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Lalalá Dog completa dez anos e Mogi ganhará o milésimo graffiti no Centro

Um fenômeno da arte urbana de Mogi das Cruzes completa 10 anos como uma marca temporal do graffiti mogiano. Em março de 2013, cantos escuros e sujos, paredes, portas ou janelas castigadas pelo envelhecimento, abandono e esquecimento nas ruas do centro saíram do ostracismo ao virarem tela a céu aberto para o Lalalá Dog que, […]

Por O Diário
16/07/2023 10h32, Atualizado há 34 meses

Um fenômeno da arte urbana de Mogi das Cruzes completa 10 anos como uma marca temporal do graffiti mogiano. Em março de 2013, cantos escuros e sujos, paredes, portas ou janelas castigadas pelo envelhecimento, abandono e esquecimento nas ruas do centro saíram do ostracismo ao virarem tela a céu aberto para o Lalalá Dog que, descobriu-se, algum tempo depois, era um personagem, na verdade, feminino inspirado em Dalila, a Dog Alemã do artista, tatuador e empresário Jaum, o João Ricardo Vieira Santos, autor das intervenções.

Os dez anos serão marcados pela pintura do Milésimo  Lalalá Dog (leia ao lado), também no centro, numa ação que modula a passagem do tempo para esse grafitti e o seu autor.

Quem chegou a Mogi das Cruzes após essa data – e são milhares de pessoas, já que a cidade recebe média de 6 mil novos moradores por ano – pode não saber.

Mas aquele março ficará para sempre conhecido como uma espécie de “primavera do graffiti mogiano”, o mês em que um personagem simpático, sorridente, de traço excepcionalmente simples, mas com personalidade individual – uma flor, boné, uma cor a mais, tomou espaços sombrios para embelezar a paisagem, criar ritmo à cena ferida pela deterioração urbana, encantar crianças, motivar críticas dos desafinados, enfim, balançar a rotina de quem passava a pé, de carro ou ônibus, pelos nichos que ganhavam, de surpresa, um Lalalá Dog.

Hoje, Jaum ainda digere o efeito do graffiti planejado, inicialmente, para amainar uma dor, a ausência de Dalila, em pontos que normalmente chamavam a atenção dele por motivos outros, como a decadência ou a feiúra de partes desse conjunto arquitetônico. 

Eram cachorros coloridos, azul, amarelo, rosa, vermelho, verde, criados em um momento da vida do artista que não tinha a intencionalidade de afofar raízes que ganharam vida própria a partir do interesse, primeiro, sobre quem seria o autor dos doguinhos. Na sequência, vieram especulações: o objetivo era anunciar um pet shop? Provocar as pessoas e o poder público sobre o descaso com certos trechos do centro? E, por qual motivo seria a concentração dos “lalalás” no centro?

Isso durou uns quatro meses, como Jaum se lembra, do recorte em que ele mesmo busca entender o fenômeno e se posicionar sobre o que faria a partir dali.

Ele se recorda que, como os conhecidos sabiam de sua identidade, na faculdade, no círculo pessoal, ele decidiu conceder a primeira entrevista a O Diário.

“Eu não sabia se devia aparecer ou não. Era uma incógnita e eu não estava preparado para administrar o que estava acontecendo”, afirma agora, aos 40 anos de idade – o personagem icônico foi criado quando ele estava com 30 – e seguia os traços e o gosto pessoal por desenhos animados.

Desde os 13 anos, Jaum desenha.

Para ele, além da simplicidade do traço, do modelo em si, colorido, alegre, e com identidades variáveis, sempre com um sorrisso no rosto, o que contrastava com outros motes do graffiti e da cultura marginal que o embalava (muito mais do que atualmente), pode ser uma explicação para a popularidade alcançada naquele período e, que foi preservada nos anos seguintes, quando houve picos de produção pessoal do artista, dedicada ao Lalalá Dog.
Em quase 4 meses, depois das primeiras intervenções, em março de 2013, o artista conta que somou 100 graffitis. Consolidou-se, assim, a marca dessa expressão  na cidade e também do artista (inclusive com o aparecimento de outros copiadores do Lalalá).
Após as primeiras exposições, como no Mogi Shopping, que levavam seguidores do Lalalá Dog ao encontro do artista, e já assenhorado da política que marcaria o tratamento com o sucesso – “eu sempre estive alinhado com a política, o conceito, sobre como e onde fazer ou não fazer uma pintura” -, Jaum seguiu em frente.
O grafiteiro situa quatro períodos em 10 anos. O inicial quando produziu e atendeu a muitos pedidos e pintou oficinas, restaurantes, escolas, entidades, fábricas…
 Entre 2017 e 2018, após uma desaceleração da atividade hard, o aprimoramento técnico e do traço fez nascer a segunda fase do personagem, com mudanças nos olhos, focinho e orelhas. 

Na Copa do Mundo e com a segunda grande exposição no shopping, o Lalalá registrou novo impulso. Nos anos seguintes, o artista se dedicou a um negócio próprio, a venda de carros, até a pandemia, quando o comércio foi fechado na bancarrota imposta a tantos negócios  e o redirecionamento da vida  de grande parte das pessoas. “Perdi rios de dinheiro”, resume.

Em 2021 e 2022, outra mexida no personagem se dá, com uma mostra de telas inéditas e a pintura no Centro Cultural de Mogi. Foi um tempo de produção de quadros em menor escala. Jaum dedicava-se, como ainda agora, ao ofício de tatuador, uma expressão contemporânea da democratização e dos meios de exposição da arte.

Neste ano, ele abriu um estúdio (no 1.271 da rua Flaviano de Melo), onde comercializa produtos variados, como cópias de telas, bonés e almofadas, além de quadros de outros artistas. 

O Lalalá Dog começa a deixar  a infância, entrou em uma era ciber, com cérebro na cabeça, visor de óculos – mas, na essência, atrai o espectador pela singeleza. 

Para a cidade, lega, até aqui, algo capturado pelo escritor russo Liev Tolstói [1828-1910] ao definir o lugar da arte e o seu poder de sedução e atratividade: “Se faltasse ao homem a faculdade de se contagiar pela arte, seríamos ainda mais selvagens, e principalmente, ainda mais distantes e hostis”.

Telas mogianas

Ainda sem indicar os endereços exatos, Jaum antecipa que os Lalalás Dog de número 999 e 1.000 serão instalados em dois pontos de grande visibilidade da cidade – na avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco, a querida Avenida dos Bancos, e nas proximidades do Terminal Central, na mesma região.

Jaum afirma que um destes desenhos deverá ter entre 10 metros x 10/12 metros. Não chega a ser uma obra super gigante, como alguns similares que passaram a despontar em painéis de alguns pontos da cidade, com assinaturas dele mesmo e outros artistas mogianos.
Dias de chuva postegaram a entrega desses quadros que vão marcar a data fechada de uma década do surgimento dos primeiros Lalalás Dog.  Nesse período, o criador do graffiti viveu a projeção pessoal da arte iniciada ainda muito jovem, na escola, mas também o caráter social e humano, ao participar de eventos destinados a públicos como o infantil.

Apesar de ter “morado” durante algum tempo na região central, em pontos mapeados mentalmente pelo autor na passagem pelas ruas do centro e que se tornaram mural para os primeiros graffitis, o Lalalá Dog foi para paredes outras, em todos os bairros, por força de encomendas e convites atendidos pelo artista. “Houve uma invasão de arte, não importando qual bairro era e nem o local: oficinas, pizzarias”,  diz.

Nascido na década de 1970, nos Estados Unidos, como graffiti, o uso do espaço público para desenhar, pintar e escrever é milenar e acompanha a história humana – que o digam os banheiros públicos. Nos últimos 50 anos, entretanto, a aquarela pública das cidades serve de museus democráticos  e livres para a expressão artística, política e da crítica social, e a comunicação (pichação) num movimento com tal estatura que projetou talentos de todas as origens, como Os Gêmeos, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo,  do Brasil, movimenta cadeia econômica e furou a bolha da arte limitada às galerias caríssimas e exclusiva a alguns poucos apreciadores e compradores: a elite.

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