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Conheça os pilares que mantêm a Festa do Divino como tradição em Mogi das Cruzes

Realizada há 413 anos, a celebração mobiliza milhares de fiéis e visitantes todos os anos, mantendo viva uma herança que passa de geração em geração

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Festividade se consolidou como um dos principais símbolos da identidade mogiana | Foto: Glauco Ricciele

Reportagem de: Ana Lívia Terribille

Fé, cultura e tradição se misturam e ajudam a explicar porque a Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes atravessa séculos como uma das principais manifestações religiosas e populares da cidade. Realizada há 413 anos, a celebração mobiliza milhares de fiéis e visitantes todos os anos, mantendo viva uma herança que passa de geração em geração.

Em 2026, a festa será realizada entre os dias 14 a 24 de maio, reunindo uma extensa programação religiosa, cultural e social que toma conta da cidade ao longo de dez dias.

Abertura do Império do Divino | Foto: Glauco Ricciele

Mais do que um evento, a festividade se consolidou como um dos principais símbolos da identidade mogiana.

Os primeiros indícios da celebração no município são antigos. Um documento da Câmara Municipal, datado de 1613, já mencionava a necessidade de preparar a cidade para as comemorações de Pentecostes, data cristã celebrada 50 dias após a Páscoa e que marca a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. Embora esse registro não comprove a existência da festa nos moldes atuais, ele indica que a devoção já fazia parte da rotina local.

Segundo o historiador Glauco Ricciele, a origem da Festa do Divino remonta à Europa medieval.
“Ela surge por volta de 1320, em Portugal, especialmente nas regiões dos Açores, ligada ao culto à Santíssima Trindade e à celebração de Pentecostes”, explica.

Ainda de acordo com ele, a tradição está associada a uma promessa da Rainha Isabel a Portugal, feita durante um período de fome e seca. “Há o relato de que a rainha prometeu entregar a coroa, símbolo do poder real, ao Divino Espírito Santo. Após isso, a crise teria sido superada, fortalecendo a devoção e essa associação simbólica”, afirma.

Rainha Isabel | Reprodução/Internet
Rainha Isabel | Foto: Reprodução/Internet

Com a colonização portuguesa, a festa chegou ao Brasil ainda no século XVI, sendo incorporada às primeiras vilas. Em Mogi das Cruzes, os registros mostram que a celebração foi se transformando ao longo do tempo.

“Inicialmente, era uma festa essencialmente religiosa, ligada diretamente ao Pentecostes, sem as características populares que vemos hoje”, contou Glauco.

Ele destacou também que a figura do festeiro – hoje central na organização – ganhou força apenas no final do século XIX. “É nesse período que a festa começa a assumir um formato mais próximo do atual, com maior participação da comunidade e organização mais estruturada”, relata.

Influências que moldaram a festa

A Festa do Divino em Mogi é resultado de uma construção cultural diversa. Segundo o historiador, três influências principais ajudam a entender essa formação.

A primeira delas é a presença indígena, que aparece de forma marcante na Entrada dos Palmitos, um dos momentos mais simbólicos da celebração.

Cortejo percorre principais ruas da cidade | Divulgação/PMMC
Cortejo percorre principais ruas da cidade | Divulgação/PMMC

“O palmito era um elemento essencial para os povos indígenas da Mata Atlântica, tanto para alimentação quanto para o equilíbrio da fauna. Isso foi incorporado à festa como símbolo de fartura e agradecimento”, explica.

Já a cultura africana se manifesta principalmente na musicalidade. “As congadas, o batuque e a expressão de fé por meio da música são heranças africanas muito presentes durante a festa”, diz.

Há também a influência europeia que, por sua vez, está na base religiosa e também na relação com os ciclos naturais. “Na Europa, a festa acontece na primavera, período de colheitas. Aqui, mesmo em outra estação, mantém esse sentido de agradecimento”, completa.

Religião e partilha

Outro ponto fundamental é o papel da Igreja Católica na consolidação da festividade. Conforme explicou Ricciele, a festa passa a ser oficialmente associada ao Pentecostes, mas sem perder sua essência popular.
“É uma celebração marcada pela partilha, pela solidariedade e pela participação coletiva.”

Esse caráter comunitário permanece até hoje. Durante a quermesse, por exemplo, a arrecadação das barracas é destinada a entidades assistenciais, reforçando o aspecto solidário da celebração.

Uma festa única no Brasil

Embora seja celebrada em várias regiões do país, a Festa do Divino de Mogi das Cruzes possui características únicas. A principal delas é a Entrada dos Palmitos, cortejo que simboliza o agradecimento pelas colheitas e reúne elementos rurais e religiosos.

“Esse tipo de manifestação, como acontece aqui, é exclusivo de Mogi. É um grande momento de fé e de ligação com a história da cidade”, destaca o historiador.

A celebração também reúne outros rituais tradicionais, como as Alvoradas, novenas, procissões e a montagem do Império, além de apresentações culturais e musicais ao longo da programação.

A abertura oficial ocorre no dia 14 de maio, com cerimônias religiosas, cortejo pelas ruas centrais e início da quermesse, enquanto o encerramento, no dia 24, é marcado pela celebração de Pentecostes, procissão e rituais simbólicos que representam os dons do Espírito Santo.

Especial

O Diário inicia, nesta semana, uma série especial de reportagens sobre a Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes. Ao longo dos próximos dias, serão publicados conteúdos que mostram os bastidores da celebração, seus personagens, tradições e os principais momentos de uma das manifestações mais importantes da cultura e da fé no município. As produções estarão disponíveis aqui no site e nas redes sociais.