Apagamentos culturais e a resistência contra o preconceito racial e religioso em Mogi das Cruzes
Prêmio Paz e Liberdade reúne praticantes e simpatizantes da religião em Mogi das Cruzes
21/03/2026 18h41, Atualizado há 23 dias
Prêmio Paz e Liberdade | Foto: Divulgação redes sociais
No dia 21 de março é celebrado o dia Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial e o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Em Mogi das Cruzes e no Brasil, a data é relembrada por ações que movimentam resistência e luta contra apagamentos históricos.
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O historiador, Diogo Dionísio, explica que a intolerância religiosa está diretamente ligada ao preconceito racial no Brasil. “Quando a gente fala que o racismo no Brasil é estrutural, ele é estrutural porque ele molda todas as relações sociais dentro da sociedade brasileira, então automaticamente, partindo do pressuposto de que o Brasil tem um histórico racista, ocorreu uma tentativa de apagamento, não só da questão da religiosidade, mas da presença negra na história do Brasil”, explicou.
Em Mogi das Cruzes, os apagamentos também aconteceram devido ao racismo, como explica o historiador Glauco Ricielle. “Em Mogi a gente percebe bastante relação da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, uma igreja que foi construída ali em meados de 1830 à 1840, pela irmandade, que é uma irmandade de escravizados, em que tinha um grande poder no Brasil de angariar fundos e até mesmo auxiliar em alforrias, a compra liberdade. Em Mogi o nome da igreja foi mudado com o tempo, tiraram os ‘homens pretos’”, contou o historiador que reforçou que, depois de alguns anos, a igreja foi vendida e, em seguida, demolida.
Além da Igreja, existem lugares na cidade de Mogi das Cruzes que são fundados e prestam homenagem às pessoas negras, mas poucos têm esse conhecimento. “Professor Flaviano de Melo, como exemplo, uma pessoa preta, que teve uma importância no começo do século na cidade de Mogi. O Alfredão, que era sapateiro, foi um dos fundadores do união futebol clube, em 1913, um clube fundado por um amigo branco e uma pessoa preta, ambos unidos em pró do esporte”
Glauco reforça que apesar dos avanços na época, a proporção de apagamentos foi aumentando e, juntamente com ela, a falta de conhecimento cultural na cidade.
“A partir do momento que você criminaliza uma religiosidade, as suas celebrações, você persegue as pessoas que estão com suas vestimentas, existe uma seletividade e, essa seletividade, vai contra o pressuposto de que o estado brasileiro, a partir da constituição de 88, é Laico e, sendo estado laico, todos têm direito de professar sua fé”, completou o professor Diogo.
Atualmente, os movimentos de resistência conquistam seus espaços. Em janeiro de 2023, no Brasil, foi instituído por meio de lei, o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé celebrado no dia 21 de março, mesmo dia que se é marcado pelo Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.
Prêmio Paz e Liberdade
O Prêmio Paz e Liberdade reúne praticantes e simpatizantes da religião em Mogi das Cruzes. Uma homenagem concedida pela Câmara Municipal para reconhecer personalidades, empresas ou instituições que se destacam no combate à intolerância religiosa e na promoção da laicidade do Estado.
Idealizado pelo Pai Danilo de Oxalá e o Tata Lindemberg de Nkossi, com ajuda da vereadora Inês Paz, sua primeira edição aconteceu em março de 2023.
“A ideia surgiu assim que saiu a lei, que demorou a ser reconhecida e, junto com a lei, a gente se uniu para trazer isso, fortalecer essa ideia em Mogi das Cruzes, mesmo de nações diferentes, mesmo de terreiros diferentes, a gente entende que tem que se unir e fortalecer, para não só homenagear mas também buscar os direitos dos povos de terreiro”, explicou Tata Lindemberg.
Mesmo após a aprovação, os idealizadores passaram por dificuldades para executarem e prepararem a honraria. Segundo o Pai Danilo de Oxalá, na segunda edição do prêmio, eles foram barrados de entrar no plenário, e somente uma hora depois, foram liberados para preparar e decorar o espaço que aconteceria o evento.
“O paz e liberdade é um marco sobre isso, mostrar pra comunidade de terreiro que a gente tem voz, tem vez e tem direito, coisas que muitas vezes eles desconhecem ou têm medo de procurar, e a gente traz isso publicamente”, contou Lindemberg
A falta de representatividade em espaços públicos em Mogi também foi abordada pelos entrevistados, “não têm representatividade, se a gente contar, fizer um levantamento na câmara municipal, dos 23 vereadores, você não tem nenhum que seja de matriz africana. Como eles vão pensar políticas públicas pro povo de terreiro, se eles não estão com o povo de terreiro? Nós temos esse problema, apesar de nossas funções, nós temos um CPF e um título de eleitor”, afirmou Lindemberg.
Os idealizadores explicaram ainda como funciona a seleção dos homenageados. “A gente coloca critérios, a pessoa [homenageada] tem que ter um histórico, né? um histórico de que faz um de serviço social, que presta um serviço pra sociedade, pessoas que já são militantes, pessoas que já assistiram o evento nos anos anteriores, então são esses critérios que a gente coloca no papel, e a gente soma, são 14 e um homenageado em memória, daquele que também fez a história”, Danilo de Oxalá.
A iniciativa tem como foco principal, difundir o preconceito e quebrar padrões preconceituosos na cidade, a fim de incentivar o conhecimento, a cultura e o respeito. “Eu sinto que vai dando uma abertura para que de fato o respeito às religiões aconteça. Porque é o que a gente quer, estamos vivendo uma democracia, então a questão da religiosidade é de foro íntimo e as pessoas têm suas religiões e nós temos de respeitar”, concluiu a vereadora Inês paz.
A quarta edição do Prêmio Paz e Liberdade, ocorre na próxima segunda-feira (23), no Plenário da Câmara Municipal de Mogi das Cruzes e reúne praticante e simpatizantes do axé de todo o Alto Tietê.
Laura Batista é estagiária e escreveu este material sob supervisão da edição de O Diário.