alega […]
01/02/2021 19h12, Atualizado há 65 meses
Quantas doses de vacina foram encaminhadas até agora cada um dos hospitais e instituições da cidade? Parece uma pergunta simples feita por O Diário à Secretaria Municipal de Saúde para poder divulgar, com transparência, o processo de distribuição dos imunizantes na cidade. Mas, apesar de insistir nesses questionamentos desde a semana passada, a pasta alega que não é possível apresentar os números exatos porque há profissionais de saúde que trabalham em várias unidades, sendo que algumas delas recebem uma certa quantidade, mas acabam devolvendo porque alguns trabalhadores já foram imunizados em um outro local.
O que foi divulgado pela Administração é que, até agora, um total de 3.620 doses já foram aplicadas em Mogi das Cruzes nessa primeira etapa da campanha de imunização contra a Covid-19 no município, que recebeu 5.240 doses da Coronavc, e outras 4.020 da vacina de Oxford.
A Secretaria de Saúde alega que para distribuir as doses é feita antes uma análise das solicitações, cruzados os dados com outras unidades de saúde para que não haja duplicidade ou desperdício.
“Como a análise ainda está em curso, não é possível divulgar os dados com precisão neste momento”, destaca em nota encaminhada à O Diário, na qual ressalta ainda que todas as informações serão compartilhadas com o Ministério Público, que está fazendo o monitoramento da campanha de vacinação.
O controle, de acordo com a Prefeitura, é feito pelo CPF ou Cartão Nacional de Saúde, que é individual, e existe, ainda, um sistema do Governo do Estado que será alimentado pelos hospitais e permite o rastreamento dos dados.
A pasta cita exemplo: caso um profissional seja cadastrado em um serviço hospitalar ou equipamento de saúde que atenda Covid-19 e receba a vacina neste local, o seu CPF ou CNS já constará em todos os locais como dose aplicada, não permitindo que a mesma pessoa disponha de vacinas em locais diferentes. “O sistema também possui lista física e nominal, onde quem está recebendo a vacina deve assinar”, explica.
As doses estão distribuídas para que a aplicação seja feita pelos próprios hospitais, prontos-socorros e outros equipamentos referência Covid-19.
A Prefeitura explica que o processo todo é organizado com participação da Vigilância Epidemiológica, após reunião por segmento para capacitar os profissionais sobre como deve ser a aplicação, além de esclarecer dúvidas. A partir daí o material é liberado com base em uma lista nominal dos funcionários.
O mesmo processo de distribuição está acontecendo nas instituições de longa permanência na cidade, que serão responsáveis pelas imunizações de seus idosos abrigados. São 224 idosos em 15 instituições (públicas e privadas). A previsão é imunizar em torno de 10.840 profissionais da saúde e cerca de 53.800 idosos nessa primeira etapa de trabalho.
Caminho Inverso
Para tentar descobrir quantas doses cada um dos hospitais da cidade recebeu, a reportagem questionou as próprias unidades que estão na listas dos que receberam, mas nem todas concordaram em repassar as informações, como foi o caso da direção do Hospital Luzia de Pinho Melo, localizado no Mogilar, ao sugerir que esse questionamento seja feito ao Estado ou responsáveis pela distribuição das doses na cidade.
A Fundação ABC, organização social que gerencia o Hospital Municipal de Braz Cubas, também não apresenta números, e informa apenas de todos os funcionários receberam a primeira dose da vacina contra a Covid-19, tendo em vista que, desde março de 2020, o equipamento de saúde trabalha como Centro de Referência do Coronavírus.
“Diante da coordenação municipal da campanha de vacinação, solicitamos que informações específicas sobre a distribuição de vacinas e cronogramas sejam direcionadas à Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes”, sugere a Fundação.
O Hospital Santana simplesmente se recusou a comentar o assunto. O Biocór sequer respondeu a demanda.
Transparência
Os hospitais como a Santa Casa, Hospital e Maternidade Mogi Mater e Hospital Ipiranga não se opuseram em divulgar as informações sobre a quantidade de imunizante que foram encaminhadas pela Prefeitura.
O Mogi Mater, que trabalha com gestantes, onde os profissionais têm risco de atender pessoas contaminadas, explica que solicitou 496 doses e recebeu apenas 162, motivo pelo qual decidiu priorizar os funcionários da linha de frente em mais contato com pacientes.
O Ipiranga explica que para o início da vacinação, o hospital foi contatado previamente pela Secretaria de Saúde do Município para alinhamentos e garantia da segurança no processo de transporte e distribuição. “Nessa primeira fase, 396 funcionários foram vacinados, o que representa 80% dos profissionais que estão atuando na linha de frente do combate a COVID-19 na unidade”
Segundo a direção, o hospital, referência em atendimento geral na região, que chega a atender mais de 10.000 mil pacientes em pronto-socorro por mês, a imunização começou no dia 22 de janeiro, sendo que um dos primeiros a receber a vacina produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório Sinovac foi a Cristiane Aparecida Franco Mendes, atuante na linha de frente do combate à COVID-19. A técnica de enfermagem, de 45 anos, trabalha há 24 anos no hospital há 24 anos. Desde março de 2020, a unidade de Mogi registrou mais de 700 internações de pacientes com COVID-19.
A Santa Casa de Mogi pediu 570 doses, mas recebeu 469, motivo pelo qual decidiu priorizar as equipes que tem maior contado com o público e voltadas ao tratamento dos casos de Covid. A quantidade ideal é de cerca de 750 doses para atender todas as equipes. Segundo informações da entidade, para a campanha de imunização contra as H1N1 foram aplicadas 900 doses em todos os colaboradores.
A Prefeitura já se explicou que recebeu uma quantidade menor do que esperava do imunizante, mas com as novas doses espera atender todos os profissionais da saúde que estão na linha de frente no combate à pandemia. “Todos trabalhadores de saúde serão imunizados, apenas foi criada uma ordem de prioridade. Mas todos serão”, reforçou a pasta.
MP
O assunto vem sendo tratado pelo Ministério Público de Mogi das Cruzes, acionado com representações solicitando fiscalização para evitar riscos com “fura fila” no município. A Promotoria cobra a apresentação do plano de vacinação que vem sendo executado pela Prefeitura.
O promotor de Justiça da Saúde Pública, Fernando Lupo, também notificou o secretário municipal de Saúde, Henrique Naufel, para que ele explique porque foi um dos primeiros a ser vacinado assim que os imunizantes chegaram na cidade.
Sobre essas notificações, a Prefeitura respondeu, em nota, que tem “absoluta convicção” da regularidade na atuação da Secretaria Municipal de Saúde no processo de vacinação, e alega que “todos os esclarecimentos e documentos necessários serão enviados ao órgão fiscalizador, dentro dos prazos legais”.
Até o momento o secretário municipal de Saúde de Mogi, Henrique Naufel, não se manifestou publicamente a respeito dessa questão. O titular da pasta é alvo de críticas feitas por idosos, lideranças e pelos profissionais da área por sido imunizado, em detrimento de profissionais da saúde que atuam na linha de frente na cidade, como no caso dos médicos da Santa Casa, que até agora não receberam o imunizante por falta de doses suficiente para todas as equipes.
Quando o tema se tornou público, com repercussão também em redes sociais, a Secretaria de Saúde explicou que a vacinação começou pelos profissionais que atendem linha de frente Covid-19 e que o secretário está direto nas unidades e que desde que começou o processo está mantendo os dados no site.