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Cultura

Inezita Barroso: pioneira da música caipira que deixou parte de seu legado em Mogi das Cruzes

Especial do Dia Internacional das Mulheres traz a história da artista que ajudou a disseminar a cultura caipira em Mogi das Cruzes e transformar o cenário sertanejo no Brasil

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Reportagem de: Victoria Freitas

Há cento e um anos, neste mesmo mês, nascia uma das figuras mais emblemáticas da música e da cultura popular brasileira, cantora, pesquisadora, apresentadora, professora e atriz, Inezita foi um marco de resistência e preservação da cultura caipira.

Neste material especial do Dia Internacional das Mulheres, celebramos essa artista cuja obra segue viva nos palcos, rodas de viola e no coração de quem a escuta pela primeira ou centésima vez.

Nascida em 4 de março de 1925, Inezita, nome artístico que Ignez Magdalena Aranha de Lima carregava, construiu uma trajetória cheia de paixão pelo universo caipira que ela ajudou a preservar, valorizar e difundir ao longo de décadas, em palcos, rádios, televisões e salas de aula. Formada em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo, começou no rádio nos anos 1950 e logo se destacou por unir pesquisa folclórica à interpretação musical.

Atuou também no cinema, em filmes como Ângela (1950) e Mulher de Verdade (1953) e gravou mais de 80 discos que exploraram ritmos regionais, do sertanejo raiz ao maracatu. Assim, tornou-se símbolo da música raiz, foi intérprete de clássicos como “Marvada Pinga”, “Lampião de Gás”, “Moda da Pinga” e outras canções que fazem parte de histórias pelo interior do Brasil.

Em sua dedicação à pesquisa folclórica e à valorização das tradições regionais do país, sua contribuição como professora também merece destaque: por dez anos, Inezita foi professora na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), onde compartilhou com alunos e colegas o seu conhecimento sobre cultura popular e música brasileira, lecionando na disciplina “Folclore Brasileiro e História da Música Popular Brasileira”.

“Somente a presença dela já tornava esses momentos prazerosos. Seu jeitinho de falar acaipirado, sua presença marcante de mulher forte, sua voz encantadora. Certamente, sempre nos ensinou muito mais do que aquilo que estava proposto. Todas as aulas foram momentos especiais, ela cantava… nossa como marcou para mim, me emociono até de lembrar. Nas aulas, não era somente a professora, era a cantora, a atriz, a instrumentista, a pesquisadora e defensora da cultura popular. Essas aulas foram verdadeiras vivências para mim, marcantes e transformadoras. Sempre tive muito orgulho de ter como professora alguém tão especial e importante para a nossa cultura. Ela me mostrou um novo olhar para o lado cultural, com mais amor e sensibilidade, além de ser um grande exemplo de mulher”. Nos conta Célia Martinez, que foi aluna de Inezita no curso de Educação Artística, licenciatura plena em Artes Plásticas, no ano de 1989.

Em 1980, Inezita assumiu o comando do programa “Viola, Minha Viola”, na TV Cultura, trabalho que se tornou um marco em sua carreira. No ar por mais de 30 anos, Inezita recebeu artistas das novas e velhas gerações da música caipira. A frente do programa, em uma época em que o universo da música sertaneja era quase todo dominado por duplas e vozes masculinas, Inezita abriu portas para que outras mulheres também pudessem ocupar lugares de destaque na música caipira, sua trajetória inspirou diversas outras figuras femininas que vieram depois. Ela precisou se ausentar do programa no final de 2014, por questões relacionadas à sua saúde.

Foto: Cedoc TV Cultura

Inezita Barroso faleceu em 8 de março de 2015, aos 90 anos, em São Paulo, em decorrência de insuficiência respiratória.

Ignez Magdalena além dos palcos: ‘tudo o que ela fazia, ela fazia com uma paixão visível’, diz neta da artista

Paula Leme, neta da artista compartilha com O Diário algumas lembranças sobre a avó e sua personalidade além dos palcos e programas de televisão. “Ela era uma pessoa muito bem humorada, muito tranquila. No fim de sua vida, ela frequentava muito a casa dos meus pais, todo domingo tinha pizza, ela estava sempre lá. Quando eu era menor, ela vivia realmente mais em shows e não foi tão presente, mas depois ela frequentava a casa semanalmente, ela curtia muito a família”, relembra.

Ignez deixou um legado para todo Brasil, preservando e disseminando cultura e incentivando potências femininas em diferentes cenários. “É um orgulho imenso ter ela na nossa linhagem, abrindo o caminho para todas as mulheres do Brasil, mas especialmente pra nós, que somos as netas e a filha. Convivemos com ela a vida toda, ela se nutria do trabalho, dos fãs… tudo o que ela fazia, ela fazia com uma paixão visível e eu acho que esse é o legado mais forte que ela deixa”.

Segundo a família, seu talento não era apenas com a voz ou a pesquisa, no tempo livre, Ignez se dedicava à habilidades manuais como culinária, bordado, costura e até cerâmica. Além disso, ela valorizava a leitura e aproveitava viagens para conhecer culturas, pessoas e coisas novas.

Paula Leme ainda fala sobre como sua avó foi pioneira não só na música, mas também na coragem, considerando que sua época limitava o comportamento das mulheres.

“Ela quebrou todos os parâmetros da época dela, tudo o que não era permitido fazer, digamos assim, ela fazia. Ela agia dessa forma não como uma afronta, mas sim porque ela acreditava naquilo que ela fazia, ela acreditava que era possível por mais que todas as pessoas falassem que não era. Ela falava não era possível até hoje, a partir de agora isso existe e eu vou fazer e mostrar para todo mundo que isso é possível’, ela agia de acordo com o coração dela e naquela época isso não era nem um pouco comum. Talvez as futuras gerações não possam ter a dimensão do pioneirismo que ela foi na época dela, mas vale estudar sobre a história dela. Com certeza absoluta ela deixa uma marca que é só dela na música brasileira”, reforça a neta da artista.

Após sua morte, coincidentemente no Dia Internacional da Mulher, sua trajetória passou a inspirar prêmios e exposições, como o Prêmio Inezita Barroso, criado pela Assembleia Legislativa e pela Câmara Municipal de São Paulo.

Em 2025, em homenagem ao centenário de nascimento da artista, o Sesc Mogi das Cruzes ofereceu programações especiais que celebraram sua musica e sua história com rodas de viola, oficinas criativas, experiências gastronômicas, exposição das capas de seus discos, apresentações artísticas e outras atividades imersivas. Além de receber figuras ilustres que tiveram o privilégio de conhecer e conviver com Inezita.

Foto: Divulgação Sesc