Celebração representa encontro entre fé, solidariedade e identidade cultural, uma herança que chegou com os colonizadores e que permanece até hoje como a maior celebração religiosa do Alto Tietê
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Mogi das Cruzes completou 465 anos no dia 1º de setembro, e a história da cidade não pode ser contada sem mencionar uma das manifestações mais fortes da cultura local: a Festa do Divino Espírito Santo. Nascida de uma promessa feita pela Rainha Isabel em Portugal no século XIV e transformada ao longo dos séculos pela mistura de influências indígenas, africanas e europeias, a celebração se tornou o maior símbolo cultural e religioso da cidade (leia mais abaixo).
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Muito além da religiosidade, ela representa o encontro entre fé, solidariedade e identidade cultural, uma herança que chegou com os colonizadores e que permanece até hoje como a maior celebração religiosa do Alto Tietê.
De acordo com o historiador mogiano Glauco Ricciele, a Festa do Divino começou por volta de 1320, em Portugal, nas ilhas dos Açores.
“É um culto à Santíssima Trindade, relacionado à celebração de Pentecostes, embora nem todas as festas do Divino ocorram exatamente nessa data litúrgica; algumas acontecem ao longo do ano”, explica.
A origem, segundo ele, remonta a uma promessa da Rainha Isabel, feita em meio a um período de fome e seca que assolava Portugal.
“A rainha prometeu doar a coroa, símbolo do poder real, ao Divino Espírito Santo. Após as orações, a situação se transformou: a chuva voltou e a crise foi superada. Assim se estabeleceu a associação entre o símbolo real e a Santíssima Trindade, passando a ser cultuada”.

Na Europa, a celebração coincide com a primavera, época de colheitas. Já no Brasil, ela acontece no outono, marcando a transição para o inverno.
“Com a colonização portuguesa, a festa chegou ao Brasil desde as primeiras vilas no século XVI, intensificando-se especialmente a partir de 1808, com a vinda da família real ao Rio de Janeiro”, completa.
Em Mogi das Cruzes, há indícios da celebração da Festa do Divino desde o século XVII.
“Um documento de 1613 menciona a necessidade de preparar a cidade para as festividades de Pentecostes [celebração cristã que comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo], orientando o recolhimento de animais e o conserto das pontes”, lembra Glauco.
“Embora essa referência não comprove que a Festa do Divino já acontecia como hoje, indica a presença das celebrações ligadas a Pentecostes. Outros registros incluem uma compra de velas para Pentecostes por volta de 1750”, completa o historiador.
A primeira referência, citada por Glauco, é uma ata redigida na Câmara Municipal de Mogi das Cruzes. O pesquisador destacou que a partir do século XIX há mais evidências da festa em Mogi das Cruzes, especialmente com o surgimento da figura do festeiro no final dos anos 1800.
“Antes, a festa era diferente, mais religiosa e sem as festividades típicas de hoje, como a quermesse, Alvorada e Entrada dos Palmitos”. Sobre as influências culturais, ele destacou três principais vertentes:
“Dos indígenas, o culto ao palmito, árvore valiosa na Mata Atlântica, cujas sementes são importantes para a fauna e alimentação humana, foi incorporado“.
“Dos africanos, a musicalidade, com destaque para as congadas e o batuque, enriqueceu as manifestações da festa“.
“Dos europeus, o culto religioso e as tradições associadas à primavera e à colheita foram fundamentais para a origem da festa”, detalhou Glauco.
A “Entrada dos Palmitos” simboliza o agradecimento pelas boas colheitas. A religião católica foi fator fundamental para a consolidação da festa na cidade de Mogi das Cruzes.
“Inicialmente pagã, associada à fertilidade e às colheitas na Europa antiga, ela [a festa] foi incorporada pelo calendário litúrgico como celebração do Pentecostes. Assim, passou a ser uma festa oficial da monarquia e do povo, com forte caráter de agradecimento”.
“A festa é marcada pelo seu aspecto comunitário e solidário, promovendo a união social e religiosa. As elites locais, ao longo do tempo, financiaram a festa para que fosse acessível a todos. A evolução da festa ocorreu gradativamente”, afirma Ricciele.
A Festa do Divino em Mogi das Cruzes ainda era tímida no início do século XX. No ano de 1925, a celebração ocorria na Praça Coronel de Almeida.
“Após a Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950, houve uma retomada e a festa se expandiu, mudando de local: da Praça da Matriz para as imediações da antiga prefeitura, depois ao lado dos bombeiros, depois para o ginásio de esportes e, atualmente, no SIP”, informou Ricciele.






O evento, que remonta aos tempos coloniais, é a mais antiga celebração religiosa do Alto Tietê. Além disso, a “Entrada dos Palmitos” representa a chegada dos festeiros que, na tradição rural, traziam frutos para oferecer ao Divino Espírito Santo e, desta forma, agradeciam pela colheita e pediam bênçãos no próximo ciclo. Ricciele também destaca a força do evento na cidade.
“É uma tradição única no Brasil, em que se agradece a fartura com desfiles de carros de boi e cavalos. Esse momento, em Mogi das Cruzes, foi registrado por estudiosos como Mário de Andrade, que ficou impressionado com a força cultural da manifestação”, afirma.
No artigo “A Entrada dos Palmitos”, publicado na Revista do Arquivo Municipal (São Paulo, vol. XXXII, 1937), ele associou o cortejo à sobrevivência de antigos cultos vegetais da primavera, lembrando que, em Portugal e em outras regiões da Europa, persistiam as cerimônias pagãs das “Maias”, nas quais crianças enfeitadas de flores e folhas percorriam as casas ao som de música.
Mário observou ainda, no artigo, a presença dos carros de bois, usados no transporte procissional dos palmitos, e questionou se seriam apenas recurso local de locomoção. Ele mesmo sugeriu outra interpretação: o boi, assim como nas festas das “Maias” europeias, estaria ligado às tradições vegetais, o que reforçaria o caráter simbólico do cortejo.
Outro ponto alto é a folia do Divino. Entre os principais símbolos da festa estão as bandeiras vermelhas. “Elas representam o fogo de Pentecostes e a pomba, símbolo bíblico do Espírito Santo. Algumas bandeiras tradicionais são passadas de geração em geração, algumas com mais de 100 anos”, disse Glauco.
“Com visitas a doentes e empresas, a celebração fortalece laços comunitários. Cada cidade adapta a festa de maneira singular: Em Paraty, no Rio de Janeiro, há uma irmandade; já em São Paulo, a procissão é fluvial, depende da região do País”, comenta o historiador.
Durante a alvorada, é comum ver pessoas carregando bandeiras, envolvendo nelas como forma de expressão da fé. Outro símbolo importante são as fitinhas usadas para fazer promessas. Quanto à coroação do imperador e da imperatriz, Ricciele Explicou que em Mogi há uma distinção:
“O festeiro e o capitão do mastro são casais diferentes, escolhidos pelo bispo diocesano, responsáveis pela administração e pelo diálogo com a comunidade durante o ano. Além disso, há o imperador e a imperatriz mirins, que participam das procissões.”
“O papel desses representantes é unir a população, a igreja e as entidades. É uma função de grande responsabilidade, pois exige dedicação durante todo o ano”, comenta Glauco.
O DIÁRIO ACOMPANHOU A PREPARAÇÃO DO PRATO AFOGADO; VEJA:
Em relação ao futuro e às boas perspectivas a tradicional Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes, inclusive, busca ser reconhecida como bem cultural nacional. Isso porque, em abril de 2024, o bispo diocesano, Dom Pedro Luiz Stringhini, e o presidente da Associação Pró-Festa do Divino, Marcelo Braz, assinaram o requerimento do projeto, que posteriormente foi encaminhado, junto à documentação, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), sediado em Brasília.

O Iphan informou que a pesquisa em andamento sobre a Festa do Divino de Mogi das Cruzes, feita da edição de 2025, servirá de base para a elaboração de um dossiê técnico.
O documento, segundo a autarquia, é uma exigência legal para instruir o processo de registro de bens como Patrimônio Cultural do Brasil e também será acompanhado por um material audiovisual sobre a celebração.

De acordo com o órgão, o dossiê reúne informações sobre a trajetória histórica da festa, seus aspectos culturais mais relevantes e as referências simbólicas centrais para a comunidade. Além disso, o material deve apontar demandas para ações futuras de preservação e promoção da manifestação cultural.
Após concluído, o dossiê passará pela avaliação da equipe técnica do Departamento de Patrimônio Imaterial (DPI). Caso cumpra todos os requisitos, o processo será encaminhado para análise da Câmara Setorial de Patrimônio Imaterial (CSPI) e, posteriormente, para o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, responsável pela decisão final sobre o reconhecimento oficial da festa como patrimônio imaterial do País. As datas de avaliação, no entanto, não foram informadas.