Professora percorre quilômetros para ajudar alunos da região da Volta Fria
Desde 2020, professores como Marilúcia dos Santos Lopes Gomes, da EE Paulo Ferrari Massaro, de Jundiapeba, percorreram quilômetros de estradas para levar o conteúdo das aulas a alunos que não tinham como buscar os cadernos na escola. O conhecimento vai até o aluno Um vídeo compartilhado entre os colegas pela professora Marilúcia dos Santos Lopes […]
07/05/2021 16h03, Atualizado há 63 meses
Desde 2020, professores como Marilúcia dos Santos Lopes Gomes, da EE Paulo Ferrari Massaro, de Jundiapeba, percorreram quilômetros de estradas para levar o conteúdo das aulas a alunos que não tinham como buscar os cadernos na escola.
O conhecimento vai até o aluno
Um vídeo compartilhado entre os colegas pela professora Marilúcia dos Santos Lopes Gomes, da Escola Estadual Paulo Ferrari Massaro, sobre um dos caminhos percorridos por ela para chegar a alunos que residem na região da Estrada da Volta Fria é um registro da realidade de uma parte dos estudantes da rede pública de ensino desde o ano passado, quando a pandemia obrigou o fechamento das escolas e sistemas, como as aulas online.
A poeira do caminho de terra batida e, um pouco mais à frente, a insegura ponte da Volta Fria, que não permite o tráfego de ônibus e veículos pesados, é pano de fundo para a função exercida: levar aos os estudantes que residem longe da escola e não têm acesso à internet, os cadernos com o conteúdo didático. Marilúcia, não está só. Muitos professores fizeram o mesmo.
A rede pública, durante a pandemia, disponibilizou os materiais por escrito para uma parte dos alunos. Porém, conta a professora, algumas famílias não têm condições nem mesmo de ir até a escola. O desemprego teve forte impacto na mobilidade das pessoas, além de outras situações. “Então, não só eu, mas também outros professores, levamos esse conteúdo até o aluno”. Um trabalho heróico. E que mede a dedicação de quem vê, no ensino, um meio de recuperar as adversidades deixados pela Covid na formação futura da geração atual. Antes mesmo da pandemia, quatro entre 10 jovens brasileiros não concluía o Ensino Médio.
Desde o ano passado, a professora Marilúcia, que há 20 anos leciona na rede pública, percorre caminhos rurais de Mogi das Cruzes para levar o conteúdo didático do Ensino Médio da “Paulo Ferrari Massaro”, unidade que se destaca em outros projetos educacionais. Isso, aliás, essa atuação fora da sala de aula também fazia parte da rotina da educação em projetos extracurriculares, como o Afro e o Patrono da Escola.
Na pandemia, ela estima que mais da metade dos alunos das 10 salas onde leciona História e Geografia, não tiveram acesso à internet desde o início da pandemia, no ano passado, um índice também demonstrado por outras pesquisas sobre o ensino durante a crise sanitária. Já o trabalho de levar o conteúdo até a casa do aluno aum número menor do que esse.
A solução dos educadores dos grupos de Busca Ativa foi essa: levar a escola até a casa do estudante. Depois de feitas as lições, Marilúcia novamente recolhia o material, fotografava e encaminhava, inclusive a colegas das demais disciplinas, por meio do WhatsApp.
Marilúcia já conhecia a realidade dos alunos mais carentes, cujas famílias chegam, inclusive, a receber cestas básicas doadas pela comunidade escolar.
Mas, agora, a ida até a Volta Fria, revelou, ainda mais de perto, as dificuldades dos alunos.
A rede estadual mantém um ônibus próprio para buscar e levar o aluno até a escola, localizada em Jundiapeba. Mas, o ponto final é na ponte do Rio Tietê. A partir dali, o aluno faz o caminho a pé, por alguns quilômetros.
Professora inspirada por um outro mestre em História, Marilúcia acredita que a recuperação da ruptura do ensino, desde o ano passado, por imposição da necessidade do isolamento social, não alcançará todos dos adolescentes. E prevê o acirramento da desigualdade social. Outro relato desse período foi a evasão até de alunos mais interessados no ensino, que estão sendo procurados para voltarem à escola.
“Quem está saindo agora, no terceiro ano do Ensino Médio, não terá como repor”. E há ainda, outro complicador: “Nessa fase, o aluno não entende o que o professor diz, que é a oportunidade de se formar para a vida, o trabalho. Após algum tempo, nós os encontramos de novo, e eles dizem: ‘a professora tinha razão, devia ter estudado’, mas, aí, o tempo já passou”, lamenta.
A professora diz que os contatos seguiram cuidados com o uso da máscara, álcool gel. “Eu continuei trabalhando, dessa forma, porque eu acredito que se 1 ou 2% dos alunos, não desistirem da escola, já terá sido bom”, diz.
Dessa experiência, Marilúcia afirma se sentir grata: “perdemos amigos para a Covid, estar podendo trabalhar é motivo para agradecer”.
“Não gostamos de usar o termo, ano perdido, porque trabalhamos muito”
Douglas da Rocha Carvalho, coordenador pedagógico do Ensino Médio da EE Paulo Ferrari Massaro, afirma que os professores atuam para minimizar os impactos da suspensão das aulas presenciais, com ações como a busca ativa dos estudantes. Inclusive, aqueles que não renovaram a matricula, estão podendo fazer isso agora. Para ele, medidas tentam reparar a defasagem na aprendizagem.
“Nós não gostamos de usar o termo, um ano perdido, porque os professores estão trabalhando muito, para garantir o acesso ao conteúdo das aulas”.
Segundo ele, a maior parte dos alunos usa plataformas como o WhatsApp e o drive de estudos, além do material impresso. Nesse caso, ele acredita que entre 15 e 20% dos alunos foram assistidos.
A escola está se preparando para a volta às aulas. A revitalização de espaços, inclusive para garantir o distanciamento, será uma das maneiras de acolher o estudante, a partir dos próximos dias.
Douglas comenta que o retorno às aulas é uma questão sensível. Mesmo em uma unidade, como a Paulo Ferrari Massaro, conhecida pela gestão democrática empreendida por diretores. Ele conta que protocolos foram implantados para garantir segurança a alunos e professores. “As pessoas estão sensíveis, todas as pessoas tiveram alguém na família com a Covid, ou foi um paciente com o vírus”, diz.
Mudanças foram implantadas, e devem ser mantidas, em tópicos como a distribuição da merenda, sala ambiente, e a suspensão rodízio de salas, proposta pedagógica que a escola adotara anteriormente à pandemia.
Escolas preparam a retomada gradual
Plano São Paulo, que ordena o combate à Covid-19, já está permitindo, na atual fase, a retomada das aulas presenciais, com protocolos como a presença de apenas uma parte dos alunos. Apesar da liberação, os pais não são obrigados a levar os filhos à escola.
A espera da volta fria
Mogi das Cruzes espera pela reconstrução da ponte de Volta Fria há mais de 40 anos, quando uma empreiteira contratada pelo Governo do Estado fez as primeiras bases de sustentação para a obra e abandonou o trabalho, influenciando, inclusive, o crescimento desta parte da cidade que interliga a Ponte Grande, a Volta Fria e o distrito de Jundiapeba.
A região servida pela ponte de madeira e sem condições para receber o tráfego pesado, desde então, começou a crescer com a subdivisão de imóveis. Aualmente estudantes dessa região são levados de ônibus a escolas de Jundiapeba e da Ponte Grande.
Na última quarta-feira, o Governo do Estado atualizou o plano de asfaltamento dos 11 quilômetros da Estrada da Volta Fria: a obra está sendo licitada.
Agora, a construção da ponte ainda demora um pouco mais: no lançamento do programa Novas Estradas Vicinais, a informação obtida pela vice-prefeita de Mogi, Priscila Yamagami, e o deputado estadual Marco Damásio (PL), é que a licitação para o projeto executivo será lançado no decorrer deste ano, com início de previsão de licitação para em 2022.
A estrada da Volta Fria é uma colcha de buracos e depressões. A velha ponte de maderia segue isolando a Volta Fria porque carros pesados são proibidos de passar por ela. Quando asfaltada e com uma ponte capaz de suportar o trafego de carros pesados, a Volta Fria será uma nova opção de ligação entre a região da Ponte Grande e Jundiapeba, e um vetor de desenvolvimento desta área da cidade.