Rio Tietê não tem trecho livre de contaminação, segundo a SOS Mata Atlântica
Apesar do cenário apontado na calha principal do Tietê pela pesquisa, dados do monitoramento do Cetesb indicam que a poluição orgânica começou a cair nos rios e córregos que deságuam no Tietê na Região Metropolitana
22/09/2026 09h59, Atualizado há 0 horas
| Reprodução/ SOS Mata Atlântica
A Fundação SOS Mata Atlântica classificou a qualidade da água do rio Tietê em Mogi das Cruzes como “ruim” após uma expedição para analisar as condições ambientais do rio. A expedição foi realizada em 2025 e teve os resultados publicados neste ano. Ainda segundo o levantamento da fundação, que considerou os trechos do rio desde a nascente em Salesópolis até a foz em Itapura, a qualidade da água do rio em Guarulhos e Osasco é “péssima” e “ruim” em Pirapora do Bom Jesus, Salto e Anhembi.
Segundo o relatório, nesses locais foram registrados os menores valores de oxigênio dissolvido e as maiores concentrações de carbono orgânico e nitrogênio dissolvido, além de elevados níveis de contaminação microbiológica, presença de fármacos, drogas ilícitas e aumento expressivo de microplásticos.
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A bacia do rio Tietê está presente em 265 municípios e concentra grande parte da população e da atividade econômica paulista, além de desempenhar papel fundamental no abastecimento de água, na produção industrial e agropecuária, na geração de energia, na navegação e na conservação da biodiversidade.
Ainda de acordo com a fundação, na nascente do rio, em Salesópolis, foram detectados cafeína e traços de cocaína em concentração abaixo do limite de quantificação, indicando contaminação incipiente, possivelmente relacionada ao lançamento de esgoto doméstico ou a atividades recreativas na região.
No entanto, a benzoilecgonina, resultante da quebra e eliminação da cocaína pelo fígado, foi quantificada em dez pontos ao longo do rio, desde Mogi das Cruzes até a barragem de Ibitinga. A presença conjunta de cocaína e benzoilecgonina é amplamente reconhecida como indicadora de contaminação por esgoto doméstico, uma vez que essas substâncias são excretadas após o consumo humano.
Os resultados indicaram valores significativamente superiores aos limites estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357/2005 nas amostras coletadas nas nascentes do rio. Em alguns casos, os valores observados chegaram a ser até 40 vezes superiores ao permitido para rios de Classe 1.
Ao longo do Tietê, tanto nas amostras de superfície quanto nas de fundo, foram registrados níveis extremamente elevados de contaminação microbiológica. Segundo a SOS Mata Atlântica, os trechos de Mogi das Cruzes, da divisa de Guarulhos com São Paulo e de Pirapora do Bom Jesus estão entre os pontos críticos, especialmente nas áreas urbanizadas.
Entre os microrganismos identificados, destacam-se bactérias de relevância sanitária e ambiental, como Enterobacter spp. e Klebsiella spp., comuns em ambientes aquáticos e no trato intestinal, ambas com potencial patogênico oportunista (capacidade que um microrganismo ou agente infeccioso tem de provocar doenças em um organismo hospedeiro). Também foram identificadas bactérias do gênero Salmonella spp., associadas a doenças gastrointestinais, especialmente às Doenças Diarreicas Agudas (DDAs), frequentemente relacionadas ao consumo ou contato com água contaminada.
Já nas análises parasitológicas, apenas alguns pontos apresentaram resultados positivos, incluindo Mogi das Cruzes, a divisa entre Guarulhos e São Paulo, Pirapora do Bom Jesus, Salto, Anhembi e Botucatu.
A pesquisa também analisou o Índice de Qualidade da Água (IQA), que é uma ferramenta utilizada para avaliar a qualidade da água de um corpo hídrico, como rios, lagos, reservatórios ou fontes de abastecimento. O índice é calculado com base em um conjunto de parâmetros físico-químicos e biológicos que refletem o estado de conservação da água e sua adequação para diversos usos, como consumo humano, recreação, irrigação ou proteção à vida aquática.
De acordo com a ONG, o IQA demonstrou forte variação ao longo do rio. Enquanto os pontos da nascente em Salesópolis foram classificados como “Ótimo” e “Bom”, Mogi das Cruzes aparece classificado como “Ruim”, seguido pelos trechos de Guarulhos/São Paulo e Osasco, que receberam classificação “Péssimo”.
De forma geral, os resultados da pesquisa mostram um cenário crítico de qualidade da água ao longo do rio Tietê, marcado por elevados níveis de contaminação microbiológica e pela presença de organismos patogênicos, sobretudo nas regiões urbanizadas, segundo a fundação.
Pesquisa da Cetesb mostra melhoras em afluentes do rio
Apesar do cenário apontado na calha principal do Tietê pela pesquisa da SOS Mata Atlântica, dados do monitoramento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) indicam que a poluição orgânica começou a cair nos rios e córregos que deságuam no Tietê na Região Metropolitana.
De acordo com o levantamento, em Mogi das Cruzes e Itaquaquecetuba, cinco afluentes apresentaram redução na poluição por matéria orgânica entre 2024 e o período de 2025/2026. O maior destaque foi o Córrego Lavapés, em Mogi, onde a concentração de matéria orgânica caiu 56%, passando de 29 mg/L para 13 mg/L. No Ribeirão Ipiranga, também em Mogi, a redução foi de 6%.
Já em Itaquaquecetuba, a concentração de matéria orgânica caiu no Ribeirão Jaguari, onde passou de 50 mg/L para 34 mg/L, uma melhora de 31%. Nos outros dois trechos avaliados, o Ribeirão Três Pontes, passou de 30 mg/L para 21 mg/L, diferença de 29% e o Ribeirão Perová, passou de 26 mg/L para 22 mg/L, melhora de 14%.
Segundo a Cetesb, para fazer a análise, foi medido o Carbono Orgânico Total, conhecido pela sigla COT. Em termos simples, o indicador mostra a quantidade de matéria orgânica presente na água e ajuda a acompanhar a poluição associada, principalmente, ao lançamento de esgoto. Quanto menor a concentração, melhor é o resultado. A comparação considera os dados de 2024 e a média das medições realizadas nos dois últimos trimestres de 2025 e nos dois primeiros de 2026.
Na avaliação do conjunto dos 30 afluentes monitorados pela Cetesb na Grande São Paulo, a redução média de matéria orgânica foi de 23% em dois anos. Entretanto, como o volume acumulado de poluição na calha principal do Tietê ainda é elevado, os reflexos desses avanços nos afluentes tendem a aparecer gradualmente na qualidade geral da água do rio principal.
Dia do Rio Tietê
O Dia do Rio Tietê é comemorado nesta terça-feira (22) e foi instituído oficialmente no ano de 1992, por meio da Lei Estadual nº 7.815. A data escolhida faz referência direta ao dia em que o ex-governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, incorporou o Parque Nascentes do Tietê, em Salesópolis, ao patrimônio público.
Posteriormente, em 2002, também foi criada a Lei nº 11.273 para instituir a Semana de Preservação do Rio Tietê, também na mesma data. A publicação tem como objetivo mobilizar a sociedade e os poderes públicos sobre a adoção de medidas de preservação e utilização do Rio Tietê.
- Daniel Angel é estagiário e escreveu está matéria sob supervisão da redação de O Diário.