Inteligência artificial no Direito: 5 formas de tornar o trabalho jurídico mais eficiente
A inteligência artificial começa a mudar não apenas a forma como advogados pesquisam e escrevem, mas também a maneira como o próprio trabalho jurídico pode ser organizado. Sistemas especializados já são capazes de monitorar processos, ler decisões, classificar movimentações, organizar precedentes e preparar minutas para revisão profissional, automatizando etapas que antes dependiam de sucessivas tarefas […]
25/08/2026 19h02, Atualizado há 0 horas
A inteligência artificial começa a mudar não apenas a forma como advogados pesquisam e escrevem, mas também a maneira como o próprio trabalho jurídico pode ser organizado. Sistemas especializados já são capazes de monitorar processos, ler decisões, classificar movimentações, organizar precedentes e preparar minutas para revisão profissional, automatizando etapas que antes dependiam de sucessivas tarefas manuais.
No contencioso, essa capacidade ganha relevância diante do volume de processos, decisões e informações que precisam ser acompanhadas diariamente. A tecnologia permite que parte desse fluxo seja executada de maneira sistematizada, enquanto o advogado concentra sua atuação nas atividades que exigem interpretação, estratégia e julgamento profissional.
“A inteligência artificial pode executar uma parte significativa do fluxo operacional. O ponto essencial é saber quais atividades podem ser automatizadas e em quais momentos o julgamento humano é indispensável”, explica Lucas Barbosa Oliveira, advogado com mais de uma década de experiência em contencioso tributário, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), com LLM em Direito Tributário pelo Insper e fundador da empresa de inteligência jurídica Iter.
A seguir, o especialista apresenta cinco formas pelas quais a inteligência artificial pode tornar o trabalho jurídico mais eficiente. Confira!
1. Automatizar tarefas repetitivas do contencioso
Nem toda atividade realizada no acompanhamento de um processo exige o mesmo nível de julgamento profissional. Verificar movimentações, organizar documentos, classificar decisões e identificar informações relevantes são tarefas que podem consumir uma parcela significativa do tempo das equipes.
Com sistemas especializados, parte desse trabalho pode ser automatizada. A tecnologia pode acompanhar processos continuamente, identificar novas decisões, ler seu conteúdo e classificar as informações antes que elas cheguem ao profissional responsável.
“O objetivo não é colocar o advogado para refazer manualmente tudo aquilo que a máquina produziu. É fazer a tecnologia executar aquilo que pode ser sistematizado e entregar ao profissional o trabalho estruturado para que ele exerça justamente a parte que depende de julgamento”, explica o advogado.
2. Analisar grandes volumes de informações
A capacidade de processar dados em escala é uma das principais vantagens da inteligência artificial aplicada ao Direito. Em vez de analisar decisões isoladamente, sistemas especializados podem trabalhar com grandes acervos de jurisprudência, relacionando precedentes favoráveis e desfavoráveis e acompanhando mudanças relevantes de entendimento.
Essa capacidade pode ajudar o advogado a enxergar o contexto em que determinada decisão está inserida e direcionar sua atenção para os elementos que realmente exigem análise profissional.
Para Lucas Barbosa Oliveira, o ganho está justamente na combinação entre escala tecnológica e conhecimento jurídico. “A máquina consegue processar uma quantidade de informação que seria muito difícil acompanhar manualmente. O ganho está em entregar esse material organizado para que o advogado consiga tomar uma decisão melhor fundamentada”, afirma.
3. Transformar informações em trabalho estruturado
A inteligência artificial no Direito pode avançar além da pesquisa e do resumo de documentos. Quando integrada a fluxos construídos especificamente para atividades jurídicas, a tecnologia pode participar de diferentes etapas de um processo.
Uma nova decisão, por exemplo, pode ser identificada automaticamente, lida em sua íntegra, classificada e relacionada a uma base previamente estruturada de teses, argumentos e caminhos processuais. A partir dessas informações, o sistema pode preparar uma minuta para análise do advogado.
Nesse modelo, a tecnologia deixa de funcionar apenas como uma ferramenta consultada pontualmente e passa a integrar a própria cadeia de trabalho. Bases jurídicas previamente curadas e parâmetros definidos por especialistas ajudam a orientar a atuação dos sistemas e a reduzir o espaço para respostas fora do contexto esperado.

4. Tornar informações e resultados rastreáveis
A velocidade de processamento ganha valor quando vem acompanhada da possibilidade de conferir como determinado resultado foi obtido. Em aplicações jurídicas especializadas, fundamentos apresentados em uma minuta podem ser vinculados às fontes que os sustentam, permitindo que o profissional consulte o documento original e verifique a informação utilizada. Quando uma situação foge dos parâmetros previamente estabelecidos, ela também pode ser direcionada à análise humana.
“Se uma afirmação jurídica vai sustentar uma peça, ela precisa ser conferível. A tecnologia deve facilitar essa verificação, e não transformar a origem da informação em uma caixa-preta”, afirma o especialista. A rastreabilidade também contribui para criar históricos de movimentações, decisões e etapas percorridas por cada processo, facilitando o acompanhamento de grandes carteiras e a atualização das informações.
5. Devolver ao advogado mais tempo para decisões estratégicas
Automatizar atividades não significa retirar o profissional da cadeia de decisão. Ao contrário, uma das possibilidades abertas pela inteligência artificial é reduzir o tempo dedicado à mecânica do processo para ampliar a disponibilidade para atividades que dependem efetivamente de conhecimento, experiência e julgamento jurídico.
Uma decisão pode ser identificada, lida e classificada automaticamente, e uma minuta pode chegar estruturada para análise. Antes de produzir qualquer efeito, porém, cabe ao advogado avaliar o conteúdo, definir a estratégia, realizar os ajustes necessários e assumir a responsabilidade profissional. “O nosso desenho sempre pressupõe uma autoridade humana no final da cadeia”, afirma Lucas Barbosa Oliveira.
Essa combinação entre execução tecnológica e decisão profissional ajuda a estabelecer uma nova divisão de tarefas. A máquina pode assumir atividades repetitivas e processar informações em uma escala difícil de alcançar manualmente; o advogado permanece responsável pelas escolhas que exigem interpretação e julgamento.
À medida que a inteligência artificial avança no setor jurídico, seu potencial tende a ir além da produção de textos ou de pesquisas mais rápidas. A transformação mais profunda pode estar no redesenho do fluxo de trabalho, com sistemas executando tarefas em sequência e entregando ao profissional informações organizadas para a tomada de decisão. “A tecnologia executa. A decisão permanece com quem sempre foi responsável por ela”, resume o advogado.
Por Eluan Carlos H. Bürger