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Os desafios do grupo que andou de Suzano à Salesópolis para homenagear vítimas da Covid

Em três dias, sete pessoas deram 866.523 passos, ao longo de 85,7km que separam Suzano e Salesópolis. O objetivo deste grupo, que integra o Teatro Contadores de Mentira, era estabelecer uma homenagem a todas as pessoas que morreram vítimas da Covid-19 no país. Eles conseguiram. E como fosse pouco, fizeram muito mais.  A caminhada foi […]

Por O Diário
07/08/2021 07h22, Atualizado há 58 meses

Em três dias, sete pessoas deram 866.523 passos, ao longo de 85,7km que separam Suzano e Salesópolis. O objetivo deste grupo, que integra o Teatro Contadores de Mentira, era estabelecer uma homenagem a todas as pessoas que morreram vítimas da Covid-19 no país. Eles conseguiram. E como fosse pouco, fizeram muito mais.  A caminhada foi marcada por ritos e performances artísticas, o que mantém viva a efervescência cultural durante a ainda vigente pandemia de Covid-19. Tudo foi filmado, e poderá ser visto em breve, em uma “microssérie” de três episódios.

Daniele Santana, K.iqui Calisto, Samuel Vital, Pamella Carmo, Silas Xavier, Cleiton Pereira e Michael Meyson. Estes são os nomes dos atores, atrizes, ativistas, guerreiros e guerreiras que enfrentaram o desafio. Com 0ºC no termômetro e sensação térmica abaixo disso, saíram da sede da companhia, em solo suzanense, com destino à nascente do Rio Tietê.

Os primeiros passos foram dados na madrugada do dia 30 de julho, sexta-feira. Os sete se dirigiram à Avenida das Orquídeas, que faz ligação com Jundiapeba, em Mogi das Cruzes. Depois, atravessaram a cidade, fazendo uma parada na rodoviária, onde foram recebidos com café e pães de queijo por apoiadores.

Dali, o caminho se seguiu pela Avenida João XXIII, chegando a César de Souza. E então, o inusitado. Há quase dois anos, a pandemia de Covid-19 vem suprimindo os palcos culturais. Mas os Contadores de Mentira fizeram da cidade seu tablado. Toda a caminhada foi marcada por “ritos, performances, demarcações de território, de posição”, como bem define K.iqui Calisto. 

Foi ele quem encenou o primeiro destes momentos, em homenagem à Vani dos Santos, “poeta mãe de uma amiga, de Santos, da baixada”., que assim como outras 557 mil pessoas “acabou sendo pela pelo vírus e acabou não resistindo”. 

De volta à trilha, ainda na sexta-feira os sete “peregrinos” entraram na Estrada de Santa Catarina, no Conjunto Jefferson, e seguiram na área rural no sentido de Biritiba Mirim. E encerrou-se ali o primeiro dia de rito, com 42 quilômetros percorridos. 

Autor, pesquisador e diretor de teatro italiano, “Eugenio Barba fala que, quando a gente chega e consegue tocar no limite, precisa atravessar. O primeiro dia foi este momento”, diz K.iqui, que relata, nas primeiras horas, ter enfrentado as consequências de uma geada, que deixava gelo sobre os cílios e sobrancelhas dos caminhantes.
Os próximos dias também se seguiram assim, com adversidades, mas em silêncio em respeito “ao rito de despedida que não foi permitido às pessoas que morreram”, como define Daniele Santana. Até que no domingo (1º de agosto) os Contadores chegaram ao destino, que não é nada aleatório. A nascente do Rio Tietê foi selecionada a dedo, para que o ato pudesse ser finalizado “encontrando de novo a vida, o renascer, a pureza”. 

Embora todos os integrantes estivessem esgotados, um deles merece destaque. No alto de seus 70 anos, Samuel Vital completou o percurso, assim como os mais jovens. 

“Nosso rito, de dar um passo para cada pessoa que morreu por Covid no Brasil, foi entregue”,  afirma K.iqui. Na verdade, mais do que entregue. Além dos 557 mil passos planejados, o grupo deu outros 300 mil, apenas para chegar ao “símbolo de nascente, de vida e de abundância”. 

Todo este processo, chamado de rito ‘Passos para Quem Partiu’, foi filmado e poderá ser assistido entre os dias 13 e 29 de agosto, dentro da programação do Festival E(s/x)tirpe (leia mais nesta página). 

Mas atenção, alertam os Contadores: “não filmamos o rito. O rito foi filmado”. Tem diferença mesmo. “nada, absolutamente nada do que foi feito para a câmera”. Ela apenas estava lá, sob os olhares de Vitor Gonçalves, da Rolo B Filmes, e também de Nando Rodrigues.

 

Ritos serão exibidos no ‘Festival E(s/x)tirpe’

Além das fotos dispostas nesta página, todo o rito ‘Passos para Quem Partiu’ foi filmado e será exibido em formato de microssérie pela programação do ‘Festival E(s/x)tirpe – Encontro Para Celebração e Rito’. Organizado pelo Teatro Contadores de Mentira, o evento terá também a participação de artistas de diversos países e acontece entre os dias 13 e 29 de agosto.

Com 50 atividades distribuídas em 17 dias, a agenda será dividida em três atos: Corpo Ausente, Preservação dos Sentidos e Ode Aos Profanos. Cada um é composto por obras que, em seu cerne de pesquisa, linguagem e ou estética, são atravessados por estes temas. E entre eles, vai ao ar um episódio composto por imagens da caminhada feita em homenagem às vítimas da Covid-19.

“É um encontro que se apresenta como um festival, mas que em seu desenrolar se mostra um grande e único ato performático de poesia e explosão”, contam Daniele Santana e K-iqui Calisto.

Vale destacar que os atos também trazem espaços de aprendizado por meio de oficinas e palestras de artistas que se relacionam com os aspectos temáticos.  E que tanto as “apresentações artísticas” como as “ações formativas”, serão, por sua vez, distribuídas em três frentes (micro performances, inserções poéticas e ritos). 

Alguns dos destaques são o espetáculo teatral ‘Desmontagem Meierhold’, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre, às 20 horas do dia 18; a performance ‘Baile Baião’, de Helder Vasconcelos, de Recife, às 21 horas do dia 22; e a apresentação ‘Manifesto’, da cantora, compositora e percussionista pernambucana Alessandra Leão, às 20 horas do dia 29.

Já entre os destaques internacionais estão ‘Adiós Ayacucho’, do grupo Yuyachkani, do Peru, às 20 horas do dia 15; ‘Ñaque Historias de Piojos Y Actores’, do Ensamblaje Teatro, da Colômbia, às 20 horas do dia 19; e ‘A Vida Crônica’, do grupo dinamarquês Odin Teatret, às 20 horas do dia 28.
E entre as palestras, destacam-se ‘Sobre o Corpo Ausente’, do diretor, pesquisador e membro fundador do Grupo Cultural Yuyachkani Miguel Rubio (Peru) , às 19 horas do dia 14, e ‘Preservação dos Sentidos’, de Tiche Viana (Campinas/SP) às 20 horas do dia 23.

A programação completa de E(s/x)tirpe está disponível no site www.festivalesxtirpe2021.com. Para participar e/ou assistir é fácil: basta ficar ligado no canal oficial dos Contadores de Mentira no YouTube.

 

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