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Henrique Abib ouviu amigos cantando suas músicas minutos antes de morrer

Pouco tempo antes de falecer, o músico e compositor Henrique Abib ainda pôde ouvir atentamente e até comentar o CD “Meu Quintal”, com músicas de sua autoria, gravado por um grupo de artistas mogianos, numa derradeira homenagem ao amigo, duramente castigado por um câncer fulminante no fígado, com metástase para outros órgãos.  Coube a Mateus […]

Por O Diário
05/07/2023 16h37, Atualizado há 35 meses

Pouco tempo antes de falecer, o músico e compositor Henrique Abib ainda pôde ouvir atentamente e até comentar o CD “Meu Quintal”, com músicas de sua autoria, gravado por um grupo de artistas mogianos, numa derradeira homenagem ao amigo, duramente castigado por um câncer fulminante no fígado, com metástase para outros órgãos. 

Coube a Mateus Sartori, responsável pela produção e arregimentação dos músicos, além de ter participado do disco, levar o produto final, faltando apenas uma música, mas que já tinha os arranjos prontos, nesta quarta-feira (5), pela manhã, até o quarto do Hospital Luzia de Pinho Melo, onde Abib passou as últimas semanas à base de morfina para tentar aplacar as fortes dores que o atormentavam.

Foi emoção de ambos os lados.

Sartori chegou ao quarto por volta de 8h30, quando lá estavam médicos e um grupo de estudantes de Medicina, avaliando outros dois pacientes que estavam ao lado. Abib estava sentado sobre a cama, quando os médicos, sabedores de seu estado muito grave, priorizaram a oportunidade para que ele pudesse ouvir suas músicas. 

“Cheguei e ele estava mal, agitado”, contou Sartori, num relato enviado a todos os participantes do projeto do CD (veja reportagem aqui sobre a produção que mobilizou músicos da cidade).

Para tentar contornar aquela situação, o ex-secretário de Cultura de Mogi passou a conversar com Abib sobre o disco, relatou detalhes do processo de gravação. Por fim, com a ajuda de Isabel, sempre presente ao lado do irmão, ajeitou a máscara, colocou um fone “bem confortável” sobre os ouvidos do amigo e apertou o play do aparelho celular, que iria reproduzir as músicas.

“Começar com ‘Sambaqui’ foi ótimo. Primeiro, porque ele curte pacas essa música que faz referências ao ‘inelegível’ (Jair Bolsonaro)  e, segundo, que o Gui (Guilherme) Bandeira é o queridinho dele (rsrsrs)”, relatou Sartori.

Quando acabou a música, Abib sorriu e disse, satisfeito:

“É isso! Que lindo!”

À medida que as músicas iam sendo ouvidas, Abib ficava mais calmo. 

“A cada cantor que entrava, ele sorria. E assim foi, música a música”, disse Sartori, que ouviu o amigo tentar cantarolar algumas delas e elogiar a voz de Valéria Custódio, ao interpretar “Maria do Luar”. O músico já conhecia Valéria, mas não teve oportunidade de vê-la no palco, cantando.

Sartori também justificou para Abib a ausência de Renato Braz, com quem ficaria a interpretação de “Cambaio”. Resfriado e totalmente afônico, Braz não conseguiu gravar, mas se comprometeu enviar a voz para ser colocada no disco ainda esta semana. 

Sartori interpretou a música provisoriamente para que o amigo pudesse acompanhar. E Abib fez elogios aos arranjos, assim como à música “Tons”, que o próprio Sartori cantou no disco.
Mas nem tudo foram flores. Ao chegar à música “Temporal”, Abib mostrou que os ouvidos continuavam apurados e questionou:

“O que é essa lata que está tocando? (rsrsrsrs) Acho que é o aro do surdo”, disse ele, comentando a imperfeição que seria corrigida durante a finalização do disco. Abib ainda completou, bem-humorado: “Esse não é o surdo de primeira da Mangueira (rsrsrsrs), mas tá bonito”, garantiu.

Nas faixas finais do CD, o autor bem que tentou cantarolar junto com os intérpretes, mas as forças já lhe faltavam. 

Abib se mostrou feliz ao ouvir todos os participantes do disco cantando, juntos, a música “Na Gafieira”.

Quando terminou a última música, o balanço final. 

Abib disse que gostou de tudo. 

Avaliou o disco dizendo que, em alguns momentos era “Jobiniano”, numa referência às bossas e sambas nele contidos; em outros, o disco era mais “Minas”, citando canções que lembravam mais o som das Gerais. 

Ele e Sartori conversaram rapidamente sobre a capa do disco que, por conta de suas correções, não trará uma foto do compositor, mas uma ilustração com os principais referenciais do quintal de sua casa, citados na música “Meu Quintal”,  interpretada por Waldir Vera e que dará nome ao disco. 

Caberá ao ilustrador André Otani desenhar a capa, onde o terreiro terá o mastro de São João, limoeiro, caramanchão e varais com “as roupas de um vasto mundo, que vestiam sonhos naqueles meninos”, como mostra a poesia escrita pelo autor. 

Por fim, agradeceu, agradeceu, agradeceu a todos pelo trabalho, emocionado.

Sartori ainda lhe perguntou se gostaria que deixasse as gravações, fones e tudo mais no hospital para ele continuar ouvindo o disco. Eram cerca de 10h30. E Abib lhe respondeu:

“Não precisa! Está feito! É isso!”.

Henrique Abib morreria alguns minutos depois. 

Por volta do meio-dia.

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