Diário Logo

Encontre o que você procura!

Digite o que procura e explore entre todas nossas notícias.

DOC Diário

Mães tentantes: a força de quem, entre exames e esperas, escolhe amar antes mesmo de gerar

Termo "tentante" refere-se a mulheres ou casais que estão dedicando tempo e esforço na busca por uma gravidez

Image

Processo de tentar engravidar costuma despertar uma mistura de sentimentos | Foto: Divulgação

Reportagem de: Ana Lívia Terribille

Elas ainda não têm filhos nos braços, mas carregam a maternidade no coração. São as chamadas mães tentantes — mulheres que vivem entre exames, tratamentos, orações e incertezas. A cada novo ciclo, renovam a esperança com um pensamento recorrente: “Talvez agora”. Enquanto enfrentam expectativas, silêncios e perguntas difíceis — muitas vezes sem resposta — seguem firmes. Porque, para elas, o desejo de gerar uma vida é maior do que qualquer negativa.

Esse é o caso da dentista Aianne Souto, de 28 anos, moradora de Suzano. Ela e o marido, Rafael Pizzolato, de 29, estão há mais de três anos tentando engravidar — um sonho antigo do casal, que sempre desejou construir uma família grande.

Veja o testemunho:

“Quando começamos esse processo, foram tentativas que se passavam um, dois, três, quatro meses… E, para muitos casais, quando demora mais de cinco meses, isso já pode ser assustador. É óbvio que a gente começa a ser questionado. Muitas pessoas perguntam com boa intenção, e a gente começou um acompanhamento para saber as causas do porquê não vinha, o porquê da demora. O tempo foi passando, e estamos há três anos e meio tentando.”

Ao longo do processo, o casal passou por uma bateria de exames e recebeu um diagnóstico difícil: menos de 1% de chance de conceber de forma natural. “É duro ouvir isso, mas Deus tem sido muito gracioso conosco”, dizem.

Segundo o ginecologista Rogério Tadeu Felizi, coordenador técnico do centro especializado em Endometriose e Miomas Uterinos do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a recomendação médica é que casais com menos de 35 anos tentem por até 12 meses antes de buscar ajuda especializada. Já para aqueles com 35 anos ou mais, o ideal é procurar orientação após seis meses sem sucesso. Quando há histórico de problemas de fertilidade — como ovários policísticos, endometriose ou varicocele —, a investigação pode começar ainda antes desses prazos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam a dimensão do problema. Um relatório publicado em 2023 aponta que cerca de 17,5% da população adulta mundial — ou seja, uma em cada seis pessoas — enfrenta infertilidade em algum momento da vida.

Felizi também destaca os principais fatores que interferem na concepção: idade, distúrbios hormonais, doenças ginecológicas, estilo de vida, estresse crônico, exposição a toxinas ambientais, uso prolongado de contraceptivos hormonais e doenças crônicas.

Os ‘nãos’ da vida

Esperar por algo nunca é fácil. Quando se trata da maternidade, porém, a espera pode se tornar ainda mais angustiante — como uma corrida contra o tempo. Isso porque, com o passar dos anos, a fertilidade feminina tende a diminuir. A partir dos 35 anos, essa queda se acentua, afetando tanto a qualidade quanto a quantidade dos óvulos.

Mesmo sendo jovem, ver o tempo passar deixa o coração de Aianne Souto apertado. Ela conta que o mais difícil é viver a negativa recorrente.

“Acho que a parte mais difícil é receber um ‘não’ todos os meses, porque todo mês a gente tem esperança. A gente fala: ‘quem sabe não vem agora’. Oramos, pedimos ao Senhor e, no mês seguinte, vem o ‘não’. E é difícil viver os ‘nãos’.”

Entre todas as negativas, uma se destacou como a mais dolorosa foi o diagnóstico médico que confirmou menos de 1% de chance de engravidar naturalmente. “Foi muito duro ouvir isso. Mas, graças a Deus, a medicina está muito avançada e há ótimos tratamentos para infertilidade. Por isso é importante o casal investigar a causa de não conseguir um positivo depois de um tempo tentando e buscar ajuda profissional.”

O emocional pode ser, também, um agravante nesse cenário, já que oscila a cada ciclo, e a aproximação do período menstrual se torna um gatilho para a ansiedade.

“Toda vez que está perto da menstruação descer, vem aquele sentimento de ‘será que dessa vez vai?’. Apesar de saber que, no nosso caso, é quase impossível, todo mês é uma nova esperança. Mas, quando a gestação não vem, também é uma nova frustração enorme.” Aianne descreve esses dias de espera como profundamente tristes. Para ela, cada ciclo perdido traz consigo uma mistura de dor e questionamentos. A ansiedade e a expectativa de um possível positivo são seguidas de uma grande frustração quando a realidade não corresponde às esperanças.

“Diria que são dias de muita tristeza até entender que, mais uma vez, o sonho não se realizou. Que todos os planos, projetos e pensamentos sobre ter um bebê realmente não vão acontecer. Isso mostra que nada está no nosso controle e que não é no nosso tempo.”

Para lidar com a dor da espera e da frustração, Aianne busca acolhimento e fé. Para ela, esses momentos de tristeza também são tempos de reflexão e conexão com o marido e com sua espiritualidade. “Eu choro, procurando entender que é a fase que estamos vivendo. Converso muito com meu marido e, principalmente, oro e peço ao Senhor que acalme nossos corações. Que nos ajude a compreender que os planos dEle são perfeitos.”

Ela também destaca a importância de não viver esse processo em silêncio, pois acredita que compartilhar sua dor ajuda a suavizar a carga emocional.

“Falar com a família e amigos próximos nos ajuda muito. Sabemos que, para muitas pessoas, falar sobre infertilidade é algo vergonhoso, que deixa a pessoa vulnerável. Mas é um problema que afeta muita gente, então não há por que ter vergonha. Quando compartilhamos, percebemos que não estamos sozinhos. Falar da dor da espera torna o processo mais leve.”

O psicólogo e professor Ednilton Santa Rosa, da Fundação Santo André, explica que o processo de tentar engravidar pode afetar profundamente a saúde emocional da mulher, especialmente quando a gestação desejada não acontece.

“As expectativas sociais, familiares e pessoais em torno da maternidade podem gerar sentimentos de ansiedade, frustração, inadequação e até culpa. A cada ciclo menstrual sem sucesso, muitas mulheres enfrentam um luto simbólico, o que pode levar à tristeza, desesperança e isolamento social.”

Segundo o especialista, a jornada pode ser ainda mais desafiadora porque envolve uma rotina desgastante. “Exames, tratamentos e mudanças de hábitos intensificam o estresse e afetam a autoestima. Além disso, esse momento pode resgatar questões antigas, como a relação com o próprio corpo, com a feminilidade ou traumas do passado.”

Aianne reconhece esse peso. Para ela, falar sobre a caminhada ainda em curso é um desafio. “Contar um testemunho, muitas vezes, parece até vergonhoso, porque ainda não temos o nosso milagre. A gente espera em Deus, mas também não sabe como será o final da história.”

De fora, quem acompanha a rotina do casal vê apenas fotos de viagens e sorrisos, sem imaginar o que realmente se passa nos bastidores. “Alguns acham que está tudo bem, outros até pensam que não queremos filhos. Mas é justamente o contrário: esse é o nosso maior sonho.”

Apesar de tudo, Aianne e Rafael escolheram não viver presos à espera. “Nós, como casal, precisamos continuar vivendo — e com alegria, mesmo nesse momento. A gente tem que esperar vivendo, e não viver esperando.”

“Toda essa jornada tem sido uma grande batalha. Uma luta constante, mas que também tem nos fortalecido ao longo do caminho”, conclui.

Ser mãe mesmo sem ser

Muitas mulheres sonham em ter filhos, planejando desde cedo nomes, quartinhos e roupinhas. Mas e quando essa mulher ainda não teve o privilégio de ser mãe? Ela já é mãe, mesmo sem ter gerado um filho?

Aianne, que deseja esse momento de todo o coração, afirma que já se considera mãe, mesmo sem ter dado à luz. Para ela, o bebê de uma tentante é gerado muito antes do nascimento. “Quando passamos pela espera de uma gestação, começamos a gerar um sonho. Pensamos no nome, nas coisinhas de bebê, em como seria a descoberta do ‘positivo’.”

O psicólogo Ednilton Santa Rosa explica que esse sentimento de ser mãe antes mesmo da gestação é um reflexo da construção simbólica e emocional da maternidade. Segundo ele, essa fase não começa necessariamente com a gestação biológica, mas com o desejo, a identificação interna com o papel materno.

“Esse fenômeno é comum. Muitas mulheres começam a elaborar sua identidade materna a partir de experiências subjetivas, como cuidar de outras pessoas, idealizar um futuro filho ou até mesmo sonhar com a maternidade desde a infância. Psicologicamente, isso envolve vínculos imaginários com o bebê desejado, criando uma relação afetiva antes da concepção. É uma forma de preparar-se emocionalmente para acolher, cuidar e amar”, reforça o especialista.

Esse sentimento de maternidade é intensificado por fatores culturais, sociais e familiares, que atribuem à maternidade um grande valor e significado na identidade feminina. No entanto, quando a gravidez não acontece ou há perdas gestacionais, o vínculo simbólico com o bebê pode causar um sofrimento profundo. Isso porque o luto não se refere apenas à perda biológica, mas também à perda do filho idealizado.

Do ponto de vista psicológico, é fundamental reconhecer e validar esse sentimento. Ser mãe, muitas vezes, começa no desejo e no afeto, muito antes de qualquer exame positivo. Esse reconhecimento é essencial para acolher emocionalmente as mulheres durante esse processo.

Vivendo o propósito com Deus

O desejo intenso por algo pode fazer os sentimentos transbordarem — e, para muitas mulheres que enfrentam o processo da espera, é também o momento em que a fé se fortalece. No caso de Aianne, a espiritualidade é o que sustenta o caminho.

“Nós cremos em um Deus que sabe o que é melhor para nós e que tem o tempo certo para tudo: ‘Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu’ (Eclesiastes 3:1). Então, seguimos confiando que Deus fará o melhor pela nossa família”, compartilhou.

Ainda assim, ela reconhece que ter fé não significa ausência de dor. “Temos, sim, momentos de tristeza — e muitos. Mas somos consolados por um Deus bondoso, um Deus de amor e de muita graça. Procuramos enxergar todas as bênçãos diárias e os motivos de alegria que Ele derrama sobre o nosso lar. E, por isso, só podemos agradecer pelo cuidado constante desse Deus maravilhoso.”

Chegada de um amor de quatro patas

Dizem que um pet cura tudo — uma expressão popular que, embora simbólica, traduz bem os benefícios emocionais e afetivos que os animais de estimação proporcionam aos seus tutores. No meio de tantas incertezas, Aianne e Rafael encontraram em um novo membro da família um alívio inesperado: a cadelinha Amora.

“Eu nunca tive um pet, então não imaginava o tanto de amor que a gente cria por esses bichinhos. A Amora chegou no nosso lar em abril do ano passado e trouxe muita alegria, muito amor, muitas descobertas. Ela me ajuda em vários momentos de tristeza. É algo sem igual — você chegar em casa e o seu animalzinho fazer uma festa só porque você está ali.”

Para Aianne, a presença da Amora foi um “presente de Deus”. “Não imagino mais o nosso lar sem esse serzinho maravilhoso.”

Continue tentando

Ser uma mãe tentante é enfrentar uma montanha-russa de emoções, marcada por altos e baixos constantes. Aianne vive essa realidade de perto e, com a sensibilidade de quem percorre esse caminho, compartilha uma mensagem de acolhimento para outras mulheres que também esperam pela maternidade.

Ela reconhece o peso da espera e a dor dos “nãos” sucessivos que, mês após mês, frustram expectativas e abalam o emocional. Ainda assim, mantém viva a fé em um Deus que realiza milagres e cuida com carinho de cada detalhe da vida.

“Não perca a fé. Se for preciso, busque ajuda médica, converse com profissionais e considere também outros caminhos, como a adoção, que é um gesto de amor profundo”, aconselha. Para a dentista, seguir acreditando é essencial. “Deus sempre fará o melhor, no tempo certo e conforme a sua vontade perfeita.”

Entre esperas e surpresas, nasceu uma mãe

Assim como Aianne, que hoje vive a esperança da maternidade, Rosana Mello, de 59 anos, também enfrentou uma longa e desafiadora jornada até realizar o sonho de ser mãe. Ao lado do marido, Luiz Pereira, também de 59, o casal de professores de Suzano tentou engravidar por cinco anos, passando por diversos tratamentos médicos e enfrentando dificuldades financeiras. “Chegou um momento em que o nosso orçamento não comportava mais tantos exames”, relembra Rosana. Ainda assim, não desistiram. Com fé e perseverança, o tão aguardado milagre aconteceu. Hoje, com dois filhos adultos, ela considera a maternidade o maior presente da sua vida.

A virada começou com o atendimento do Dr. Benedito Kleine, médico de Mogi das Cruzes, que identificou uma obstrução nas trompas de Rosana e recomendou um tratamento cirúrgico. Sem recursos financeiros, o casal foi encaminhado para a Santa Casa de São Paulo, onde seguiu com consultas, exames e procedimentos durante mais dois anos. Em 2000, após passar por uma combinação de tratamentos — medicamentoso, hormonal e cirúrgico — Rosana finalmente engravidou. No entanto, a gestação terminou em um aborto espontâneo.

A psicóloga especialista em luto, Mariana Clark, explica que esse tipo de perda pode gerar uma dor emocional profunda e prolongada. “O luto parental é uma das formas mais dolorosas de luto, porque vai contra a ordem natural da vida. Ele vem carregado de sentimentos de culpa, impotência e injustiça”, afirma. Rosana confirma esse impacto. “Me senti sem chão. A dor foi muito grande. Mergulhei numa tristeza severa e cheguei até a abandonar os remédios por alguns meses.

Apesar da dor, ela decidiu recomeçar. A psicóloga Mariana destaca também a importância de viver e reconhecer a perda, sem silenciar a dor. “Falar sobre o que aconteceu, chorar, buscar acolhimento e quebrar o silêncio são passos fundamentais para enfrentar o luto”, orienta.

Com o tempo, Rosana reuniu forças. No fim de 2001, começou a sentir azia frequente, mas hesitava em fazer exames — o medo de mais uma frustração ainda era grande. “Meu marido brincou: ou você está grávida ou precisa de um gastroenterologista.” O resultado do teste trouxe a resposta que tanto esperavam: positivo. “Foi uma choradeira só”, lembra, emocionada.

Depois dessa descoberta tão especial, o casal partiu para o segundo passo: saber como estava o bebê. A maior surpresa, no entanto, veio durante o ultrassom. “Quando o médico iniciou o exame, disse que não poderia continuar daquele jeito, que tinha mais de três. Eu perguntei: ‘Filhos?’. E ele respondeu: ‘Não, seu bebê já está com mais de três meses’. Eu já estava quase no quarto mês de gestação do meu primeiro filho”, conta.

Em uma nova consulta, o casal perguntou sobre a possibilidade de uma segunda gravidez. A resposta foi direta: somente com novos tratamentos. Mas o médico acrescentou uma observação que Rosana nunca esqueceu: “Para Deus, nada é impossível”.

Ela então decidiu confiar. “Se Deus achar que somos merecedores, teremos outro filho. Mas tratamento eu não faço mais.” Em junho de 2004, nasceu Beatriz, sua filha mais nova. Aos quase 40 anos, Rosana se sentia plena, realizada e abençoada. O filho mais velho é o jornalista Fabrício Mello, repórter de O Diário.

“Se eu fosse falar só do prazer da maternidade, teria uma penca de filhos. Mas a criação exige responsabilidade, e dois era o nosso limite”, diz. Hoje, com os filhos adultos, ela celebra o vínculo que construíram. “Eles são unidos — mais do que isso, são cúmplices. Ser mãe foi o maior papel da minha vida.”

Mães tentantes na mídia

Com o intuito de dar visibilidade à força e à resiliência das chamadas “mães tentantes”, o tema tem ganhado cada vez mais espaço na mídia e até virou tema de campanha publicitária. No vídeo, é retratado uma mulher que, cheia de esperança, realiza mais um teste de gravidez. O resultado negativo, no entanto, quebra momentaneamente suas expectativas. A ação destaca como esse processo pode ser solitário e doloroso, mas reforça a importância de romper o silêncio e encontrar apoio. “Seja qual for a sua jornada, o amor tem sempre um plano”, afirma a campanha.

A narrativa também mostra que os sonhos e esforços de uma mãe tentante não se limitam a um momento: eles se prolongam por meses e até anos, exigindo força emocional, física e financeira. Ainda assim, a mensagem é clara — o amor, com paciência e fé, pode tudo.

Entre as figuras públicas que têm contribuído para ampliar esse diálogo está a atriz e apresentadora Mariana Rios. Aos 39 anos, ela compartilha abertamente sua caminhada para realizar o sonho de ser mãe. Após sofrer um aborto espontâneo em 2020, Mariana optou por iniciar um tratamento de fertilização in vitro (FIV), enfrentando altos e baixos com coragem e sinceridade.

Em suas redes sociais, ela tem usado sua voz para acolher e encorajar outras mulheres. Em uma de suas declarações mais marcantes, afirmou: “Querer ser mãe é diferente de querer engravidar. Meu maior sonho é ser mãe, e o que importa é o amor, não o caminho que nos leva até ele.”

Além de compartilhar sua experiência pessoal, Mariana tem se engajado em campanhas de conscientização sobre fertilidade e maternidade tardia, tornando-se uma referência afetuosa e real para tantas outras mulheres que passam pelo mesmo desafio.

ASSISTA:

Divulgação/YouTube

Floresça na esperança

Histórias como as de Aianne, Rosana, Mariana Rios — e tantas outras mulheres tentantes, anônimas ou conhecidas — reforçam que o amor materno começa muito antes do nascimento. Ele nasce no desejo, se constrói na persistência, se fortalece na dor e floresce na esperança. São relatos que rompem o silêncio, sensibilizam a sociedade e mostram que, independentemente do caminho, toda jornada rumo à maternidade merece ser reconhecida e acolhida.