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Bebê de 20 dias morre no Pró-Criança de Arujá e família denuncia negligência

Avó que passou 25 horas acompanhando a neta em observação lamenta o que chama de falta de empatia da equipe médica; Prefeitura abre sindicância para averiguar os fatos

Por Victoria Freitas
18/08/2025 21h05, Atualizado há 9 meses

Foto: Divulgação

Alice da Silva Oliveira tinha apenas 19 dias quando deu entrada no Pronto Atendimento Pró-Criança Maria Aparecida Bueno Mendonça, em Arujá, onde morreu após permanecer 25 horas em observação. Rafaela Fernanda da Silva, que é avó paterna da criança, permaneceu ao lado da neta durante as horas de atendimento e denuncia negligência por parte da equipe médica da unidade de saúde.

A Prefeitura de Arujá determinou sindicância para apurar o caso (leia mais abaixo).

A avó conta que a mãe de Alice, Jéssica Silva, de 27 anos, estava internada no Hospital Regional de Ferraz de Vasconcelos por conta de complicações da cirurgia cesariana. Distante da filha e em tratamento com antibióticos, Jéssica não pôde seguir com a amamentação e, por isso, a pediatra teria recomendado o uso de uma fórmula.

Segundo Rafaela, ao perceber na criança sintomas como diarreia, entrou em contato com a pediatra, que orientou que aguardasse dez dias, mas à noite, a bebê apresentou mais sintomas, como vômito, após tomar a fórmula. “Foi aí que eu percebi que realmente ela não estava bem, pedi autorização para os pais da Alice e a mãe me autorizou [a levá-la ao pronto atendimento] e assim fui”, relatou a avó.

Alice deu entrada no Pró-Criança às 0h30 do último dia 18, com sintomas de diarreia e vômito. Ao chegar no pronto atendimento, a primeira médica que atendeu a bebê afirmou que a o estado de saúde era estável.

“Mediram a saturação, o coração estava bom, a temperatura estava 35ºC mas eu não sabia que não era bom, ele me disse que ela estava fria mas achei que era o frio. Na sala da médica levei uma bronca porque ela me disse que não deveria estar lá com um bebê de 19 dias. Expliquei sobre a mãe, que se encontrava internada por complicação da cesariana. Ela não tocou na Alice, dizendo que estava frio e também por conta das infecção que estava tendo, mas receitou para o enfermeiro um isolamento para tomar soro com um remédio. Isso já era 1h32, o primeiro soro foi tão bem que achei que ela logo estaria boa”, conta Rafaela.

Durante a madrugada, Alice foi submetida ao soro novamente, desta vez, por meio de uma bomba de infusão. Por já terem se passado muitas horas desde a última alimentação da criança, a avó pediu orientações para a equipe médica sobre a fórmula oferecida e foi liberada para seguir com o mesmo leite que havia dado antes de Alice passar mal.

Alice já havia sido encaminhada para o berço aquecido quando sua avó observou que a medicação não estava descendo para o acesso na veia da criança. Ao questionar a equipe de plantão, recebeu a orientação de que a máquina estava em seu funcionamento normal e a medicação devia ser lenta, tendo em vista que a bebê estava desidratada e a veia era fina, correndo risco de estourar pois ficava mais frágil. Ela ainda relata que ao longo do dia, a máquina apitava e fazia barulhos.

“A máquina estava quebrada. Eles não sabiam mexer na máquina. Uma enfermeira chegou, disse que sabia mexer e a máquina começou a funcionar. A Alice, então, passou a receber o soro novamente. Ela ficou das 3h até 18h sem tomar o soro, porque ele não estava saindo”, relembrou.

O pronto atendimento tentou a transferência de Alice para outro hospital com mais recursos “Me disseram que ia ser para o hospital de onde nasceu e eu questionei: ‘Mas lá foi onde tudo começou’. Falei com meu filho e minha nora e ela queria levar para onde ela estava internada, mas lá não tinha UTI. Perguntei para a equipe médica se eu pegasse a Alice por conta própria, ela aguentaria uma viagem pra Santa Isabel ou Guarulhos, e eles me disseram que sim, mas se ela morrer a culpa era minha”, relembra a avó.

Segundo Rafaela, durante as horas em que a criança estava sem receber o soro, a equipe apenas mediu a saturação e sempre reforçava que o estado de saúde era estável. A avó conta que após a máquina de soro ter voltado a funcionar, um médico examinou a criança e a colocou no dispositivo para acompanhar os batimentos cardíacos e a saturação.

“A enfermeira disse que ela estava melhorando, deram dipirona e luftal. No horário da visita, minha filha, minha mãe e a tia dela [Alice], disseram que ela estava muito diferente. O médico disse que ela estava em situação severa e foi para uma moderada. Em nenhum momento, eles me falavam que ela estava grave”.

Após orientação de uma das enfermeiras, Rafaela tirou alguns minutos para tomar banho ou comer algo. Quando retornou, viu que a enfermeira estava dando mamadeira para Alice. A equipe assegurou que a criança poderia tomar o leite e só depois Rafaela descobriu que o pulmão estava comprometido e a criança deveria ter recebido a fórmula por sonda.

Ainda segundo a avó paterna, nas horas seguintes a bebê ficou agitada, apresentando desconfortos. “Aos poucos ela foi indo embora. Eu disse para ela: ‘Tenta mais um pouquinho, sua mãe e seu pai estão com saudades, tenta não desistir’ e ali os batimentos foram descendo”, relembra.

A equipe médica, então, encaminhou Alice para a UTI, checando os batimentos cardíacos e realizando manobras de massagem em seu peito, segundo Rafaela. A avó recebeu a notícia da morte da neta às 1h32, do dia 19 de junho.

“Eles voltaram para me dar a notícia que eu já sabia, mas não queria ter certeza que ela tinha ido embora. Eles tinham visto ela morrer aos poucos e não fizeram nada. Não deram a mínima chance da gente ter a certeza que ela não estava bem, e por isso que ficou a revolta não é por ela ter partido porque Deus determina mas sim sofrer por negligência por ela não ter tido um olhar de amor Alice não foi só falta de conhecimento mas também falta de empatia, falta de amor”, lamenta Rafaela.

Em nota, a prefeitura se manifesta

A Prefeitura de Arujá informa que a bebê recebeu todos os cuidados necessários. Mesmo assim, determinou uma sindicância pela Secretaria Municipal de Saúde. Veja a nota na íntegra:

“Em 18/06/2025, a bebê Alice, com 19 dias de vida, deu entrada no Pró-Criança, apresentando quadro de desidratação grave. Diante da gravidade, foi imediatamente internada e recebeu todo o suporte necessário por parte de nossa equipe médica. Alice foi mantida em berço aquecido, com hidratação contínua por bomba de infusão e monitoramento constante. Permaneceu todo tempo acompanhada de sua avó paterna, que presenciou todo o cuidado prestado por nossa equipe. Na madrugada de 19/6/2025, a paciente sofreu súbita parada cardiorrespiratória, tendo sido realizados todos procedimentos e intervenções para reverter o quadro, mas, infelizmente, não foi possível evitar o falecimento. Desde a chegada da pequena paciente, todos os recursos técnicos, humanos e estruturais foram empregados para oferecer o melhor cuidado à mesma. De toda forma, diante do recente posicionamento dos familiares, foi aberta sindicância pela Secretaria de Saúde de Arujá e, também pela OS responsável pela gestão da unidade, para apuração ainda detalhada dos fatos. Manifestamos profundo pesar e solidariedade à família neste momento de dor, colocando-nos à inteira disposição para quaisquer esclarecimentos.”

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