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Por que personagens que odiamos são tão difíceis de abandonar? Veja 5 motivos

Eles mentem, manipulam, traem e até matam. Na vida real, provavelmente manteríamos distância. Na ficção, porém, queremos descobrir o que farão no próximo episódio. Tony Soprano, o chefe da máfia e protagonista de “Família Soprano”; Walter White, o professor de química que entra para o tráfico de drogas em “Breaking Bad”; e Hannibal Lecter, o […]

Por Edicase Conteúdo
25/09/2026 13h02, Atualizado há 4 horas

Eles mentem, manipulam, traem e até matam. Na vida real, provavelmente manteríamos distância. Na ficção, porém, queremos descobrir o que farão no próximo episódio. Tony Soprano, o chefe da máfia e protagonista de “Família Soprano”; Walter White, o professor de química que entra para o tráfico de drogas em “Breaking Bad”; e Hannibal Lecter, o psiquiatra e serial killer de “O Silêncio dos Inocentes”, são exemplos de personagens que desafiam uma antiga ideia da televisão: a de que o protagonista precisa ser alguém de quem o público goste.

A presença de personagens moralmente ambíguos não é uma invenção recente. Michael Corleone, o chefe da família mafiosa de “O Poderoso Chefão”, e Norman Bates, o assassino de “Psicose”, já colocavam em xeque a divisão simples entre mocinhos e vilões. Mas a expansão da televisão por assinatura e, posteriormente, do streaming, ajudou a colocar figuras assim no centro de histórias longas.

Para o consultor em estratégia de streaming e fundador da Viureview, André Siqueira, Tony Soprano é um personagem emblemático dessa transformação. “Tony Soprano só existiu porque a HBO não vendia audiência, vendia assinatura. Sem anunciantes para agradar, o canal não precisava de um protagonista agradável. Precisava de um motivo para ninguém cancelar. Essa é uma diferença comercial que virou diferença estética”, afirma.

A seguir, entenda 5 fatores que ajudam a explicar por que personagens que provavelmente evitaríamos na vida real conseguem prender tanto a atenção na ficção. Confira!

1. Identificação não é obrigatória

Durante muito tempo, protagonistas foram construídos para facilitar a identificação do público. Os anti-heróis mostram que essa conexão não precisa passar pela admiração ou pela semelhança.

Walter White começa a série como um professor de química doente e preocupado com o futuro financeiro da família. Com o avanço da história, porém, suas escolhas se tornam cada vez mais difíceis de justificar. O espectador pode deixar de se reconhecer em suas decisões sem perder o interesse por sua trajetória.

“Um personagem não precisa fazer o espectador concordar com ele ou torcer por ele. Precisa provocar alguma coisa. Pode ser medo, raiva, desconforto ou curiosidade”, explica Ado Oliveira, CVO da Watch TV, hub de conteúdo que reúne vários streamings em um único aplicativo.

2. A imprevisibilidade cria expectativa

Quando o protagonista não segue um código moral previsível, fica mais difícil antecipar suas decisões. E essa incerteza ajuda a movimentar a narrativa.

Personagens como Hannibal Lecter podem atravessar limites que um herói tradicional dificilmente atravessaria. O espectador sabe que algo pode acontecer, mas não necessariamente o que, quando ou até onde o personagem irá. É dessa expectativa que surge uma das forças dos anti-heróis: não saber qual será o próximo movimento.

3. As contradições provocam conflito no próprio espectador

A complexidade desses personagens também coloca o público diante de sentimentos contraditórios. É possível compreender uma motivação sem aprovar uma atitude, sentir empatia em determinado momento e repulsa logo depois.

Tony Soprano é um dos exemplos mais conhecidos dessa construção. O protagonista combina a vida de chefe da máfia com conflitos familiares, crises pessoais e sessões de terapia. A narrativa permite enxergar diferentes dimensões do personagem sem, no entanto, justificar suas ações. Assim, parte do envolvimento está justamente no desconforto de não conseguir encaixá-lo completamente nas categorias de herói ou vilão.

Um homem careca, de óculos e cavanhaque, está sentado em uma cadeira usando um macacão amarelo. Ao redor dele há grandes caixas azuis empilhadas e diversos pacotes de dinheiro espalhados pelo chão e posicionados nas laterais da cena.
O espectador pode querer acompanhar o desfecho de um personagem mesmo sem desejar que ele seja bem-sucedido (Imagem: Reprodução digital | Sony Pictures Television)

4. Querer continuar assistindo não significa torcer

Acompanhar um personagem por várias temporadas também não significa desejar que ele vença. O espectador pode querer que ele seja descoberto, punido ou derrotado e, ainda assim, não querer que saia da história.

Para André Siqueira, essa diferença ajuda a explicar a força de personagens como Walter White. “‘Torcer’ é a palavra comum. Ninguém quer que Walter White escape impune. O que a gente quer é que ele continue em cena. Isso não é torcida, isso é retenção. E é exatamente por isso que a indústria aprendeu a amar esses personagens”, afirma.

Nesse caso, a expectativa deixa de ser apenas “será que ele vai vencer?” e passa a ser “como tudo isso vai terminar?”.

5. No streaming, essa atenção ganhou valor de negócio

Se os quatro primeiros fatores ajudam a explicar por que o público permanece diante da história, o último ajuda a entender por que isso se tornou tão relevante para a indústria.

Na televisão por assinatura e, depois, no streaming, conquistar o espectador é apenas parte do desafio. Também importa fazer com que ele continue assistindo, retorne à plataforma e encontre novas histórias que mantenham seu interesse.

“Quando pensamos em conteúdo, não olhamos somente para aquilo que pode gerar interesse na estreia. Um bom catálogo precisa oferecer diferentes portas de entrada e, principalmente, razões para o público continuar explorando. Personagens fortes, histórias que provocam discussão e títulos que permanecem relevantes depois do lançamento fazem parte dessa equação”, afirma Ado Oliveira.

De Tony Soprano a Walter White, portanto, a trajetória dos anti-heróis ajuda a mostrar uma mudança que ultrapassa o roteiro. O público não precisa admirar um personagem, concordar com suas escolhas ou desejar sua vitória. Às vezes, para uma história funcionar, basta uma pergunta: o que ele vai fazer no próximo episódio?

Por Sarah Corazza

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