Diário Logo

Encontre o que você procura!

Digite o que procura e explore entre todas nossas notícias.

DOC Diário

No Dia da Mulher, doula de Mogi das Cruzes que participou de 50 gestações fala sobre apoios às mães

Esther Marcondes trabalha há 10 anos no apoio às mulheres durante a gravidez, o parto e o pós-parto e destaca a importância do protagonismo feminino no processo

Image

Esther Marcondes acompanha parto | Aline Oliveira

Reportagem de: Fábio Pereira

Há uma década acompanhando gestantes em Mogi das Cruzes, a doula Esther Marcondes explica como funciona o trabalho de apoio às mulheres durante a gravidez, o parto e o pós-parto. No Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), ela ressalta a importância da informação e do suporte emocional para que a gestante “seja a protagonista desse momento”. Ao longo deste período, Marcondes conta que acompanhou mais de 50 gestações.

A formação, segundo Esther, une estudos científicos à tradição e à oralidade dos ensinamentos obtidos, inicialmente, com parteiras obstetrizes. “Foram dois meses [de aulas], um curso extenso, realizado aos sábados e domingos”, destaca. Ela também é artista e professora de dança.

“Muitas amigas em volta falavam que eu tinha essa vocação [para ser doula]. Eu dizia: ‘Não. Jamais vou querer ser doula’. Estou fazendo um trabalho artístico, terapêutico, de cuidado”, conta.

“Meu papel é ajudar a mulher a entender o corpo fisiológico, que é onde a ciência também entra, porque a gente olha para a gestação como olhamos para o ciclo feminino. Nos três primeiros meses, ela vai nutrir, o corpo dela vai entender [a gravidez]. O corpo mental, inclusive, influencia no desencadear dos hormônios físicos”, afirma.

“No segundo trimestre, é, de fato, o momento em que o bebê está se formando. É nesta fase que muitas mulheres começam a assimilar a gestação. Já nos últimos três meses, o corpo da mulher começa a se preparar para entender que o ser que ela carrega está pronto para nascer”, complementa Esther.

A profissional destaca que, na maioria das vezes, é procurada por mulheres na fase inicial da gestação. O trabalho abrange, ainda, a educação perinatal, responsável por levar informações relacionadas ao parto, ao pós-parto e, também, como ela pode ser a protagonista destes momentos.

Esther Marcondes, mãe e bebê pós-parto | Letícia Galo
Esther Marcondes, mãe e bebê pós-parto | Aline Oliveira

Lei em Mogi das Cruzes 

Sobre a recepção das equipes médicas que atuam durante a concepção do parto, Esther destaca que a doula faz parte de um processo multidisciplinar.

“Eu não vou substituir a enfermeira obstetra ou obstetriz, e nem mesmo a obstetra, mas serei uma pessoa de livre escolha da mulher, que conhece a família e que será, sobretudo, suporte físico-emocional. Muitas vezes, a doula é quem vai ser o elo entre a gestante e a equipe médica”, conta.

Esther Marcondes orienta mãe antes do parto | Letícia Galo
Esther Marcondes orienta mãe antes do parto | Aline Oliveira

A doula não realiza procedimentos médicos ou clínicos e não substitui profissionais de saúde, como médicos obstetras, enfermeiras obstétricas ou obstetrizes. Sua atuação é voltada ao suporte físico, emocional e informativo à gestante antes, durante e após o parto. 

Esther afirma, no entanto, que, muitas vezes, a recepção não é positiva. 

“Nós, [as doulas], somos vistas como ‘pessoas que estão monitorando’ o parto como uma forma de segurança à gestante. Algumas maternidades estão se preparando para receber as doulas corretamente. O que eu entendo que falta é o entendimento do profissional que vai estar no mesmo ambiente da doula. Do mesmo jeito que eu acolho e cuido da mulher e da família, procuro manter um ambiente harmonioso”, ressalta.

A participação do pai

A doula afirma que, no processo de gestação, o homem deve estar preparado para entender o que acontece fisiologicamente com o corpo feminino.

“Desde a fase educação perinatal, eu falo que é imprescindível a participação dos companheiros para que eles entendam o que cada corpo pode vir a manifestar no momento do parto”. 

Fora isso, Esther explica que, na maioria das vezes, quando os homens são os acompanhantes, acabam sendo também os responsáveis por ajudar a garantir que as decisões da gestante sejam respeitadas.

Segundo ela, é importante que eles conheçam previamente o chamado “plano de parto“, documento apresentado à maternidade em que a mulher registra suas preferências para o trabalho de parto, o parto e o pós-nascimento do bebê.

Momento pós-parto | Lethicia Galo
Momento pós-parto | Lethicia Galo

“É importante que eles saibam o que foi definido para o plano de parto, que é um documento que a mulher apresenta para a maternidade e que a respalde”, comenta Esther. 

De acordo com Esther, o documento deveria estar disponível para a equipe responsável pelo atendimento. 

“É um documento que normalmente é entregue para a maternidade e que deveria estar nas mãos dos obstetras e dos enfermeiros que vão atender essa mulher, para que eles possam olhar e entender que aquela mulher tem uma individualidade e que aquilo que está ali prescrito diz respeito ao que ela deseja que seja feito ou não durante o trabalho de parto, o parto e o pós-nascimento do bebê”, diz.

A doula também recomenda que o plano de parto seja elaborado em conjunto pelo casal, como forma de alinhar expectativas e decisões. 

“Normalmente, eu aconselho que esse documento seja feito junto com o pai. Eu falo: ‘Olha, peguem qualquer hora, tomem um café juntos, vão discutir o que tem mais a ver com a realidade de vocês’”, relata.

Nesse processo, segundo ela, o preenchimento do documento acontece de forma conjunta. 

“Vocês vão preencher e definir juntos. Porque muitas vezes, na hora do parto, é interessante que a mulher esteja resguardada e em um ambiente em que não se sinta pressionada”, explica.

Esther afirma que, em algumas situações, o acompanhante acaba sendo quem fala em nome da gestante. Para a doula, o papel do acompanhante também envolve proteger esse momento da mulher. 

“Nesse sentido, ele acaba sendo uma segurança. Eu sempre falo para o pai que ele funciona como se fosse um escudo, para ajudar a resguardar esse momento”, conclui.

Experiências

Jamile Santana conta que decidiu buscar o acompanhamento de uma doula após a experiência do primeiro parto. Segundo ela, naquele momento acabou sendo conduzida a uma cesárea enquanto ainda enfrentava as dores do trabalho de parto. 

“Você fica naquele momento ali muito vulnerável, porque tá acontecendo, com a dor do trabalho de parto, você fica muito vulnerável. Acaba fazendo o que o médico recomenda”, relata.

Por causa dessa experiência, ela afirma que decidiu procurar um suporte diferente durante a segunda gestação. A intenção era tentar um parto normal, com acompanhamento profissional mais próximo

“Eu falei: ‘Não, no segundo bebê eu quero ter acompanhamento’. Aí eu tive um acompanhamento de doula e de uma enfermeira, porque a minha intenção era conseguir fazer o parto normal”, explica.

Apesar da preparação, Jamile conta que novamente precisou passar por uma cesárea. Ainda assim, avalia que a presença da doula fez diferença durante o processo.

“Também fui induzida a um parto cesárea no hospital, dentro da rede pública, hospital particular. Mas pelo menos eu estava ali com a profissional que, durante a gestação, trabalhou mais detalhadamente comigo como seria o trabalho de parto”, afirma.

Para ela, esse tipo de orientação não costuma acontecer nas consultas tradicionais de pré-natal. Jamile destaca que, tanto no sistema público quanto no privado, as consultas costumam ser rápidas.

“Nenhum médico explica o que realmente vai acontecer com o seu corpo. As consultas são sempre muito rápidas”, diz. Segundo a jornalista, a doula oferece justamente esse espaço de diálogo e preparação.

Ela explica que procurou Esther Marcondes logo no início da gravidez. “Assim que eu soube que eu estava grávida, eu conversei com ela”, lembra. De acordo com Jamile, o acompanhamento costuma começar na metade da gestação, período em que a relação entre a gestante e a doula também começa a se fortalecer. 

“Você cria um elo com a doula. Ela vai na sua casa várias vezes, conversa com a sua família, prepara um ambiente”, diz.

Esther e Jamile Santana | Letícia Galo
Esther e Jamile Santana | Arquivo Pessoal

Antes da gravidez, Jamile afirma que sabia da existência da profissão, mas não conhecia exatamente o papel de uma doula. “Sabia que existia, mas não tinha ideia do que uma doula fazia e do que ela também não faz”, conta. Ao longo da gestação, ela passou a entender melhor a função da profissional. “A doula não é parteira necessariamente. A doula é uma coisa, a parteira é outra”, explica.

Ao final da experiência, Jamile afirma que passou a recomendar o acompanhamento para outras gestantes. “Foi incrível, porque a doula acaba sendo um apoio muito grande para a mãe. Para todas as minhas amigas que engravidaram depois de mim, eu falo: ‘Se puder, contrate uma doula”, conclui.

Jamile Santana e Esther Marcondes após o nascimento de Símon | Arquivo Pessoal
Jamile Santana e Esther Marcondes após o nascimento de Símon | Arquivo Pessoal