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Aumento do custo de vida muda rotina de famílias de Mogi

A rotina da família da Andreia Oliveira Furtado Rodrigues, assim como a de muitas outras, mudou neste início de ano. Com o aumento do custo de vida, ela e o marido tiveram que adaptar o cardápio, transferir uma das filhas de escola, trocar o carro pelo ônibus, cortar o lazer e a pizza do fim […]

Por O Diário
02/04/2022 17h00, Atualizado há 53 meses

A rotina da família da Andreia Oliveira Furtado Rodrigues, assim como a de muitas outras, mudou neste início de ano. Com o aumento do custo de vida, ela e o marido tiveram que adaptar o cardápio, transferir uma das filhas de escola, trocar o carro pelo ônibus, cortar o lazer e a pizza do fim de semana, entre outras medidas que passaram a adotar para conseguir sobreviver à alta da inflação, que tem acentuado a perda do poder de compra da população.  

Esse é o drama vivido por muita gente que tem que encontrar uma forma de conviver com a situação. Andreia está “indignada e chocada” com o aumento do custo de vida, começando pela alta nos preços dos alimentos. “Frutas, verduras e legumes, que antes estavam presentes em todas as refeições, agora viram artigo de luxo para minha família de cinco pessoas”, comenta. 

Ela alega que os ganhos não suficientes para comprar cenoura, que até pouco tempo custava R$ 3,00 e agora é comercializada por R$ 12,00, e acha “um absurdo” o preço da alface a R$ 5,00. Cita ainda o preço de produtos como tomate a R$ 12,00; melão R$ 6,00 a R$ 8,00; quiabo R$ 13,00; café meio quilo mais de R$ 12,00; entre outros.

  Andreia está se preparando para ingressar no mercado imobiliário e tem uma filha adolescente, duas gêmeas especiais e o marido precisou ser afastado do trabalho por problemas na coluna. “Antes saíamos de carro para levar as filhas ao médico ou por qualquer outro motivo, mas com o aumento do preço do combustível, tudo tem sido feito de ônibus”, relata. Em algumas situações, conta que vai e volta do centro para casa a pé e aproveita para passar nos supermercados para fazer pequisa de preço. A família que mora em César de Souza teve que arcar também com a alta no preço do condomínio, aumento da conta de energia elétrica e gás de cozinha.  

A internet foi reduzida e ela está preocupada com as mensalidades da faculdade de biomedicina, que a filha adolescente cursa, mesmo com o desconto de bolsa de estudo. Ela explica ainda que precisou tirar uma das gêmeas da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e transferir para uma escola normal perto da casa, junto com a irmã, porque não tinha condições de bancar o transporte.  
Na casa da professora Antônia Benedita da Cruz, no Mogi Moderno, ela explica que para economizar, um dos filhos trocou o ônibus fretado pelo trem para estudar  em São Paulo. A filha conta  vai até o trabalho, no centro, de bicicleta, e passou a levar marmita em vez de comer fora. O contrato de TV por assinatura e os streaming (Netflix e Globoplay) foram cortados

“O custo de vida subiu muito e está difícil manter o padrão de antes. Até pouco tempo, a gente fazia uma compra boa com R$ 300,00, que dava para duas semanas. Agora, não dá para garantir nem a semana. Trocamos a carne vermelha pelo frango, carne de porco, linguiça, salsicha”, comenta. 
O preço dos produtos, segundo ela, está muito mais elevado do que os números oficiais da inflação, que acumulou índice de 9,74% em 2021 e elevação de 1,65% nos dois primeiros meses de 2022, segundo a Fipe. “O pior é que os salários não acompanham o aumento no custo de vida”, reclama.
Mãe de oito filhos, Michele Pereira da Silva, moradora na Vila Cintra, em Braz Cubas, disse que está “tentando fazer de tudo para aumentar os ganhos da casa para manter a casa e as contas em dia e todos alimentados”. 

Após um longo período sem trabalho durante a pandemia, ela disse que atualmente está trabalhando como cuidadora, ajudando uma amiga e vai a pé até o trabalho na região do centro da cidade, porque não consegue arcar com as despesas do transporte coletivo, que também sofreu aumento de preço em Mogi, passando de R$ 4,60 para R$ 5,00. 

Michele também está “inconformada” com o aumento de preços do gás de cozinha, energia elétrica, mas principalmente dos alimentos. “Quem consegue pagar o botijão de gás a R$ 180,00, o aumento no preço da energia elétrica, da conta de água? Tudo piorou e o problema é que não vejo uma possibilidade desta situação mudar tão cedo”, reforça.

Preço pesado 

A inflação volta a assombrar os brasileiros, com aumento  do custo de vida, agravado pelo desempego e redução do poder de compra, uma situação que reflete os problemas da pandemia, agravada com os impactos da guerra da Rússia e Ucrânia, como afirma o economista Arcílio Ruzzi. Ele atribui parte do problema à elevação do preço do combustível, comprometendo ainda mais a economia.

Com a elevação de preços dos produtos, os serviços ficam mais caros e a população tem que gastar mais para sobreviver. “As famílias com baixa renda são as mais afetadas pela alta generalizada nos preços e no orçamento doméstico. Quando você para e a economia cai de um dia para noite, para recuperar isso não é da noite para o dia e vai demorar tempo”, afirma ele.

“O que vivenciamos nos últimos dois anos foi a quase que total paralisação das atividades econômicas e o reflexo está batendo porta agora.  Houve uma queda na produção em vários setores, mas a demanda da população não reduziu. Quando há uma paralisação das atividades econômicas e uma queda na produtividade,  se cria uma série de problemas futuros e um certo desabastecimento do mercado, que para de produzir e de ofertar. A pressão sobre os preços atinge inflação e todos perdem”, pondera.  

 Apesar de afetar a classe média, com a queda poder de compras, no final das contas quem mais sofre mesmo são as famílias mais vulneráveis, porque ganham pouco e já vinham enfrentando a perda de receita e o desemprego.  A elevação dos preços de produtos básicos, como os alimentos e o gás, por exemplo, afeta diretamente as classes sociais mais pobres. 

Ruzzi chama atenção para os estudos que relatam aumento da pobreza e da fome no Brasil, por isso é a favor dos programas de transferência de renda para essa população.   “O poder aquisitivo reduziu e o salário não aumentou na mesma proporção, os preços sobem mais do que o poder aquisitivo. O que mais prejudica as famílias é o aumento dos preços dos alimentos, especialmente para famílias de menor renda, do gás, energia elétrica”, avalia.

 O agravante, de acordo com o economista, foi o aumento dos preços dos combustíveis, impulsionado  pela guerra que faz a pressão subir. A questão é que em um país como o Brasil que privilegia o transporte rodoviário, a alta do preço do combustível, principalmente o diesel, reflete nos transportes dos produtos, porque aumenta o custo da entrega e no final quem paga a conta  é o consumidor 
Ele alega, no entanto, que os aumentos nos valores de produtos agrícolas, em especial dos hortifrutis “não se justificam” porque o país  não precisou reduzir o plantio até porque ainda há estoques de fertilizantes – importados da Rússia –  Na opinião dele, isso é uma questão de oportunidade do momento. 

“Com tudo aumentando, todos vão seguir a mesma tendência e isso é uma reação normal, porque as pessoas acham que vão ficar para trás e ter prejuízo. Outra explicação é a mudança de hábito. Quando a carne vermelha começa a ficar cara, as famílias vão para o frango, aumentando a procura pelo produto. Se aumenta o frango, vai para peixe, é uma reação em cadeia”. Para ele, os preços serão ainda mais pressionados com o aumento do preço do trigo.
 
Desemprego  

 O País convive com os altos índices de desemprego, além de que a política salarial não acompanha os índices de inflação, ou seja: os trabalhadores não têm aumento real de salários enquanto os preços não param de subir, em níveis acima da própria inflação. “Esse quadro contribui para acentuar a pobreza no País. E mesmo que as coisas se resolvam, a retomada não é tão rápida. O mercado de trabalho começava a dar sinais de melhora,  mas com a  guerra acabou dando uma freada. O bom é que o emprego informal está sendo absorvido pelos MEIS. Isso, de certa forma, melhora o mercado de trabalho e dá folego para as pessoas crescerem”, diz.

Sem perder o otimismo, ele afirma mudanças na classe política nas eleições deste ano, especialmente os integrantes do Congresso Nacional, que precisam seguir com as reformas necessárias – tanto a tributária como a administrativa – para incentivar novos investimentos e garantir a retomada da economia no País

Comércio: queda nas vendas

O comércio varejista aponta queda nas vendas em março de até 5% em relação ao volume de negócios registrados no início do ano, quando o setor começava a dar sinais de recuperação.

Existe uma preocupação de que os índices cheguem a 10% com a possibilidade de agravamento da recessão, que pode causar desemprego e fechamento de estabelecimentos, segundo análise feita pelo presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sincomércio) de Mogi das Cruzes e região, Valterli Martinez 

“A recessão e o aumento do preço do combustível influencia o custo das mercadorias e agora com a guerra  (Rússia contra a Ucrânia) todos estão apreensivos com a possibilidade de faltar de matéria prima para a agricultura, o que pode provocar alta maior de preços e afetando o comércio varejista”, avalia. Ele disse que situação é mais complicada para os setores de vestuário e calçados, os mais afetados com a queda das vendas. 

De acordo com Martinez, as famílias estão mais endividadas e muitas delas não conseguem mais fazer carnês para parcelar as compras. 

ACMC

A Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC) também afirma que a alta no preço dos combustíveis impacta toda a cadeia produtiva e os setores econômicos do Brasil que depende do transporte das mercadorias.  Segundo a entidade, alguns segmentos, como o de alimentos, que têm o abastecimento mais frequente, devem sofrer mais os impactos desse aumento, e invariavelmente, esse reajuste deverá incidir no custo final para o consumidor, caso a situação se prolongue. 

Indústria: reflexos da guerra

A Delegacia Regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) do Alto Tietê avalia que os impactos dos conflitos entre Rússia e Ucrânia nos setores produtivos são inevitáveis, principalmente no cenário globalizado e num contexto de recuperação econômica em meio a pandemia que persiste.
A pressão inflacionária, resultante da alta dos preços das commodities, segundo o diretor do Ciesp Alto Tietê, José Francisco Caseiro, se destaca por gerar alta nos juros que, no caso do Brasil, já eram elevados e podem comprometer muito os investimentos. Se não bastasse isso, o setor produtivo do País  também enfrenta a alta da inflação e do petróleo.

Além dos preços de combustíveis (gasolina e diesel), que refletem diretamente no transporte de mercadorias, que já é um dos principais componentes do custo final do produto, a entidade alega que a alteração do custo do petróleo impacta a indústria de produtos petroquímicos, como plásticos e embalagens.

“Porém, os preços estão tendo variações para cima e para baixo dependendo das notícias que vem do Leste Europeu. Isso exige cuidados diários com as informações e a necessidade de aguardar primeiro como o mundo reage a elas antes da tomada de decisões. É um período de muitas incertezas”,  pondera o diretor do Ciesp Alto Tietê, José Francisco Caseiro. 

Não existe preocupação na região com a exportação e importação de produtos indústrias no Alto Tietê, já que a Rússia e Ucrânia não aparecem entre os principais mercados exportadores e importadores da região.

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