‘Entregaria qualquer parte de mim’: pai doa medula e ajuda o filho a vencer a leucemia
Giovani Oliveira enfrentou o maior desafio da paternidade quando o filho, ainda bebê, foi diagnosticado com um tipo raro de leucemia, mas um exame de compatibilidade mudou tudo
Dia dos Pais é comemorado hoje no Brasil | Foto: Arquivo pessoal
Reportagem de: Ana Lívia Terribille
Ele não esperava viver esse papel tão cedo. O de ser pai? Não — o de herói. Mas, quando o filho, ainda com apenas um ano de idade, adoeceu, foi nos braços dele que encontrou abrigo e vida. Doar a medula óssea foi mais do que um gesto médico: foi um ato de amor em estado puro. A dor da espera, a força da fé e o medo constante fizeram parte dos dias desse pai, que viveu a missão mais difícil e, ao mesmo tempo, mais bonita da paternidade: salvar o próprio filho.
Essa é a história de Giovani da Silva Oliveira, professor de Educação Física, de 34 anos, morador de Suzano. Ele enfrentou o maior desafio da paternidade quando o filho, ainda no primeiro ano de vida, foi diagnosticado com Leucemia Mieloide Aguda (LMA) — um tipo raro de câncer que atinge a medula óssea e provoca a produção descontrolada de glóbulos brancos imaturos, sendo incomum em crianças. O que parecia o fim se transformou em um recomeço, e tudo começou com um exame de compatibilidade.
O histórico da doença começou em janeiro de 2024. Inicialmente, os sintomas pareciam indicar uma sinusite, já que Pedro Bin Oliveira tinha febres recorrentes todas as noites — ele estava com apenas 11 meses. Após consultar um otorrinolaringologista e ser constatado uma obstrução nasal, ele foi encaminhado ao Hospital de Guarulhos, onde exames revelaram tumorações na cabeça, causadas por uma leucemia. Pedro ficou nove dias na UTI, enquanto a equipe médica investigava a origem da doença.
Posteriormente, ele foi transferido para o Hospital Salvalus, em São Paulo, onde o diagnóstico de Leucemia Mieloide Aguda (LMA) foi confirmado. O tratamento começou imediatamente, com quimioterapias intensivas.
Para Giovani, ver o filho doente despertou sentimentos profundos. “Senti tristeza por vê-lo debilitado e impotência por não conseguir mudar aquela situação diretamente. Mas aí entra a fé e a total confiança que tivemos em Deus, crendo que somente Ele mudaria a situação”, conta.
As fases mais difíceis
Pedro passou por inúmeras complicações. Parou de se alimentar e chegou a ficar até 22 horas sem conseguir ingerir nada. Passou a tomar morfina a cada duas horas e desenvolveu mucosite — uma condição que pode surgir durante o tratamento oncológico, afetando a mucosa oral e provocando feridas, úlceras, dor e dificuldade para falar.
Além disso, Pedrinho, como é carinhosamente apelidado pela família, apresentou também hipópio — uma condição em que glóbulos brancos se acumulam na parte frontal do olho. Esse último sinalizou que a doença, que havia sido controlada no primeiro ciclo, havia voltado. A leucemia voltou de forma agressiva, manifestando-se em outras partes do corpo.
“O começo foi bem assustador, pois tudo era uma novidade que não gostaríamos de viver. Vimos crianças nos quartos vizinhos falecerem durante o tratamento. Mas o que mais me marcou foram as inúmeras vezes que tentavam colher sangue e não achavam veias. Em uma ocasião, o Pedro foi furado mais de nove vezes”, relembra.
Em um dos momentos mais delicados, a família de Pedro ouviu dos médicos que ele poderia até ficar cego. Além disso, foi considerado um “mau respondedor” à quimioterapia. A alternativa mais viável seria o transplante de medula óssea, começando uma nova jornada em busca da cura.
Transplante: quando a esperança volta
Para contribuir com o processo, os pais e a irmã de Pedro fizeram testes de compatibilidade — mesmo com as chances entre familiares sendo baixas, eles não perderam a esperança. Em abril, ele entrou oficialmente na fila do REDOME (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea), enquanto recebia bolsas de sangue e plaquetas.
“Foram muitas dúvidas sobre como seria o processo, quem seria o doador, como iríamos encontrar. Mas a fé nos sustentava. Começamos a orar pelo doador antes mesmo de saber quem seria”, contou Giovani.
Após um período de espera, a resposta tão esperada veio durante uma consulta: o pai era compatível. “Na noite anterior, oramos pedindo para sair do consultório sabendo quem seria o doador. E foi o que aconteceu. Senti uma enorme gratidão a Deus, pois vejo isso como uma intervenção direta Dele sobre nossas vidas.”
Pedrinho no início do tratamento contra o câncer | Foto: Arquivo pessoal
A Dra. Patrícia Horn, chefe substituta do CEMO (Centro de Transplante de Medula Óssea), explica que, embora a compatibilidade total entre pais e filhos seja rara, avançadas técnicas de transplante haploidêntico possibilitam a realização do procedimento mesmo com 50% de compatibilidade.
“Quando um paciente necessita de um transplante de medula óssea, a primeira etapa é a busca por um doador compatível. Prioritariamente, os irmãos são testados, com cerca de 25% de chance de compatibilidade. Mas hoje é possível realizar transplantes com pais ou outros familiares parcialmente compatíveis, o que amplia as chances de tratamento dentro da própria família”, explica a médica.
Obstáculo no caminho
Antes do transplante, Pedro precisou colocar um cateter no peito – procedimento que permite aos médicos acessar as artérias e o coração com precisão, facilitando a identificação de obstruções ou outras alterações na circulação sanguínea. O que não se esperava era que, apenas 17 dias depois, ele desenvolvesse uma infecção hospitalar grave.
Com diagnóstico de bacteremia, o menino apresentou tremores e chegou a uma temperatura corporal de 34ºC. Foi necessário trocar o acesso às pressas. “Ver meu filho com um acesso pendurado no pescoço foi uma das imagens mais dolorosas que carrego”, diz o pai.
Pedro voltou para a UTI e permaneceu 55 dias com uma ferida aberta no peito, causada pela infecção no local do cateter.
Dengue muda os planos
O transplante estava agendado, e a família vivia a expectativa de, enfim, dar um passo decisivo rumo à cura. No entanto, mais uma vez, o imprevisto bateu à porta: Giovani contraiu dengue poucos dias antes do procedimento. O diagnóstico veio como um balde de água fria.
“Foi um momento de muita frustração. Estávamos tão perto e, de repente, tudo parou de novo”, lembra. Com a saúde comprometida, ele precisou adiar a doação, o que significava mais dias de espera, mais incerteza e mais angústia para todos.
A dengue exigiu repouso e acompanhamento médico. Só depois da recuperação completa é que Giovani pôde repetir todos os exames exigidos para garantir que estivesse apto e saudável o suficiente para doar.
“Eu só pensava no tempo. Cada dia era precioso. Saber que meu filho precisava da medula e que eu não podia doar naquele momento me deixou arrasado”, conta.
A pausa forçada no processo serviu como mais uma prova de resistência para a família, que já havia enfrentado tantas outras. A espera foi dura, mas, mais uma vez, a fé e a resiliência falaram mais alto.
Processo da doação e as dificuldades
Giovani, que não era cadastrado como doador de medula, foi testado exclusivamente para tentar ajudar o filho. “Infelizmente, não sabia quase nada a respeito. Só fazia doações de sangue de vez em quando”, admite.
Sobre o procedimento, ele garante que não foi difícil. “Fiz vários exames, a doação é super tranquila, você nem lembra de nada. O pós-operatório foi um pouco dolorido, mas nada demais. Totalmente suportável.”
Pedrinho recebeu a transfusão da médula pelo cateter, como se fosse infusão de sangue | Foto: Arquivo pessoal
A Dra. Danielli Oliveira, coordenadora do REDOME, detalhou como o processo é feito. “A coleta pode ser realizada de duas formas: por punção da medula, sob anestesia em centro cirúrgico, ou por aférese, que utiliza medicamentos para liberar células-tronco no sangue periférico. O tipo de coleta depende da avaliação médica. Em ambos os casos, o material é infundido no paciente como uma transfusão”, explica.
Finalmente, a doação
Enfim, em 17 de julho de 2024, a infusão foi realizada, e a tão esperada pega aconteceu duas semanas depois. A estimativa inicial era de 35 dias de internação, mas Pedro teve alta em 28.
Pai e filho durante o isolamento após a transfusão | Foto: Arquivo pessoal‘Pega’ da medula óssea aconteceu após 14 dias do transplante | Arquivo pessoal
Durante todo esse período, o isolamento foi necessário. Por orientação médica, apenas a mãe pôde acompanhar o filho de perto. Essa é uma medida para reduzir riscos e garantir a segurança do transplante. Giovani, mesmo sendo o doador, teve que lidar com a angústia da distância e confiar que tudo correria bem.
Hoje, Pedro, que já completou dois anos, está em fase de remissão da doença, quando não há mais sinais detectáveis do câncer no organismo, e segue em acompanhamento.
Pedro completou dois anos em fevereiro | Foto: Redes sociais Pedro completou dois anos em fevereiro | Foto: Redes sociais
“Ele está bem, ativo, brincando, como toda criança deve ser”, conta Giovani.
O que a ciência diz sobre a doença?
A leucemia é o tipo de câncer mais frequente na infância e na adolescência. Dentro desse grupo, a Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é mais rara do que a Linfoblástica Aguda (LLA), mas ainda assim corresponde a aproximadamente 15% a 20% das ocorrências.
Segundo o Registro Hospitalar de Câncer do INCA, estima-se que entre 300 e 400 crianças e adolescentes sejam diagnosticados com LMA a cada ano no Brasil. Embora seja um número relativamente baixo, a gravidade do quadro exige resposta rápida e tratamento especializado.
“O diagnóstico precoce e o acesso a centros com equipe multiprofissional especializada são fatores decisivos para o sucesso do tratamento”, explica a Dra. Patrícia Horn, chefe substituta do CEMO (Centro de Transplante de Medula Óssea).
Em situações emergenciais, como a de Pedro, a possibilidade de realizar um transplante com doadores parcialmente compatíveis — como os pais — representa um avanço importante da medicina. “Graças às técnicas modernas de transplante haploidêntico, mesmo quando não há 100% de compatibilidade, é possível realizar o procedimento com segurança e bons resultados”, completa a médica.
Como doar?
De acordo com o Hemosul, pessoas entre 18 e 35 anos, que estejam com boa saúde, podem doar medula óssea. São retirados 5 ml de sangue, como em um exame de laboratório, e o doador é cadastrado no REDOME (Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea) do INCA (Instituto Nacional do Câncer). Seus dados genéticos são cruzados com os dos pacientes que precisam da medula. Se houver compatibilidade genética através do exame HLA, a doação pode ser realizada.
Para aqueles que já foram doadores de medula óssea, é importante atualizar os dados no site do REDOME para garantir que o cadastro esteja acessível caso surja um paciente compatível.
“O Pedro é um milagre”
Para Giovani, a experiência é indizível. “Sou professor e sempre incentivei a saúde como hábito de vida. Só pude ser doador porque mantive meu corpo bem. Isso mostrou que nossas escolhas impactam diretamente o outro. Nesse caso, foi a vida do meu filho.”
Ao pensar no futuro, ele imagina contar tudo a Pedro com orgulho. “Quero que ele saiba que Deus nos escolheu para viver um milagre. Ele é a prova viva do poder e do amor de Jesus.”
A mãe de Pedro, que acompanhou cada etapa da luta ao lado do marido, também se transformou durante o processo. “Eu sou uma pessoa antes desse processo e outra depois. A fé fez toda a diferença. Em nenhum momento deixei de acreditar que Deus ia nos dar esse milagre”, afirma, emocionada.
Ela também faz um pedido às famílias que enfrentam desafios semelhantes. “Não percam a fé. Na medicina, só depois de cinco anos podemos falar em cura, mas para mim, ele já está curado. E eu faço um pedido: que as pessoas se tornem doadoras de medula óssea e sangue. É um ato de generosidade que salva vidas.”
Para ela, Giovani foi um verdadeiro exemplo de paternidade. “Ele é o melhor pai que o Pedro poderia ter. Não pensou duas vezes. Salvou a vida do nosso filho.”
Pai e mãe do Pedrinho | Foto: Reprodução/Redes sociais
E sobre ser pai?
“Ser pai é entregar qualquer parte de si para ver o filho bem. A gente não mede esforços. E é nesse amor que começamos a entender, mesmo que só um pouco, o que é o amor de Deus por nós”, destaca.
O Dia dos Pais, para Giovani, ganhou um novo significado. Agora, muito mais especial.
“É uma data muito especial, que me traz à memória uma das maiores contribuições que pude dar para a vida do meu filho como pai.”
Dia dos Pais ganhou um novo significado | Foto: Arquivo pessoalDia dos Pais ganhou um novo significado | Foto: Arquivo pessoal
Nota da redação:Enquanto esta matéria era finalizada, a reportagem recebeu outra notícia, desta vez de despedida. Marcelo Ferreira Perry da Camara, avô do pequeno Pedro, faleceu nesta última sexta-feira (8).
Marcelo não apenas acompanhou cada passo da recuperação do Pedrinho, mas vibrou, se emocionou e fez da vitória do menino um presente para o próprio coração. Foram sorrisos, abraços e histórias que agora permanecem como um tesouro para a família.
Neste Dia dos Pais, em que a paternidade é celebrada em todas as suas formas, O Diário presta também sua homenagem a Marcelo, que foi pai, avô e presença marcante no caminho do neto.