Câmara aplaudiu a independência de Serguei, país africano que nunca existiu
Agenor Pereira era um feirante que se tornou vereador em Poá, no final dos anos 70. Negro, quase sem estudos, logo se tornou alvo de brincadeiras nada edificantes de seus colegas de Câmara. Eleito com o bordão “O macaco tá certo”, que ele se apropriou de um programa humorístico da Rede Globo de Televisão, Agenor […]
02/07/2021 15h03, Atualizado há 62 meses
Agenor Pereira era um feirante que se tornou vereador em Poá, no final dos anos 70. Negro, quase sem estudos, logo se tornou alvo de brincadeiras nada edificantes de seus colegas de Câmara.
Eleito com o bordão “O macaco tá certo”, que ele se apropriou de um programa humorístico da Rede Globo de Televisão, Agenor era muito mais esperto e ágil que muitos dos colegas que praticavam o que hoje seria chamado de bullying com ele.
As histórias mirabolantes de Agenor logo ganhariam o País, graças à criatividade – até exagerada – usada por ele em suas propostas legislativas, como esta coluna já mostrou em outras oportunidades.
Mas outros “causos” de Agenor são lembrados até hoje, como aquele contado por Fermin Puerta Filho, em seu livro “José Massa…momentos de uma vida”.
Lembra o autor que por inúmeras vezes, Agenor suportou as brincadeiras e pilhérias dos colegas que se referiam à sua pouca escolaridade. Muitos alegavam que, por ele ser o único negro da Câmara, caberia a ele se preocupar com questões envolvendo o continuente africano.
Em determinada sessão, o vereador Agenor apresentou uma moção de congratulações ao novo país criado na África, que conforme notícia, segundo ele, divulgada pelo Estadão, do domingo anterior, que ele fazia questão de apresentar, dobrado, sob um dos braços, havia se libertado da administração dos ingleses , constituindo após anos e anos de lutas a República de Serguei.
A moção foi aprovada por unanimidade no plenário, onde poucos se deram conta do conteúdo do trabalho, creditando-o a mais uma das esquisitices do vereador.
O presidente da Câmara, à época, solicitou que, após os trâmites relativos à aprovação, ela fosse encaminhada ao Itamaraty, que cuida das relações externas brasileiras, a quem caberia enviá-la aos dirigentes do novo país.
Após a aprovação da moção e das providências da mesa do Legislativo, o vereador Agenor voltou a fazer uso da tribuna para dizer que não ficaria bem para pessoas de tão elevado grau de escolaridade saírem por aí aprovando moção para um país que nunca existiu, só porque ele pediu para que eles aprovassem. Lembrou também aos colegas que, daquele jeito, seriam capazes de aprovar, sem saber, a própria renúncia ou sua sentença de morte.
Foi a grande vingança de Agenor Pereira contra aqueles que o achincalhavam no plenário da Câmara poaense.
Daquele dia em diante, mesmo as mais absurdas teorias defendidas por Agenor eram avaliadas com respeito e preocupação pelos demais vereadores da cidade.
Mas ele não parou por lá. Durante seu mandato, Agenor faria grande sucesso nos congressos de vereadores, muito comuns à época, onde ele costumava se superar a cada edição, apresentando sugestões exóticas, que deixavam impressionados todos os demais participantes, como veremos em outras histórias do vereador poaense