Entenda como o fluxo intestinal e a conduta alimentar influenciam a saúde mental
Segundo o inquérito Covitel 2023, do Observatório da Saúde Pública da Umane, 26,8% da população brasileira é afetada pela ansiedade. Para o nutricionista Danilo Macena, parte da resposta para esse cenário pode estar em um órgão pouco associado à saúde mental: o intestino. É dali que parte o chamado eixo intestino-cérebro, sistema de comunicação constante […]
14/08/2026 12h02, Atualizado há 1 hora
Segundo o inquérito Covitel 2023, do Observatório da Saúde Pública da Umane, 26,8% da população brasileira é afetada pela ansiedade. Para o nutricionista Danilo Macena, parte da resposta para esse cenário pode estar em um órgão pouco associado à saúde mental: o intestino. É dali que parte o chamado eixo intestino-cérebro, sistema de comunicação constante entre o órgão e o sistema nervoso central que, de acordo com o especialista, tem papel relevante, embora não isolado, na forma como o corpo regula humor, ansiedade e bem-estar emocional.
“O eixo intestino-cérebro é uma comunicação que acontece de forma constante entre os órgãos. Essa conversa acontece por meio do nervo vago, do sistema imunológico e de hormônios e substâncias produzidas pela microbiota intestinal”, explica.
Um intestino saudável, conforme Danilo Macena, ajuda a controlar inflamações e participa da produção de neurotransmissores ligados ao equilíbrio emocional. Já um intestino inflamado, com a microbiota desequilibrada, está associado a maior ansiedade, depressão e alterações de humor. Isso ganha relevância em um país que, segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), tem a maior prevalência de depressão da América Latina, com 12,7% da população convivendo com o transtorno.
O que comer e o que evitar?
Para o nutricionista, porém, um erro comum é demonizar um único alimento. “Nenhum alimento pode causar uma ansiedade sozinho. Mas existem alguns padrões alimentares que podem favorecer isso, como o consumo excessivo e frequente de ultraprocessados, açúcar, doces, fast food, bebidas alcoólicas e grandes quantidades de cafeína em pessoas mais sensíveis”, afirma Danilo Macena.
Esses alimentos aumentam a inflamação intestinal, provocam picos e quedas rápidas de glicemia e alteram o equilíbrio da microbiota, favorecendo bactérias maléficas em detrimento das benéficas, fator muito associado a uma piora no controle do humor.
Do lado oposto, uma alimentação variada e rica em alimentos naturais pode contribuir positivamente, como peixes ricos em ômega 3 (salmão, sardinha), frutas, verduras, leguminosas, oleaginosas, iogurtes fermentados com lactobacilos e cereais integrais. “Esses alimentos fornecem vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes importantes para o cérebro e para a microbiota intestinal. Não existe um superalimento da felicidade, e sim uma alimentação consistente e equilibrada”, pontua.
Fome emocional
Danilo Macena também chama atenção para a chamada fome emocional, ou seja, o uso da comida para aliviar ansiedade, tristeza, estresse ou frustração. Segundo ele, uma dieta pobre em proteínas e fibras pode aumentar a vontade de consumir doces, mas sono ruim e estresse crônico também são fatores determinantes.
Em consultório, o nutricionista avalia em conjunto oscilação de humor, qualidade do sono, nível de ansiedade e funcionamento intestinal. “Quando esses fatores aparecem juntos, frequentemente encontramos uma alimentação desorganizada, contribuindo para um quadro emocional mais grave, e o paciente normalmente não percebe essa relação”, diz.

Mitos sobre alimentação e saúde mental
O especialista faz questão de desmentir crenças populares recorrentes em nas redes sociais e no consultório, como a ideia de que um único alimento aumenta a serotonina o suficiente para tratar ansiedade ou depressão, de que chocolate “cura” depressão, de que banana eleva significativamente a serotonina, ou de que suplementos e soroterapia substituem tratamento médico.
“Nenhum alimento ou suplemento sozinho resolve um transtorno mental. A alimentação é uma ferramenta importante, mas faz parte de um tratamento muito mais amplo”, reforça.
A ressalva ganha peso diante dos números: segundo a OMS, depressão e ansiedade juntas custam cerca de US$ 1 trilhão por ano à economia global, e os transtornos mentais já são a segunda maior causa de incapacidade de longo prazo no mundo. Para quadros diagnosticados, Danilo Macena defende o tratamento multidisciplinar, com nutricionista, psicólogo e, quando necessário, psiquiatra atuando de forma complementar.
Hábitos que favorecem o bem-estar
Para quem quer começar a agir hoje, o nutricionista resume a orientação em três pilares: comer comida de verdade na maioria das refeições, incluir boas fontes de proteína magra em todas as refeições e reduzir drasticamente ultraprocessados e bebidas açucaradas.
“Se a pessoa também melhora o sono e pratica exercício físico, é comum perceber mais disposição e estabilidade de humor já em poucas semanas. A saúde mental não depende de um único alimento, ela é construída diariamente por um conjunto de hábitos saudáveis”, conclui Danilo Macena.
Por Enzo Tres