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Descubra como ter uma vida realmente saudável

Por meia hora, toda manhã, Rita Tedesco Parise se alonga e pratica os exercícios indicados em uma revista com páginas amareladas pelo tempo. Após comer frutas da estação com mel, dirige até o comércio de porcelanas onde trabalha, a poucas quadras da sua casa. À tarde, bolo e café com leite bem adoçado não podem […]

8 de julho de 2024

Reportagem de: Edicase Conteúdo

Por meia hora, toda manhã, Rita Tedesco Parise se alonga e pratica os exercícios indicados em uma revista com páginas amareladas pelo tempo. Após comer frutas da estação com mel, dirige até o comércio de porcelanas onde trabalha, a poucas quadras da sua casa. À tarde, bolo e café com leite bem adoçado não podem faltar. Ela dorme cedo e acorda no meio da noite para ir ao banheiro e beliscar um doce antes de voltar à cama.

Aos 88 anos, Rita não tem nenhuma doença crônica e faz exames médicos a cada dois anos. Ela mora em Veranópolis (RS), conhecida como “terra da longevidade”. Sua rotina é bastante ativa, mas, alguns itens, como assaltar a geladeira de madrugada, nunca ter pisado em uma academia e adorar açúcar, podem deixar muita gente que persegue uma vida saudável de cabelo em pé.

Distantes da tão almejada saúde

Receitas sobre como ter saúde estão por todo canto. Brotam nas mídias mitos sobre o corpo perfeito, dietas milagrosas, superalimentos e suplementos mágicos. Em meio a esse turbilhão de informações, algumas delas contraditórias entre si, não é de se espantar que nos sintamos confusos, culpados e cada vez mais distantes da tão almejada saúde. Em meio a tantas fórmulas sobre a rotina impecável, como descobrir o que é essencial em nossa busca por bem-estar? E como torná-la mais leve?

Para responder a essas questões, primeiro, precisamos ter claro o que é ser saudável. Na definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), ter saúde é mais do que não estar doente: engloba bem-estar físico, mental e social.

“Uma pessoa saudável é capaz de manejar de forma minimamente efetiva o estresse, mantém conexões sociais enriquecedoras, participa de sua comunidade e alcança equilíbrio entre as diversas esferas da vida, como trabalho, lazer e autocuidado”, resume a médica Simone Nascimento Souza, conselheira do Movimento Mente em Foco, iniciativa do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil.

Alegria e sociabilidade fazem parte da longevidade

Bons relacionamentos, por sinal, são mais valiosos do que comprimidos. “Por isso, escreva, ligue, bata na porta. Sorria, abrace, ofereça companhia”, recomenda ela. O estudo sobre o Desenvolvimento Adulto, projeto de mais de 80 anos da Universidade de Harvard, concluiu que as pessoas mais contentes com suas relações aos 50 anos se tornaram os idosos mais saudáveis aos 80, enquanto os solitários morriam antes. “Quando uma pessoa cuida dos seus relacionamentos, também está cuidando de si mesma”, concluiu Robert Waldinger, diretor da pesquisa. Segundo ele, a solidão é tão prejudicial quanto o álcool e o tabaco.

A alegria e a sociabilidade fazem parte da longevidade de Rita, que adora encontrar amigos, almoçar em família e cantar no coral da igreja. “Sempre fui muito festeira! Brinco que gosto de ver o dente dos outros: sempre faço alguma piada para descontrair”, diverte-se.

Quando a tristeza a visita, ela toma um bom banho e arruma a casa. Não demora para que o sentimento perceba que a sua presença já não é bem-vinda. “A gente não pode se concentrar na dor, tem que deixá-la ir embora. O que foi bom, vamos levar adiante, o que foi ruim, cabe aceitar, superar e seguir”.

Mulher com os braços abertos, olhando pra cima de olhos fechados em meio as árvores
Nós também somos parte da natureza (Imagem: simona pilolla 2 | Shutterstock)

Em contato com as raízes

Além da sabedoria acumulada, alguns anciãos são repositórios de conhecimento sobre os ciclos da natureza e como fluir com eles. “É importante olhar para as práticas tradicionais das nossas avós e de culturas antigas”, confirma o médico José Ruguê Ribeiro Junior, professor e terapeuta de ayurveda, medicina tradicional indiana. “Como viviam em maior sintonia com a natureza, eles compreendem melhor suas leis e o efeito delas sobre nós”.

Ruguê explica que o ayurveda, traduzido como “ciência da vida”, possui diretrizes intuitivas que embasam muitos dos saberes tradicionais sobre saúde. “Nosso organismo é um sistema aberto conectado diretamente com a natureza”, reflete.

Se está frio, essa ciência recomenda consumir alimentos cozidos e quentes. No calor, a prioridade são comidas leves e frescas. Alimentos gordurosos ajudam a lubrificar nossos órgãos no clima seco. Frutas e legumes da estação e do local onde vivemos também devem ser priorizados.

Ao meio-dia, quando o Sol está no ponto mais alto no céu, é também quando o nosso fogo digestivo, o agni, atinge sua máxima potência, indicando o almoço como a refeição mais reforçada. “Devemos seguir os princípios da vida, sem tentar dominar a natureza, apenas nos harmonizando com ela”, diz.

Volte a atenção para a natureza interior

Para isso, a recomendação é observar o meio ambiente e se alinhar, inclusive no aspecto emocional. Se as folhas estão caindo e o clima começa a esfriar no outono, o mais lógico é pegar leve, reduzindo o excesso de atividades e se aquecendo no calor das relações íntimas.

Voltar a atenção para a nossa natureza interior é uma das recomendações mais importantes da medicina ancestral indiana. Isso inclui identificar padrões negativos, ou seja, aqueles que nos levam ao sofrimento, e os positivos, talentos e qualidades que promovem o nosso bem-estar.

Devemos desenvolver e expor ao mundo os positivos. Já os negativos exigem um olhar atento e honesto para serem transformados. “Não basta colocar verniz ou terceirizar a responsabilidade. Isso dificilmente traz algum benefício de transformação”, diz o Dr. Ruguê.

Um caminho autêntico

Uma rotina saudável pode ser resumida em alimentação rica em frutas, verduras, proteínas magras e grãos integrais, boa hidratação, exercício físico regular, tempo equilibrado entre sono, lazer e trabalho, evitar tabaco, consumo excessivo de álcool e alimentos ultraprocessados, manter relações sociais satisfatórias, observar a natureza, o corpo e as emoções, e buscar conexão espiritual. Cada um sabe o que faz ponte com o divino.

Entre os sinais de boa saúde estão energia e vitalidade, pele hidratada e com elasticidade, um sistema imunológico que consiga combater infecções mais habituais, peso adequado à estrutura corporal (o que não significa necessariamente ter um corpo magro), boa digestão, sentir-se bem na maior parte do tempo, ter boa capacidade de concentração e memória, exames de rotina com resultados adequados e sono reparador.

“O conhecimento atual nos traz bons caminhos para manter a saúde equilibrada, mas não deve ser encarado como um manual de instruções”, pondera Ana Lúcia Coradazzi, coautora do livro Slow Medicine: Sem Pressa Para Cuidar Bem (MG Editores), movimento médico cuja ideia é que as pessoas construam uma estratégia de cuidados efetiva, viável e que faça sentido para elas.

“Decretou-se que uma pessoa saudável é necessariamente magra, atlética, cheia de energia e com todos os seus check ups médicos em dia”, aponta. “Excluímos, assim, a possibilidade de saúde para quase todos nós. Isso é cruel”.

Saber quais itens priorizar é algo subjetivo, considerando a variação do que faz bem para cada um, e coletivo, já que envolve condições socioeconômicas e genéticas distintas. Para começar uma busca mais autêntica por saúde, a médica sugere fazer-se os seguintes questionamentos: Quais são minhas prioridades? O que me faz sentir felicidade e plenitude? Quanto de saúde eu preciso para conseguir isso? O modelo que estão me propondo vai ajudar a atingir minhas metas?

Dois homens e duas mulheres correndo em parque
Ajuste os hábitos de vida saudáveis à sua rotina (Imagem: Ground Picture | Shutterstock)

Faça ajustes

“O ser humano é sonhador. Ele imagina que, quando surgir algum problema de saúde, um profissional onipotente ou uma pílula mágica vão resolver tudo, mas, aqui, nós devolvemos a responsabilidade para ele”, diz o Dr. Luís Carlos Silveira, que aplica a medicina do estilo de vida no spa Kurotel.

Segundo ele, a maior parte da longevidade (53%) se deve ao estilo de vida, enquanto 20% depende do meio ambiente e 17%, da genética. Apenas 10% é composto por assistência médica. Buscar ajuda profissional quando necessário é vital, mas não podemos esquecer que, na maior parte do tempo, a qualidade da saúde está em nossas mãos. Por isso, é preciso tomar decisões conscientes e embasadas, priorizando fontes confiáveis e filtrando escolhas de acordo com as nossas necessidades, valores e circunstâncias.

Outra prática importante é a flexibilidade. A geriatra e nutróloga Natalia Barbato nos lembra que a saúde pode entrar de formas simples no nosso dia a dia quando os recursos financeiros e de tempo estão escassos. É possível garantir o exercício físico em uma caminhada até o trabalho ou preferindo escadas em vez do elevador, por exemplo.

Além disso, podemos testar abordagens de saúde diversas, observando como o corpo, a mente e as emoções respondem, e fazendo os ajustes necessários. Se o corpo reclama de fadiga e cansaço, é hora de diminuir a carga de exercícios. Se um alimento não caiu bem, evite. Deslizou na dieta? Não se cobre tanto. A culpa e o autojulgamento são ingredientes mais indigestos do que o alimento em si.

Saudáveis preocupados

Levar a rotina de saúde a ferro e fogo pode fazer com que saiamos piores do que entramos. O termo “worried well” (ou “saudáveis preocupados”) é utilizado para descrever pessoas que, apesar de saudáveis, perseguem uma “supersaúde” visando não adoecer. “A busca constante pelo ideal de saúde perfeita pode nos tornar obsessivos e críticos em relação ao nosso corpo, alimentação e estilo de vida, resultando em distúrbios alimentares e isolamento social”, aponta o Dr. Luís.

A melhor escolha é a moderação, ou seja, não se privar completamente de certos alimentos e desfrutar de pequenos prazeres, desde que isso não comprometa significativamente a saúde a longo prazo. Um olhar compassivo e respeitoso para o nosso corpo em seu estado atual também é essencial. Isso vale, inclusive, para quando adoecemos.

“Nosso corpo é um sistema complexo e dinâmico, que está constantemente se adaptando e respondendo a estímulos internos e externos”, explica o médico, ressaltando que adoecer ocasionalmente é uma parte natural desse processo e pode até mesmo fortalecer o sistema imunológico, tornando-o mais resiliente com o passar dos anos. Portanto, medo, vergonha e culpa pouco ajudam nessa hora.

Limites firmes

Lidar com estresse e frustração é um dos desafios que mais podem afetar a saúde, de acordo com os especialistas. Eles recomendam hobbies, atividades ao ar livre e práticas de meditação e mindfulness para ampliar o bem-estar, a conexão interior, a consciência e a gratidão – aspectos que nos fortalecem para responder às inevitáveis oscilações da vida. Cultivar metas e objetivos que contribuam a um propósito maior também ajuda, assim como saber a hora de dizer não a atividades e compromissos.

Em nossa sociedade, com toda a sua velocidade, exigência de alta performance e condições socioeconômicas desiguais, parece faltar espaço, tempo e oportunidades para os cuidados básicos com a saúde. Muitas vezes, é considerado “normal” perder refeições ou o sono para dar conta de compromissos. Mas tal estratégia não deveria se prolongar no tempo.

É importante não se perder do que realmente nos nutre; afinal, sem saúde é impossível dar conta de todo o resto, não é mesmo? Aliás, essa questão afeta a saúde coletiva, que envolve acesso a direitos como educação, moradia, saneamento, respeito à diversidade e inclusão.

Perseguindo padrões irreais, parte da população tem chegado ao esgotamento, o que impacta no sistema de saúde e na produtividade das empresas. “Pessoas bem cuidadas e que têm seus limites respeitados entregam melhores resultados em menos tempo”, lembra a Dra. Simone.

Quando deixamos claros nossos limites, as pessoas aprendem aos poucos a respeitá-los, orienta a Dra. Ana Lúcia. “Talvez percamos algumas ‘oportunidades’ profissionais ou sociais por priorizarmos escolhas que nos fazem bem, mas, no fim das contas, não estamos perdendo nada. Estamos escolhendo por nós”, diz.

Para ela, a saúde deve ser encarada como um meio, e não um fim. “É para desfrutar dos encantos da vida por mais tempo que cuidamos da nossa saúde. Afinal, numa existência que se entende como incerta e finita, cada momento é um mundo”. Que o diga a octogenária Rita, especialista em encontrar motivos para rir bem acompanhada.

Por Martina Medina – revista Vida Simples

É jornalista e pratica ayurveda há sete anos. Priorizar a saúde já a levou a mudanças de cidade, trabalho, hábitos e relações.

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