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Há 25 anos na Festa do Divino de Mogi das Cruzes, rezadeira transforma casa em espaço de fé

Perpétua Socorro de Barros Prado, aos 73 anos, conta que vivenciou muitas experiências marcantes, incluindo curas atribuídas às suas orações

Reportagem de: Fábio Pereira

Em sua própria casa, a dona Perpétua Socorro de Barros Prado, moradora de Jundiapeba, mantém um cantinho especial para oração, onde há décadas acolhe quem busca conforto espiritual. Há mais de 25 anos, ela participa ativamente da Festa do Divino de Mogi das Cruzes como rezadeira. Sua missão começou de forma espontânea, rezando nas casas, em um tempo em que “não havia igrejas próximas à localidade”.

“Eu comecei a rezar aqui nas casas, no Parque das Varinhas, porque aqui não tinha igreja. Aí depois a gente foi para São José, em Jundiapeba”, conta.

Com o passar do tempo, destacou que sua dedicação ganhou força e reconhecimento. “Eu participava da igreja São José Operário e o pessoal me acompanhava”, relembra. Para ela, o Divino Espírito Santo representa “tudo” em sua vida. “Porque, sem o senhor Divino Espírito Santo, a gente não é nada”, reforça Perpétua.

O momento mais emocionante da festa, segundo a dona Perpétua, é quando a procissão sai pelas ruas. “Todo mundo pode participar, olhar, né? Ver o Divino Espírito Santo passar, ver a rezadeira, a bandeira, tudo”.

Dona Perpétua
| Vitor Gianluca

A preparação espiritual é feita com muita oração. Ela inicia sempre com a tradicional prece: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Para a dona Perpétua, essa oração é essencial no fortalecimento da fé e na preparação das bençãos àqueles que procuram o Divino.

Com o passar dos anos, ela percebe mudanças na fé e no envolvimento das pessoas. “As pessoas vão agradecer as orações que alcançaram. Leva jovem, vai mais gente. Nós precisamos levar mais aos jovens para oração. O mundo precisa ficar melhor por meio das nossas orações”, afirma.

Ao longo de seus 73 anos, vivenciou muitas experiências marcantes, incluindo curas atribuídas às suas orações.

“As pessoas vêm com enfermidade incurável, desenganada, desesperada, para pedir a oração. Aí a gente ora, depois as pessoas ligam agradecendo, vêm pessoalmente testemunhar. E a gente fica muito grato a Deus nosso Senhor por essas curas”, conta.

Ela destaca a importância de manter viva a tradição, reunindo as pessoas na fé do Divino Espírito Santo. Dona Perpétua faz a oração, mas acredita que “quem dá a cura é Deus”.

“Ele é quem nos dá a cura, a bênção de tudo. Eu, aqui no meu cantinho, as pessoas me procuram, eu reforcei essa fé a Deus pelas pessoas que vêm. Não prometo nada, mas Deus dá a bênção, e eu fico muito, muito agradecida”, reforça.

Dona Perpétua acredita que sua missão é uma herança de família. “Eu vim com esse dom, porque a minha mãe rezava, a minha mãe era a benzedeira”. E completa, emocionada: “Eu peço a Deus que dê força pra mim, pra todos nós, né? Eu ajudando, orando pelas pessoas na fé do Divino Espírito Santo, de Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. Amém”, finaliza.

Segundo relato de sua filha, Rute, a família morou por alguns anos em Minas Gerais antes de se mudar para Mogi das Cruzes, por volta de 1991, para o Parque das Varinhas. Na época, a ausência de igreja no bairro fazia com que todos precisassem se deslocar para Jundiapeba, Santo Ângelo, Brás Cubas, Quatinga ou até a região central para participar das missas e ritos católicos.

Foi nesse contexto que dona Perpétua conheceu o padre João Rosa e perguntou se havia a possibilidade de ele celebrar missas em sua casa, já que muitas pessoas não tinham condições de se deslocar. Ele buscou autorização com o bispo e, assim, começaram as celebrações no quintal da casa, por cerca de dois anos.

Depois disso, dona Perpétua compartilhou com familiares e vizinhos o antigo desejo de construir uma capela, ampliando ainda mais o apoio que já prestava à comunidade.

“Um sobrinho deu um pouco de dinheiro para comprar blocos, a filha ajudou com areia e cimento. A mãe sempre trabalhou, foram feitas festas, bingos e, de grão em grão, com muita perseverança, conseguiu chegar onde está hoje”, conta Rute.

“O esforço foi coletivo. Pessoas que já realizavam trabalho social no bairro, como a dona Polônia, passaram a entregar leite, cobertores no inverno, cestas básicas e brinquedos para crianças e idosos de famílias em situação de vulnerabilidade”, complementa.

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Há 25 anos na Festa do Divino de Mogi das Cruzes, rezadeira transforma casa em espaço de fé. ✝ Em sua própria casa, a dona Perpétua Socorro de Barros Prado, moradora de Jundiapeba, mantém um cantinho especial para oração, onde há décadas acolhe quem busca conforto espiritual🙏 Há mais de 25 anos, ela participa ativamente da Festa do Divino de Mogi das Cruzes como rezadeira. Sua missão começou de forma espontânea, rezando nas casas, em um tempo em que “não havia igrejas próximas à localidade”. ⛪ Saiba mais no site de O Diário (Link na bio) 📲 𝘄𝘄𝘄.𝗼𝗱𝗶𝗮𝗿𝗶𝗼𝗱𝗲𝗺𝗼𝗴𝗶.𝗰𝗼𝗺.𝗯𝗿 📹 Vídeo: Arquivo Pessoal #odiario #odiariodemogi #MogidasCruzes #festadodivino #fé #Mogi #catolicismo #reza #rezadeira #AltoTietê

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Durante os anos em que as missas ocorriam no quintal, dona Perpétua conseguiu mobilizar moradores para encontros de oração, rezas de terços e novenas, além de batizados, catecismo, crismas, casamentos e até velórios, todos sempre registrados junto à comunidade de São José Operatório, em Jundiapeba.

“A ideia de construir um cantinho de oração surgiu para ajudar pessoas, estendendo a mão, intercedendo por meio de orações para cura e alcançar bênçãos, amenizar sofrimento”, resume Rute, sobre a missão de sua mãe.

Festa do Divino: origem e história

O historiador mogiano Glauco Ricciele conta que a Festa do Divino começou por volta de 1320, em Portugal, nas ilhas dos Açores. 

“É um culto à Santíssima Trindade, relacionado à celebração de Pentecostes, embora nem todas as festas do Divino ocorram exatamente nessa data litúrgica; algumas acontecem ao longo do ano”, explicou.

A origem, segundo Ricciele, remonta a uma promessa da Rainha Isabel, feita em meio a um período de fome e seca que assolava Portugal. 

“A rainha prometeu doar a coroa, símbolo do poder real, ao Divino Espírito Santo. Após as orações, a situação se transformou: a chuva voltou e a crise foi superada. Assim se estabeleceu a associação entre o símbolo real e a Santíssima Trindade, passando a ser cultuada”.

Enquanto na Europa a festa ocorre na primavera, época das colheitas, no Brasil acontece no outono, marcando a transição para o inverno. “Com a colonização portuguesa, a festa chegou ao Brasil desde as primeiras vilas no século XVI, intensificando-se especialmente a partir de 1808, com a vinda da família real ao Rio de Janeiro”, destaca.

Evolução

Já em Mogi das Cruzes, há indícios da celebração desde o século XVII. “Um documento de 1613 menciona a necessidade de preparar a cidade para as festividades de Pentecostes [celebração cristã que comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo], orientando o recolhimento de animais e o conserto das pontes”, lembra Glauco. 

“Embora essa referência não comprove que a festa já acontecia como hoje, indica a presença das celebrações ligadas a Pentecostes. Outros registros incluem uma compra de velas para Pentecostes por volta de 1750”. 

O pesquisador destacou que a partir do século XIX há mais evidências da festa em Mogi, especialmente com o surgimento da figura do festeiro no final dos anos 1800. “Antes, a festa era diferente, mais religiosa e sem as festividades típicas de hoje, como a quermesse, alvorada e entrada dos palmitos”. Sobre as influências culturais, ele destacou três principais vertentes:

“Dos indígenas, o culto ao palmito, árvore valiosa na Mata Atlântica, cujas sementes são importantes para a fauna e alimentação humana, foi incorporado. Dos africanos, a musicalidade, com destaque para as congadas e o batuque, enriqueceu as manifestações da festa. Dos europeus, o culto religioso e as tradições associadas à primavera e à colheita foram fundamentais para a origem da festa”, detalha Glauco.

Cultura, símbolos e comunidade

O encerramento com a “Entrada dos Palmitos” simboliza o agradecimento pelas boas colheitas. A religião católica foi fundamental para a consolidação da festa na cidade de Mogi das Cruzes. 

“Inicialmente pagã, associada à fertilidade e às colheitas na Europa antiga, ela [a festa] foi incorporada pelo calendário litúrgico como celebração do Pentecostes. Assim, passou a ser uma festa oficial da monarquia e do povo, com forte caráter de agradecimento”.

“A festa é marcada pelo seu aspecto comunitário e solidário, promovendo a união social e religiosa. As elites locais, ao longo do tempo, financiaram a festa para que fosse acessível a todos. A evolução da festa ocorreu gradativamente”, afirma Ricciele. 

“No início do século XX, ainda era tímida. Em 1925, ocorria na praça Coronel Almeida. Após a Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950, houve uma retomada e a festa se expandiu, mudando de local: da praça da matriz para as imediações da antiga prefeitura, depois ao lado dos bombeiros, depois para o ginásio de esportes e, atualmente, no SIP”, destaca. 

A importância da festa para a identidade cultural das comunidades é inegável. “Em Mogi, além da festa central, há celebrações nos bairros como César de Souza, Biritiba-Ussu e Vila Moraes”. Ela reflete a religiosidade, as tradições e a culinária locais. “O afogado, o tortinho e os doces típicos são marcas da festa”, disse Glauco Ricciele. 

O “Afogado do Povo” é, inclusive, um dos pratos mais marcantes da celebração. Historicamente, a iguaria é servida aos mogianos gratuitamente, sempre após a “Entrada dos Palmitos”, conforme explica Marcelo Braz. 

“Tradicionalmente falando, é o prato que a cidade servia para quem vinha da zona rural, normalmente trazendo palmito, daí o nome do evento: ‘A Entrada dos Palmitos’, alimento abundante na Serra do Itapeti, situada na Mata Atlântica”, comenta.

“O pessoal trazia o palmito da roça e, posteriormente, era recepcionado com o afogado, prato com caldo de carne, batata e bastante sustância. Antigamente, nas raízes, a Festa de Pentecostes ocorria apenas aos finais de semana“, finaliza Braz. 

O evento, que remonta aos tempos coloniais, é a mais antiga celebração religiosa do Alto Tietê. Além disso, a “Entrada dos Palmitos” representa a chegada dos festeiros que, na tradição rural, traziam frutos para oferecer ao Divino Espírito Santo e, desta forma, agradeciam pela colheita e pediam bênçãos no próximo ciclo.

Ricciele também destaca a força da “Entrada dos Palmitos” na cidade. “É uma tradição única no Brasil, em que se agradece a fartura com desfiles de carros de boi e cavalos. Esse momento foi registrado por estudiosos como Luiz Câmara Cascudo e Mário de Andrade, que ficaram impressionados com a força cultural da manifestação”, afirma. 

Outro ponto alto é a folia do Divino. “Com visitas a doentes e empresas, fortalece laços comunitários.” Cada cidade adapta a festa de maneira singular: “Em Paraty, no Rio de Janeiro, há uma irmandade; já em São Paulo, a procissão é fluvial, depende da região do País”, comenta o historiador. 

Entre os principais símbolos da festa estão as bandeiras vermelhas. “Elas representam o fogo de Pentecostes e a pomba, símbolo bíblico do Espírito Santo” Algumas bandeiras tradicionais são passadas de geração em geração, “algumas com mais de 100 anos”, diz. 

Durante a alvorada, é comum ver pessoas carregando bandeiras, envolvendo nelas como forma de expressão da fé. Outro símbolo importante são as fitinhas usadas para fazer promessas. Quanto à coroação do imperador e da imperatriz, Ricciele Explicou que em Mogi há uma distinção: 

“O festeiro e o capitão do mastro são casais diferentes, escolhidos pelo bispo diocesano, responsáveis pela administração e pelo diálogo com a comunidade durante o ano. Além disso, há o imperador e a imperatriz mirins, que participam das procissões. O papel desses representantes é unir a população, a igreja e as entidades. É uma função de grande responsabilidade, pois exige dedicação durante todo o ano”, comenta. 

Futuro

Sobre o futuro da festa diante da modernização, ele ponderou: “A festa mudou muito e precisa continuar evoluindo”. Destacou, também, a necessidade de criar formas de atrair os jovens não só para a quermesse, mas também para o voluntariado, de modo a “aprender a tradição culinária e fortalecer a religiosidade”. Uma sugestão apresentada foi dividir as funções de festeiro entre mais casais. “Atualmente a carga é muito intensa. Isso ampliaria a participação e preservaria a saúde dos envolvidos”, finalizou Glauco. 

Em relação ao futuro e às boas perspectivas a tradicional Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes, inclusive, busca ser reconhecida como bem cultural nacional. Isso porque, em abril de 2024, o bisdiocesano, Dom Pedro Luiz Stringhini, e o presidente da Associação Pró-Festa do Divino, Marcelo Braz, assinaram o requerimento do projeto, que posteriormente foi encaminhado, junto à documentação, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), sediado em Brasília. 

O Iphan, em nota, afirmou que o reconhecimento da celebração como bem cultural está em análise preliminar e, atualmente, aguarda a deliberação da Câmara Setorial de Patrimônio Imaterial quanto à continuidade do processo. 

“Em 2023, a Superintendência do Iphan em São Paulo foi procurada pela Associação Pró-Divino e, desde então, tem orientado os proponentes quanto aos trâmites e promovido o diálogo com a comunidade local, fortalecendo sua participação”, diz a nota

O Iphan informou, ainda, que a etapa de reconhecimento do bem cultural poderá avançar para a fase de instrução técnica caso aprovado pela Câmara Setorial, fase em que deve ser produzido um dossiê técnico, vídeos documentários, registros fotográficos, entre outros produtos.

O material será analisado e, se aprovado, um parecer técnico será submetido para apreciação do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, responsável pela decisão final sobre o registro.